A traição da inocência

A traição da inocência
Por Vanesca Ferro

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Vanesca Ferro é professora com graduação em Letras pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA)

Neste artigo, faremos uma reflexão sobre a educação numa família patriarcal. Tomaremos como ponto de partida o livro “A Normalista” de Adolfo Caminha. O romance trata de um  drama pessoal vivido pela jovem estudante Maria do Carmo, órfã de pais que passou a ser criada pelo padrinho João da Mata, um sujeito indecente e sem escrúpulos, que, aproveitando-se do privilégio de padrinho desvirginou e engravidou sua afilhada.

O que aconteceu nesta obra de ficção não é diferente da realidade de muitas jovens brasileiras criadas num ambiente doméstico conservador e patriarcal carente de valores e uma falta de orientação moral e ética da escola e dos demais órgãos públicos responsáveis pela orientação sexual no país. Essas jovens acabam tornando-se condescendentes com a formação que lhes é atribuída, sendo incapazes de  autonomia na tomada de decisões e garantia de seus direitos na sociedade.

Ao analisarmos as possíveis causas que tornaram Maria do Carmo conivente e passiva diante da soberania do padrinho, percebemos que a educação que ela recebera na Escola Normal era altamente tradicional, professores mal preparados para o exercício da prática docente, falta de recursos didáticos, e um currículo anacrônico, isto é, fora de época,   que não condizia com a realidade e o interesse das alunas  posto que estas passavam a maior parte do tempo lendo romances e maldizendo o próximo.

Observamos que este tipo de formação só ajudava na promoção da passividade e resignação diante dos fatos, e os futuros alunos dessas normalistas receberiam uma formação moral e ética desastrosa , uma vez que professores tímidos e inertes são incapazes de instigar a curiosidade e a busca pelo conhecimento e muito menos fomentar no educando a criticidade, a liberdade e a esperança na busca por dias melhores.

Como cita nosso grande educador Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia, o professor que não supera sua ignorância é impossível superar a de seu aluno, pois não se pode ensinar o que não se vive e além disso não é possível separar o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos.

 Desse modo se a educação estiver voltada para estes preceitos, poderemos evitar tantas fatalidades como a que ocorrera com a normalista, pois, se a mesma tivesse a oportunidade de uma orientação escolar adequada, teria a chance de ter rompido com o autoritarismo do padrinho e não teria sido tão ingênua a ponto de ceder tão facilmente aos seus assédios e assim lutar pela felicidade conjugal ao lado de Zuza. Porém , ela manteve-se omissa e não teve como fugir a armadilha do determinismo que lhe possibilitou um casamento de conveniência e uma vida marcada de cinismo e aparências, invalidando assim suas esperanças de um futuro promissor.

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