Sob os intercódigos da alfabetização do olhar

Rodrigo da Costa Araújo

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(O Falso Espelho, René Magritte)

 

O “mistério” do olhar (…) situa-se na zona de transbordamento”.  Roland Barthes

Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável – árvores e pedras são apenas aquilo que são.

CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. In: As Cidades e os símbolos. p 17. Cia. das Letras, 1990.

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

A imagem foi desde que surgiu, um ponto imbricado entre múltiplos discursos: estético, literário, filosófico, sociológico ou semiológico. Seu uso em qualquer área tem sido crescente e significativo, sobretudo nos meios de comunicação. Alguns autores têm procurado focalizar a imagem não tanto como um simples objeto, mas como uma forma de ver e de pensar, ou seja, uma maneira de ser no mundo, um estado do olhar e do pensamento.

O uso da imagem envolve um entendimento de códigos entre autor e espectador, no sentido de construção/desconstrução, ou seja, uma leitura semiótica. A imagem visual não é uma simples representação da realidade, mas um sistema simbólico. Ela “é sempre já um primeiro grau de associação e de montagem; ela já possui uma estruturação.” (FRANCASTEL, 1987, p.31). Ao contrário do que se pensa habitualmente, a imagem não significa restituição, mas sim reconstrução, ou seja, é sempre uma alteração voluntária da realidade que é preciso aprender a sentir e a ver .

A imagem, ao olhar semiológico, precisa atravessar o discurso e a escrita para poder constituir-se como elemento importante no entendimento do mundo. Ver, como ler, assume, barthesianamente, a forma de uma deriva. “A deriva advém toda vez que eu não respeito o todo e que, à força de parecer arrastado aqui e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidações da linguagem” (BARTHES, 1973, p. 28).

De qualquer maneira, o texto visual vem sendo redescoberto e exige o que, metaforicamente, se poderia chamar de alfabetização do olhar. A imagem, até hoje, opera uma cultura própria do fragmento, do mosaico. Vemos pedaços de informações misturados com signos de diversas formas. É nesse sentido, que a alfabetização visual é imprescindível ao olhar que procura. “As imagens, assim como as histórias, nos informam” (MANGUEL, 2003, p.21).

A recepção da imagem, ao contrário da palavra, no senso comum é mais direta e exige menos esforço de penetração, criando a falsa impressão de que é necessário apenas ver. Toda leitura não-verbal é um complexo ato de recepção. Com “esse êxtase hipnótico”, para usar uma expressão de Lucrécia Ferrara (1981), força-se o espectador a dilatar as pupilas para ver melhor, para identificar com maior nitidez o que se encontra escondido. Em sentido barthesiano, o espectador deveria produzir um certa mântica[1].

No esforço do olhar, é importante saber que toda linguagem tem uma lógica própria, um código a ser desvendado. A escrita tem uma sintaxe e estrutura próprias, os filmes uma armadura, com encadeamentos, com inter-relações entre as sequências e os planos. As artes plásticas produzem um espaço diferente, tem textura e revela cores inesperadas aos olhos que só está acostumado a ver o mundo “real”. “Qualquer que seja o caso, as imagens, assim, como as palavras, são a matéria de que somos feitos” (MANGUEL, 2003, p.21).

De qualquer forma, nesse passos da alfabetização do olhar, o que deve ser levado em conta é o imaginário do receptor. Tanto na linguagem escrita, como na visual, o que faz sua riqueza não é apenas o conteúdo da história, mas os seus interstícios na trama. “O poder imaginário é imediato: não procuro a imagem, ela chega-me bruscamente” (BARTHES, 1977, p. 253).

Nesse caso, cabe ao leitor atento preencher os vazios, o mundo, as lacunas deixadas pelo escritor e pelo cineasta (no caso do cinema). Por isso, no trabalho com a leitura da imagem, o mediador da descoberta do olhar precisa possibilitar operadores para se entrar no texto, na obra de arte. Isso é válido para qualquer linguagem, não apenas a linguagem visual. “A obra de arte é o possível e o provável, nunca é o certo” (FRANCASTEL, 1987, p.41).

Os filósofos também pensaram nisso. Para Platão apenas re-conhecemos o que já conhecemos, ele afirmava que a beleza de algo, não passa de uma cópia da verdadeira beleza que não pertence a este mundo. Já Aristóteles defende que o belo é uma criação humana, e resulta de um perfeito equilíbrio e uma série de elementos.

Assim, brincando como os filósofos e com as linguagens, o leitor perceberá que o olhar artístico tem uma especificidade própria de acordo com o código e que entre essas linguagens podem-se estabelecer diálogos. “Todos os sentidos podem, pois, “olhar”, e inversamente, o olhar pode sentir, escutar, tocar etc.” (BARTHES, 1982, p. 280).

As imagens apresentam o cenário no qual as atividades diárias, os atores sociais e o contexto sociocultural são articulados e vividos. Permitem elucidar comunicações não-verbais, relações espaciais entre pessoas e padrões de comportamento através do tempo. Os quadros do mundo da arte retratam a história visual de uma sociedade, documentam situações, estilos de vida, gestos, atores sociais e rituais e aprofundam a compreensão da cultura, sua iconografia e suas transformações ao longo do tempo. É a poesia sem palavras.

O texto verbal e o visual são polissêmicos e complementares, sendo cada um mais adequado a determinados usos. Tudo confirma que “os signos definem-se por relação uns com os outros. Um signo é sempre interpretável por outros signos”. (YANGUELLO, 1997, p.84). Há necessidade de ler e distinguir criticamente as diferentes imagens como fonte de pesquisa ou de ensino em todas as áreas do ensino.

Ler imagens significa classificar seus significados, entender seu sentido, atentar para o trajeto do olhar, as impressões visuais globais, as rupturas ou contradições entre o que é percebido e o que é compreendido. Isso é mais amplo do que uma simples leitura. A imagem não é um texto sem palavras, e ler imagens é, sobretudo, analisar os signos e sua produção, desenredar as relações existentes entre os diferentes elementos, descobrir o latente atrás do aparente, o não visível através do invisível, o óbvio e o obtuso, o dito e o não-dito. Ou seja, segundo BARTHES, o terceiro sentido. A leitura não-verbal, segundo Lucrecia Ferrara (1997, p.26) “é uma maneira peculiar de ler: visão/leitura, espécie de olhar tátil, multissensível, sinestésico. Não se ensina como ler o não-verbal.”.

No rearranjo visual da imagem, o leitor pinça sempre um recorte – porque é impossível observar toda a imagem numa amplitude de leitura, uma vez que tal observação vai ser sempre, como qualquer olhar, da ordem do desejo do leitor – e, ao recortar, desvia sem olhar, “esquece” de um sentido (de um fragmento) e funda a leitura. “Ler é encontrar sentidos, e encontrar sentido é nomeá-los”. (BARTHES, 1970, p.17).

Enfim, em tempos de pós-modernidade e de espaço virtual precisamos ficar atentos aos códigos muitas vezes ausentes da sala de aula, mas que são frequentes na sociedade contemporânea: as imagens veiculadas pela internet, as pseudo-imagens que traçam do professor, da morte e da vida. Enfim, é preciso enxergar a poiésis das Cidades Invisíveis, como sugere Ítalo Calvino, na epígrafe posta acima desse texto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARTHES, Roland. Le Plaisir du Texte. Paris: Seuil.1973

______. Fragments d’un discours amoureaux. Paris: Seiul, 1977.

______. L’obvie et l’obtus. Essais Critiques III. Paris: Seiul, 1982.

______. S/Z. Paris: Seiul, 1970

CALVET, Louis-Jean. Roland Barthes. Um Olhar Político sobre o signo. Trad. Adriano D. Rodrigues. Lisboa: Vega, s/d.

CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo. Companhia das Letras, 1990.

FERRARA, Lucrecia D’Aléssio. Leitura sem palavras. São Paulo. Ática, 1997.

_______. A Estratégia dos signos. São Paulo: Perspectiva, 1981.

FRANCASTEL, Pierre. Imagem, visão e imaginação. Lisboa. Edições 70, 1987.

JOLY, Martine. A imagem e os signos. Lisboa: Edições 70, 2005.

MANGUEL, Alberto. Lendo Imagens. São Paulo. Companhia das Letras, 2001.

YAGUELLO, Marina. Alice no País da Linguagem. Para Compreender a Lingüística. Trad. Maria José Figueiredo. Lisboa: Estampa, 1997.

[1] Mântica, segundo CALVET (s/d, p. 153), é a arte da adivinhação. A mântica seria, portanto, interrogações diante do próprio ato de ler a imagem, diante do estranhamento, incitando sempre uma resposta

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