Relembrando Gentileza

Rodrigo da Costa Araujo

publicado em 20/05/2007 como www.partes.com.br/cultura/relembrandogentileza.asp

Para Mônica Dias Melo, com signos de gentileza e carinho

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

I.  ALGUNS FRAGMENTOS DE JOSÉ DATRINO

José Datrino ou Gentileza nasceu em 11 de abril de 1917, em Cafelândia-SP. Era empresário, dono de uma transportadora de carga no Rio de Janeiro. Mas em virtude de um trágico acidente com um circo em Niterói-RJ assume, a partir desse acontecimento, uma outra identidade: “Gentileza”.

O episódio do circo, segundo Leonardo Guelman, “ tem uma importância fundamental na mitopoética e na linguagem nascente de Gentileza” (2000, p. 28). Tal fato, nesse contexto, assume uma alegoria como base para um novo recomeço do mundo, como também surgimento e intervenção do profeta.

Sua aparência colorida e exótica, de certa forma, inspira-se na cultura circense, construindo assim, suas características fundamentais. O estantarde, as flores, a verborragia, o tom colorido, assumem, a esse estilo, os signos de um profeta que exalta a vida, a solidariedade, a liberdade, o amor e a paz.

Para a semiologia barthesiana essas mensagens não-verbais se constituem enquanto sentido em sistemas linguísticos. Por isso o semiólogo postula que a semiologia é a ciência da significação: “ objetos, imagens, comporamentos podem significar […] mas nunca de maneira autônoma; qualquer sistema semiológico repassa-se de linguagem” (BARTHES, 2003, p.12). Nesse sentido, os traços, as marcas e as telas de Gentileza são pois, operações de leitura, segundo esse olhar. Assim, como leitor que ao passar pelos viadutos e olhar as telas, assume-se como um dos horizontes do texto, assim também, Gentileza, a obra, os traços.

Talvez se possa dizer, principalmente ao livro aberto de Gentileza, o mesmo que observava o filósofo Merleau-Ponty (1989) na pintura de Cézame: “Cézame (-Gentileza) não acha que deve escolher entre sensação e o pensamento, assim como entre o caos e a ordem. Não quer separar as coisas fixas que nos aparecem ao olhar de sua maneira fugaz de aparecer, quer pintar a matéria ao tomar forma, a ordem nascendo por uma organização espontânea”.

Com isso as telas de Gentileza parecem conceber a vida como um único ininterrupto livro aberto a qualquer passante pós-moderno. Tudo parece questionar os olhos, o conhecimento, desconsiderando sua matéria de cimento, seus interesses e suas forças. Semiologicamente, como Barthes postulava, as telas interpretadas como livro visual se reescrevem indefinidamente à medida que são sucessivamente lidas e, ainda mais que elas só se escrevem no momento em que são lidas, já que a leitura é a condição da escrita e não o inverso.“ Sua grafia e seus signos já presentes em seu estandarte e em placas que realizava, se inscrevem agora na própria cidade, tranformando pilastras em tábuas de seus ensinamentos”. (GUELMAN, 2000, p.37).

Atos de Gentileza como amor, a conscientização, a sensibilidade, a evangelização para “a gentileza” poderiam ser direções para a compreensão de sua história.  Afinal o que é um autor? Respondendo a essa pergunta, Gentileza é como vemos, um texto também. Se seguirmos Merleau-Ponty, tudo que se faz numa vida serve de resposta (e de pergunta) à exigência de uma obra. A obra constrói sua personagem, o PROFETA.

O Profeta Urbano e andarilho (José Datrino) faleceu no dia 29 de maio de 1996, aos 79 anos, mas as pilastras do Viaduto do Caju, próximas a Rodoviária Novo Rio ainda instigam várias leituras e reflexões.

II. UM OLHAR SEMIOLÓGICO

Gentileza(1917-1996) faz de suas telas um convite semiológico para quem chega ou sai do Rio de Janeiro. Confundidas com a agitação urbana e com aqueles que saem ou chegam na cidade encantadora, as manobras visuais e o estilo livro em 56 páginas, passam despercebidas ou como simples rabiscos de uma certa pichação. Contudo, na contracena pós-moderna de uma urbe avassaladora como o Rio de Janeiro, percebemos as pegadas ou traços de um circence-amador, de um cultuador da escrita e da imagem e do jogo operado por elas. “Todo jogo é capaz, a qualquer momento, de absorver inteiramente o jogador”. (HUIZINGA, 1990, p.11).

A poética de Gentileza reforça o que o russo Chkloski (1971) já dizia a respeito da arte e do efeito de estranhamento que ela provoca em face da realidade. É como se nós nos “desautomatizássemos” e passássemos a ver as coisas com outros olhos.

Muitas vezes, além do deslocamento do olhar, o livro aberto de Gentileza, propõe um processo epifânico. (O termo epifania tem sentido religioso significando “revelação”.). Esse processo pode ser irrompido a partir de fatos banais do cotidiano: uma “parada” diante do ponto de ônibus próximo à rodoviária Novo Rio ou diante das telas pintadas nas pilastras dos viadutos.

Como espelhos diante de nós, o leitor se percebe mergulhado num mundo de signos e significações ou como num fluxo de consciência, passa a ver o mundo e a si mesmo de outro modo, esquecendo a urbe e o furacão do olho contemporâneo.É como se tivesse tido, de fato, e a partir das telas, uma visão desautomatizada e mais aprofundada da vida, das pessoas, das relações humanas. De um modo geral, esses momentos epifânicos causados pela poética de Gentileza são dilacerantes e dão origem a rupturas de valores, a questionamentos filosóficos e existenciais, permitindo a aproximação de realidades opostas, tais como nascimento e morte, bem e mal, amor e desamor, matar ou morrer.

 

III. PALAVRAS FINAIS

Marisa Monte ao exaltar Gentileza utiliza metáforas para resgatar sua história, seus traços, sua missão enquanto profeta andarilho. De modo, ora serena, ora revoltada, a melodia instiga reflexões e fragmentos do Profeta que deixou marcas significativas pelas ruas da cidade. “ Apagaram tudo/ Pintaram tudo de cinza/ A palavra no muro/ Ficou coberta de tinta”. Por outro lado, sempre em estado de “paixão pela paz”, a música parece redistribuir sua luz: um espetáculo, às vezes, tão ofuscante como a rapidez dos olhos em direção as pilastras, outras vezes, tão excessivamente imaginário quanto a realidade – este coletivo e diário invento a nos tornar, a todos, “seres de paz”. “ Nós que passamos apressados/ Merecemos ler as letras/ E as palavras de Gentileza”.

A música, como as telas narrativas, inscreve uma essência, reforça uma mensagem, relembra  as páginas de concreto do livro com 56 páginas escrito nas pilastras do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro. O livro aberto do Profeta tencionava ser uma interferência visual, mas articulam-se, entre os pilares, como um discurso verbal que escreve parte de uma narrativa. É necessário, pois, ler cada painel.

Nessas leituras cambiantes, o leitor perceberá os fragmentos em dispersão. Marcas de imagens que se multiplicam, intensificam, aumentam, assumem um olhar à deriva, procuram, instigam. Pequeníssimas filigramas finissimamente tecidas e pintadas para nossos olhos. Pequenos gestos de Gentileza. Representações do amor.

Enfim, tudo confirma, pela semiologia que “a cidade é uma escrita, quem se desloca nela (o seu usuário) é uma espécie de leitor, que, conforme as suas obrigações e os seus deslocamentos, faz um levantamento antecipado de fragmentos do enunciado para atualizá-los em segredo”. (BARTHES, 1987, p.187)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARTHES, Roland. Le Plaisir du Texte. Paris: Seuil, 1973.

_________. Fragments d’un discours amoureaux. Paris: Seiul, 1977.

_________. “Semiologia e urbanismo”.In: A Aventura Semiológica. Trad. Maria de Santa Cruz. Lisboa: Edições 70, 1987.

______. Elementos de Semiologia. 15ª Edição. São Paulo: Cultrix, 2003.

CHKLÓVSKI, Victor. A Arte como Procedimento. In: Teoria da Literatura : Formalistas Russos. Trad. Ana Maria Ribeiro et al. Porto Alegre: Editora Globo, 1971.

GULEMAN, Leonardo C. Brasil: Tempo de gentileza. Niterói-RJ, EDUFF, 2000.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. Trad. João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 1990.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Textos Selecionados. Trad. e notas de Marilena Chauí. São Paulo: Nova Cultural. 1989

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