Amor Mofado

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 11/03/2010 como www.partes.com.br/terceiraidade/amormofado.asp

 

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.

Ele, hoje com 90 anos, tem um olhar distante, como se procurasse no passado as emoções perdidas….

Se alguém puxar conversa logo ri e não perde a oportunidade, emenda um assunto a outro, evitando perder o interlocutor.

Foi assim naquela tarde em que se comemorava o nascimento da neta mais nova. Alias, para ele não era novidade, pois é pai de 11 filhos, todos vivos, o mais velho tem quase 70, o mais novo 44 anos.

Quanto aos netos, a mais velha tem 50 e a primeira bisneta já completou 30 anos, por obra do destino ainda não há tetranetos, ou melhor, o primeiro ou primeira já está encomendado, mas o sexo ainda não foi confirmado. Portanto aquele encontro de gerações e agregados era apenas mais uma reunião como tantas do passado, em que ele buscava alguém para papear.

Enquanto ele estava ali para comemorar o nascimento de mais um membro da família, ela comemorava o nascimento da segunda netinha, e para aproximar as duas famílias foi marcado um chá na casa onde a “bebezinha” iria morar. O encontro dos dois, portanto, não se deu por acaso já que o filho caçula dele é casado com a filha dela.

Ela sentou-se ao seu lado, único lugar vazio, a esposa dele olhou “torto”, depois se soube que era por receio que ele cometesse algum deslize, já que em sua opinião, ele fala demais, fala o que não deve e abusa do ouvido dos outros.

Apesar das preocupações e cutucões que ele levou da mulher, começou a falar, devagar e sempre… E ela ofereceu-se por inteira para ouvir.

Ele aproveitou e contou que viera do nordeste, como retirante. Aqui conheceu a mulher, por quem se apaixonou imediatamente e com 22 anos já estava casado. Adorava tocar modinhas no violão, dançar nos bailes, jogar futebol de várzea, participar de festas, comemorações, mas a mulher, por ciúmes, foi cortando aqui, ali e para evitar brigas há muito tempo ele não participa de mais nada. Ficou enferrujado por causa da mulher.

Através das atividades, o idoso obtém a manutenção de suas funções cardiovasculares e pulmonares, bem como sua saúde mental, o que traz melhoria em sua autonomia, bem–estar, autoestima, autoconhecimento, descontração e integração como grupo, desinibição, além de minimizar os efeitos negativos que a velhice pode causar. (SOUZA, 2006, p. 30)

Disse que a cada dia vem necessitando de mais cuidados e atenção, já que tem diabetes, hipertensão e enxerga pouco. Gosta de fazer compras no comércio local onde é bem conhecido, mas alguém tem que o acompanhar, pois já caiu algumas vezes.

Com o passar do tempo, as pessoas mais velhas, mesmo aquelas que apresentaram um envelhecimento saudável, tendem a necessitar de maior ajuda para executar suas tarefas diárias, principalmente as tarefas externas (compras, idas ao médico etc.). (OLINO e FORTE, 2006, p. 23).

Confidenciou que adora saborear doces e comida bem condimentada, mas não pode comer, adora vinho, mas não pode beber. Às vezes se esconde no banheiro com uma destas preciosidades e abusa, mas os efeitos acabam entregando-o a família, que ralha com ele, como se fosse uma criança, esquecendo que ele já foi o chefe da casa e muito respeitado.

Em geral, não estamos preparados para a passagem do tempo. Relutamos em aceitar a fragilidade das pessoas que sempre foram o nosso suporte, o nosso porto seguro. (OLINO e FORTE, 2006, p. 24).

Até do cigarrinho, que era seu companheiro de horas duras, teve que abdicar por causa do pulmão congestionado. Tudo que gostava lhe foi tirado, já não tem prazer na vida.

Se o idoso não iluminar o seu caminho, predispondo-se às novas tecnologias, costumes, conhecimentos e situações, transformar-se-á em uma pessoa misoneísta – aquele que tem verdadeira aversão a tudo quanto é novo; um neófobo, isto é, alguém inflexível e impermeável ao novo conhecimento que se lhe apresenta pela frente. (COSTA, 1998, p. 63).

Reclamou que a mulher já não cuida dele com o mesmo desvelo do passado. Comentou que ela era mulher de fazer tudo para agradar um homem. Neste momento seu rosto se ilumina, dá uma boa gargalhada com olhar malicioso como se voltasse aos áureos tempos de conquistas.

Lembrou, frisando, que sempre que chegava ao lar a comida estava pronta, quentinha, só esperando por ele para que todos pudessem comer. Não adiantava reclamar, sem a presença do pai em casa não havia janta. Bons tempos aqueles!

A esposa era formosa, trabalhava muito em casa, cuidava de tudo sozinha e próximo da hora dele chegar tomava banho, penteava o cabelo, passava batom e se perfumava. Algumas das crianças podiam estar sem banho, ainda, mas ela nunca!

Com o dedo apontando-a, falou que com o passar do tempo ela foi esquecendo-se destes detalhes, além de não cuidar-se como antes, também não tem mais a mesma atenção para com ele.

Sussurrou aos ouvidos da confidente que, atualmente, quando ele convida a esposa para sentar-se ao seu lado para assistir televisão, ela reclama que está cansada; quando a convida para conversar, ela reclama que está com sono; quando ela a convida para dar uma volta na rua, ela reclama que está com dor na perna; quando pede um abraço, ela reclama que ele está muito assanhado; sexo então nem pensar! Ela vira para o lado e dorme, dorme e ronca, deixando-o na saudade! Termina a frase com mais uma gargalhada.

A esposa olha para ele e não entende o porquê de tanta risada…

O velho não comprometido psicologicamente é aquele que ainda “vive” e quer continuar vivendo a vida em toda a sua plenitude, usufruindo daquilo que ela ainda pode lhe oferecer e para a qual ele pode responder. O velho que não vive à sombra das perdas ou à sombra do que não pode mais atingir, em razão de sua idade, ainda tem, mesmo com medo, desejos de realização pessoal. (COSTA, 1998, p. 43).

Ele finaliza a conversa dizendo que outro dia numa discussão disse à mulher que ela já não cuidava mais dele como outrora e ela resmungou dizendo que cuidava sim, ele argumentou que ela cuidava, mas era um cuidado sem zelo, sem carinho, agia como se ele fosse um estorvo. Amuado, baixou o olhar e contou que neste dia perguntou a esposa:

-: mulher, onde está o nosso amor?

Ela respondeu:

-: ah, ele já está mofado!

Quem olhasse para ele naquele momento perceberia que de seus olhos corriam lágrimas. Lágrimas repletas de saudade!

Bibliografia:

COSTA, Elisabeth Maria Sene. Gerontodrama: a velhice em cena. São Paulo: Ágora, 1998.

OLINO, Rita. FORTE, Silvia. Desenvolvimento Humano: Algumas considerações sobre o idoso e o envelhecimento. In: BERTELLI, Sandra Benevento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2006.

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 

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