O Flautista e o som de um viver

Foto extraída do vídeo: https://youtu.be/bZu3jF0Cvek

 

Cinara Dalla Costa Velasquez *

publicado em 12/05/2009 como www.partes.com.br/cronicas/oflautista.asp

 

Cinara Dalla Costa Velasquez é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE – da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Especialista em História, Cultura, Memória e Patrimônio pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões URI – Campus Santiago-RS, licenciada em História –URI- Campus Santiago.

Faz tempo que ando ouvindo um acorde de melodia que inunda a rua onde moro. Sempre, no horário após o meio dia, esse som invade minhas sensações. Olho pela janela e o vejo. Tão melancólico e quieto, tem as mãos agarradas a uma flauta e, de seu sopro, também vem uma sensação de querer viver… Vai se esvaindo, exaurindo e, de repente, o flautista aquieta-se.

         Essas percepções são reais, não são devaneios de quem, por ora, põe-se a imaginar um lugar e uma pessoa, falo de um ser humano, ali sentado no fio da calçada, na rua em que moro. Os pingos da chuva caem devagarzinho e, com eles, também trazem a melancolia do flautista. Como posso falar de melancolia, se daquela flauta, meio mágica, o som da vida emana ou será da tristeza?

         Ainda não consegui compreender ou sentir o que ele com sua flauta querem falar, mas penso que das notas vem uma liberdade misturada ao desejo, a um quase pedido de socorro: ajudem-me a compreender o meu viver!

         E nesse embalo tão triste, ponho-me a pensar nas pessoas iguais a mim, que caminham pelas ruas, quietas, sorridentes, guardando segredos e emoções que despertam o meu pensar nessa mágica meio louca, que é o viver humano.

         Certamente, o flautista anda triste, seu semblante me lembra a inquietação, sua flauta grita notas tão distantes que não alcançam minha modesta compreensão. Decidi que não quero mais procurar as explicações do som do flautista, ando a procura da sensibilidade, que me aproxima de sua infinita arte. Sim, arte que emana das notas de sua flauta e que me convidam a dialogar com suas lúcidas, ou não lúcidas sensações e prazeres dessa vida de que também faço parte.

          Pessoas, amigos/as, desconhecidos/as todos/as andam, correm, vão e voltam por ali e por cá. Será que todos/as temos um pouco desse flautista inquieto, que desinquieta minhas sensações? Olho-o e me pergunto insistente: será que ele é feliz? E eu sei o que é ser feliz? Sua tristeza será a tristeza que sinto? Que maluquice essas palavras, essas sensações, mas são essas as ideias que sua flauta me desperta.

         Quando fecho meus olhos, abro meu coração e o som da flauta, todo dia, chega aos meus sentidos, compreendendo aos poucos que muitas coisas são inexplicáveis, são meio mágicas. São a vida que se apresenta na figura de um flautista, meio moribundo, que gente como eu, também, se angustia, se entristece, e vive. E, do sopro de seu viver, sua flauta grita a liberdade, a tristeza, o amor, sei lá, acho que diz que viver é assim meio mágico, meio trágico, quem irá entender.

         É preciso às vezes desarmar nossas vestes de proteções, que nos fazem surdos ao som de flautas meio inquietas, que andam com flautistas pelos fios das calçadas de nossas ruas. É necessário, por momentos, descobrirmos o quanto somos humanos, e ser humano, na vida de hoje, ao som de uma flauta, faz com que eu perceba que é preciso soltar as sensações para que, mesmo sem tocar a flauta do flautista triste, que ouço de minha janela, ele me ajude a descobrir os sons que sei tocar nas jornadas andarilhas do meu percurso, mesmo sem flauta, mas com a esperança de soprar notas de liberdade e sensações de um viver feliz!

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