Um breve exame da desrealização no romance Angústia de Graciliano Ramos

Dáfnie Paulino da Silva

publicado em 15/08/2009 como www.partes.com.br/cultura/livros/angustia.asp

Dáfnie Paulino da Silva, docente de língua portuguesa, formada pela Universidade Católica de Santos-UNISANTOS (2005).

RESUMO: Um breve comentário e observação da transformação da estrutura narrativa no romance moderno aplicada no romance Angústia de Graciliano Ramos; analisando como a desrealização ocorre por meio do pensamento do personagem que afeta a estrutura narrativa, e o tempo diegético.

RESUMEN:
Un breve comentario y observación de la transformación de la estructura narrativa de la novela moderna aplicada en el romance Angústia de Graciliano Ramos; un análisis de cómo la derealization se produce a través de lo pensamiento que afecta a toda la estructura narrativa, y el tiempo diegético.

Quando lançamos os olhos para o passado, e relemos romances de cavalaria como Amandis de Gaula, passando pelos clássicos romances do séc. XIX como os de Victor Hugo, e afins, notamos o longo processo de transformação sofrido pelo gênero. O processo de transformação do romance passou por gradativos progressos até a tingir a forma plena que encontramos em obras do séc. XX, nas quais a estrutura surge mais complexa e trabalhosa para os leitores, porém não menos instigante. No desenvolvimento do romance moderno, muitas transformações ocorreram, em especial no tempo e espaço, que se apresentam sob nova configuração em consequência da eliminação da distância; o que terminou trazendo para as obras o chamado ‘tempo místico’ e uma série de recursos como a desrealização para um nova e particular visão do mundo.

As obras modernas promovem uma aproximação relativamente maior, e esta aproximação que ocorre é de tal forma intensa, que seu enfoque é quase microscópico; na eliminação da distância e intensificação da proximidade ocorre uma transformação do real onde em decorrência da intimidade alcançada os contornos perdem-se: a observação é difusa e especifica em excesso, fragmentada para espelhar o próprio ser humano cujo pensamento sobrepõe-se a linearidade temporal.

Entre as obras de nossa literatura, a de Graciliano Ramos com seu romance Angústia, é uma das que pode exemplificar essa desrealização no romance; o que encontramos é uma estrutura narrativa que abandona a divisão dos capítulos e a linearidade temporal para acompanhar o pensamento confuso da personagem protagonista. O título do escritor alagoano incorpora características da desrealização desde seu princípio quando inicia a narrativa já após o drama central do livro, e desencadeia um relato que avança lentamente em direção ao ápice e ponto de partido do romance; dizemos lentamente, haja vista que neste retrocesso maior e central afloram ainda breves digressões que invocam um tempo muito anterior do passado e da infância de Luís (o protagonista).

É complexo analisar o fator temporal neste romance, todavia esta complexidade deve-se especialmente ao fato de que o tempo possui uma construção circular, como acontecem em Falkner, na qual o passado frequentemente invade a narrativa, gerando um tempo diegético que não se obriga a tecer uma ordem cronológica usual. No relato de Luís, a mente abalada da personagem muitas vezes retorna à infância, resgatando por alguns momentos histórias antigas que são logo abandonadas com a rapidez do pensamento; assim sendo, o pensamento rege a estrutura temporal, e enquanto o passado emerge, traz com ele o fluxo do inconsciente sobre o consciente.

“A técnica complexa de Falkner, a inversão cronológica dos acontecimentos, a construção circular, a irrupção do passado no presente e, com isso, do inconsciente no consciente são a expressão formal e precisa de um mundo em que a continuidade do tempo empírico e o eu coerente do eu epidérmico já não tem sentido.” (COUTINHO,1969, p. 90)

“Lembrei-me da fazenda de meu avô. As cobras se arrastavam no pátio. Eu juntava punhados de seixos miúdos que atirava nelas até mata-las.” (RAMOS, 2003, p. 76).

Destarte, o que observamos em Angústia é um tempo mítico, porquanto segue o fluxo de pensamento da personagem, não respeitando um tempo cronológico; há ainda outros elementos que acompanham a desordem temporal e refletem indiretamente a desordem e confusão mental da figura de Luís. Ao considerar esta relação, talvez seja possível afirmar que tal falta de ordem em unidades como o tempo e espaço, seja uma forma de resistência ao senso comum de ordem imposto superficialmente na realidade interna do romance, uma realidade a qual Luís pode inconsciente tentar se opor com a desrealização.

“Olhei-as, mas entre os olhos e as mãos havia um nevoeiro que engrossava. As paredes tornaram-se inconsistentes. Fechei os olhos.” (RAMOS, 2003, p. 206).

Um dos elementos que denuncia a eliminação da distância no livro de Graciliano Ramos é a apresentação e imagem fragmentária das personagens; uma vez que o enfoque exagerado fixa a atenção e prende-se a pequenos detalhes não há uma visão total nítida da figura, de modo que mesmo ao final da narrativa, é possível que a imagem de algumas personagens permaneça incompleta para o leitor, como Marina ou Vitória, ou até espaços físicos como a casa do protagonista.

O pensamento do protagonista é confuso e conflitante, da mesma maneira que sua psicologia vive em conflito interior com a realidade que a rodeia, a narrativa espelha este conflito igualmente. O título do romance refere-se à intensa angústia existencial experimentada por Luís, que é um indivíduo que não encontra um meio pleno de adaptação à sociedade, apesar de estar aparentemente encaixado no fluxo social. As características da personagem constituem pontos relevantes que apontam sua sensibilidade: a moderada reclusão social, o intelecto acusado por sua figura, o comportamento disperso de fugas e invocações do passado, além da deformação da realidade em redor.

Luís é um ser oprimido pelos padrões sociais e prisioneiro da tediosa rotina diária em que foi encaixado pelos costumes da sociedade, por isso, o seu sentimento de revolta e sua constante inquietude e angústia são realmente consequências inevitáveis. Todavia, a questão de maior relevância é o fato de que ele possui a consciência de sua insatisfação e opressão.

O protagonista conhece e vivencia a necessidade de libertação dos padrões impostos, com efeito, o desejo de libertação manifestado em alguns momentos de reflexão é um dos problemas mais evidenciados para o leitor atento, como se observa na citação selecionada:

“A porta escancarada convidava-me a abandonar tudo, a sair sem destino – um, dois, um, dois – e não parar tão cedo. Nenhum sargento me mandaria fazer meia volta. Os meus passos me levariam para oeste, e à medida que me embrenhasse no interior, perderia a peias que me impuseram, como a um cavalo que aprende a trotar. Tornar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, […], as mesmas que vi há muitos anos enfeitadas de flores secas e fitas desbotadas.” (RAMOS, 2003, p. 77).

Portanto, em um breve comentário, é possível notar a desrealização no romance Angústia de Graciliano Ramos, e avaliar como ela ocorre por meio da variação no tempo diegético. Este tempo busca acompanhar os pensamentos conflitantes da personagem protagonista, o que inevitavelmente altera a estrutura narratológica quando desordena suas unidades – tempo e espaço, e afeta o enredo por alterar a visão da personagem apresentando-lhe uma realidade particular.

BIBLIOGRAFIA

RAMOS, Graciliano. – Angústia. – Coleção Biblioteca Folha. SP. 2003, 222p.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Editorial Sul Americana S.A. RJ, 1969.

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