Carência emocional: Você tem ou não?

Silvana Martani

 


Silvana Martani é psicóloga da Clínica de Endocrinologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo

Somos carentes.

Carentes de afeto, atenção, compreensão, carinho, consideração, respeito, amigos, romance, sexo, emoções, dinheiro, prestigio, enfim tudo o que nos compõe. Ser carente não é de fato o nosso maior problema, pois aprendemos a suportar e conviver com nossas necessidades, mas o que fazemos com essa carência é que nos revela.

Muitos usam a carência como escudo, defesa, doença, solução, desculpa; outros convivem silenciosamente com suas necessidades exorcizando seus efeitos no trabalho, nas amizades ou no lazer.

Os relacionamentos não estão imunes às carências. Podemos estar acompanhados e sentir falta da atenção, do carinho, do respeito do outro, além do próprio afeto.

Gostar não é suficiente para se viver um grande amor. E não estamos falando de um único e grande amor, aquele idealizado e sonhado na adolescência, que nunca sai da cabeça ou do filme, mas daquele relacionamento verdadeiro, intenso e cheio de boas recordações.

O gostar, a paixão e o desejo fazem parte da engrenagem que movimenta toda nossa possibilidade de ser e amar. Os relacionamentos, infelizmente, não são à prova de descasos, mentiras, maus-tratos e desrespeitos, pois se constroem a partir da personalidade e dos recursos emocionais das pessoas. O amor nos denuncia.

Os relacionamentos partem de possibilidades que começam muito antes das pessoas se procurarem e se acharem. Somente estamos prontos para um relacionamento duradouro, quando a relação que temos conosco se equilibra, ou seja, quando nos conhecemos: sabemos e respeitamos nossos limites, respeitamos e negociamos com nossas vontades, reconhecemos e toleramos nossos defeitos e valorizamos e aprimoramos nossas qualidades.

O processo de autoconhecimento parte de uma necessidade de sermos melhores, de vivermos mais felizes e tranquilos com a nossa existência. Parar de idealizar os relacionamentos e seus desdobramentos é um bom caminho para superar nossas carências e suas dores. Com o olhar mais humano nos aproximamos do possível ordenando as expectativas e os sonhos.

Somos responsáveis por nossas decisões e não se pode esquecer de que tudo foi escolhido, de uma forma ou de outra, que tudo foi desejado, encaminhado, conscientemente ou não. Nossa luta diária é para dar um lindo colorido a nossa vida mesmo que, a principio, essa felicidade não esteja tão visível.

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