Sob os signos da amizade

 filme o Carteiro e o Poeta  dirigido pelo americano Michael Radford. FOTO: DIVULGAÇÃO

Rodrigo da Costa Araujo

 

RECEITA DE INVENTAR PRESENTES

Colher braçadas de flores

bambus folhas e ventos

e as sete cores do arco-íris

quando pousam no horizonte

juntar tudo por um instante

num caldeirão de magia

e então inventar um pássaro louco

um novo passo de dança

uma caixa de poesia

Roseana Murray

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

Todos têm amigos e gostam de falar deles. São preciosidades, reflexos de diamantes que brilham em nossas pupilas quando são lembrados.São delicadezas da vida, pequeníssimas linhas de ouro que entranham e tecem nossos corações.

            Moram sempre, em lugares especiais do nosso imaginário. Por isso temos amigos que moram dentro de nós, alguns no coração, outros no nosso som, alguns nas nossas palavras, outros na alma, se misturam com nossas histórias, nosso ser.

            Tecem nossas vidas com fios de ouro, cavalgam conosco os dias mais claros, dividem palavras, alimentam o espírito, reforçam a luta e falam de amor. São leves e macios diante da aspereza da vida, da correria do tempo, das horas que não voltam mais.

            Amigos me fazem lembrar o Carteiro e o poeta, personagens que se misturam com a criação e ensinamentos da poesia, da palavra que engendra pela vida, modificando-a, instaurando sentimentos de plenitude, signos de eternidade. Poesia e amigos se entendem.

            Outro filme que registra esse mesmo sentimento é o Central do Brasil, signos de amor e de amizade que aproximam Dora de Josué. Professora e trapaceira e retirante, cartas, vidas que se tocam e se completam, registros de pura singeleza, lacunas da vida preenchidas por histórias de amigos.

            Talvez seja por isso que amigo seja como carta aberta, lida e proclamada para quem quiser ouvir, registros de amor e vida em linhas, ínfimas linhas de ouro, delicadas e sensíveis como as flâmulas do dia.

            São cartas poéticas que devem ser lidas para o mundo, partilhadas com todos, são símbolos de afeto e amor, são cantos do mar. Cartas fundidas no amor, amor-amizade, amizade-amor!

            Amor e amizade se tocam, se perdem de si na mistura dos sentidos – não conseguimos estabelecer diferenças. Algumas vezes se metamorfoseiam nas pegadas do sentido, parecem que brotam juntos.

            Assim como para Platão a amizade era uma forma de transformação de si mesmo, para Epicuro (foto) representava a sabedoria: De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade, dizia o filósofo.

            É na convivência e, principalmente, nas horas difíceis, que confirmamos e estabelecemos uma grande amizade. Nesse ritmo, eles são eleitos por nós para juntos tecerem teias da vida respaldadas no afeto e no carinho.

            Lógico que com afetos singelos, como raios de sol que entram em nosso quarto ainda cedinho pelas frestas da janela ainda fechada. Deve ser por isso que inventamos presentes especiais para embalar presentes que vão além do significante amizade.

            Assim, ficam registradas nas imagens de amigo, poetas como Pablo Neruda que presenteou o carteiro com as palavras, os códigos da poesia. Num lugar onde todos eram analfabetos. E também, as sedutoras palavras de Dora para um menino sem rumo.

            Amigos são assim, preciosidades de Deus.

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