LUDIBUS: um ônibus que leva a arte e o lúdico às crianças de escolas da Educação Básica

Ana Paula Cordeiro *

publicado em 02/08/2010 publicado originalemente como: www.partes.com.br/educacao/ludibus.asp

 

Ana Paula Cordeiro é formada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista e é Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente é docente lotada no Departamento de Didática da Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP- Campus de Marília – SP. Coordena, desde 1999, o Projeto “Oficinas de Teatro da UNATI (Universidade Aberta à 3ª Idade) – UNESP de Marília” e desde 2005 o Projeto “LUDIBUS, o ônibus da alegria”. Contato: napcordeiro@marilia.unesp.br .

Resumo

Este texto tem por objetivo apresentar o trabalho desenvolvido pelo Projeto LUDIBUS, ligado à Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, Campus de Marília. O Projeto tem como principal característica a existência de um ônibus adaptado e devidamente equipado para o desenvolvimento de atividades artísticas e lúdicas junto às crianças de escolas de Educação Básica (Educação Infantil e Ensino Fundamental) do município de Marília- SP. Por meio das linguagens artísticas, as crianças criam, organizam atividades e falam muito de si e de seu mundo, revelando toda a riqueza do universo infantil.
Palavras- chave: Lúdico, criança, arte, Educação Básica.

Abstract

This text has like objective introduce the advanced work by LUDIBUS Project, settled in Philosofhy and Science Faculty by UNESP, from Marília Campus City. The project has like main characteristic the existence of a bus that was adaptted and fitted out to development the artistics and jest activities with the children by Basic Education (Childish Education and Fundamental Teaching) from Marília-SP municipality. Through the artistics language the children create, organize activities and talk so much about themselves and their world, revealing all the wealth of the childish Universe.

Key-words:Jest, child, art, Basic Education

Imaginem um ônibus enorme que, ao invés de assentos para passageiros e catraca possui baús coloridos cheios de livros, gibis, brinquedos e materiais para a realização de diversas atividades artísticas. Imaginem um ônibus cheio de cores, com mesas e banquinhos apropriados para que crianças, em seu interior, sintam-se à vontade para ler, desenhar, pintar, brincar, sonhar. Este ônibus existe, sim. Muitas crianças da cidade de Marília – SP, o conhecem. É o LUDIBUS, carinhosamente chamado de “o ônibus da alegria”.

Este ônibus faz parte de um Projeto que visa levar atividades artísticas e lúdicas às crianças de Escolas de Educação Infantil e de Ensino Fundamental (séries Iniciais). A fim de que as crianças imaginem, criem, brinquem, experimentem e se desenvolvam, propostas artísticas e lúdicas são apresentadas às escolas por meio do Projeto LUDIBUS, que tem como principal característica a existência deste ônibus mágico, cheio de possibilidades e de materiais diversificados.

Quando e onde esta história começou? Em 1999, na Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP (Universidade Estadual Paulista), Campus de Marília. Inspirado nas brinquedotecas itinerantes surgidas no Brasil a partir da década de 1990, que visavam levar atividades lúdicas e culturais, geralmente por meio de ônibus ou veículos que chegavam aos diversos bairros das cidades, o LUDIBUS é um Projeto de Extensão Universitária ligado ao Departamento de Didática da FFC – UNESP.

Segundo Araújo (2007), a proposta do ônibus lúdico na FFC surgiu dos esforços de professores do Departamento de Didática e do Departamento de Ciências da Informação, juntamente com a Direção da Faculdade, no sentido de integrar a Universidade à comunidade mariliense por meio de um trabalho articulado, voltado para o campo das artes e do lúdico entre professores e graduandos da FFC e professores, gestores e alunos das escolas públicas da cidade. O ônibus foi comprado da “Empresa Circular de Marília” com recursos da Reitoria e organizado e adaptado pela FFC para o trabalho proposto pelo Projeto. Desde então o Projeto LUDIBUS passou a funcionar de forma ininterrupta, procurando sempre desenvolver um trabalho capaz de suscitar nas crianças o gosto pelas linguagens artísticas e por jogos variados.

A proposta de trabalho da equipe do Projeto é a de apresentar as linguagens artísticas de forma lúdica, evitando atividades estereotipadas e práticas correntes nas escolas, como apresentação de desenhos prontos e xerocados para as crianças pintarem, apresentações teatrais com temas moralizantes ou pré – determinados para serem apresentadas em momentos festivos ou datas comemorativas, danças com coreografias repetitivas, entre outras. Segundo nosso entendimento, essas práticas demonstraram-se, ao longo do tempo, obsoletas. A premissa que norteia o trabalho é a de levar as crianças a se tornarem, além de apreciadoras da arte, criadoras pessoais de cultura.

O trabalho desenvolvido pelo projeto tem como base a ideia de que as linguagens artísticas e lúdicas devem estar presentes nas vidas de todos. Partimos do pressuposto de que todos são capazes de apreciar uma obra de arte e de criar, de elaborar produções artísticas próprias. Consideramos que a arte não deve ser vista como algo para “iniciados” ou para pessoas que possuem um “dom” especial para a criação. Enxergamos as linguagens artísticas e lúdicas como elementos da cultura, como construções humanas, como parte da história.

Partindo deste ponto de vista, consideramos que todos têm o direito ao acesso a estes elementos universais da cultura. Também consideramos que a arte, como área de conhecimento tem uma importância fundamental para o desenvolvimento infantil, pois trabalha com a percepção, a sensibilidade, a estética, a criação, a imaginação e forma o gosto das pessoas. Também pode, de acordo com o trabalho realizado, aguçar a criticidade e levar as crianças a falarem mais de si e de seu mundo, compreendo-o melhor.

Em nosso trabalho, temos como premissa básica a afirmação de Ernst Fischer (1971), que nos dirá que a arte é, foi e sempre será necessária. Ele primeiramente questiona porque milhões de pessoas leem livros, ouvem música, vão ao teatro ou cinema. O homem, segundo Fischer, quer ser mais que apenas ele mesmo. Anseia por absorver o mundo circundante, por integrá-lo a si. “Anseia por unir na arte o seu ‘Eu’ limitado com uma existência humana coletiva e por tornar social a sua individualidade” (1971, p.13).

No entanto, o homem se aproxima da obra de arte também por um processo de não identificação:

“Não conterá a arte o elemento ‘apolíneo’ de divertimento e satisfação que consiste precisamente no fato de que o observador não se identifica com o que está sendo representado e até se distancia do que está sendo representado, escapa ao poder direto com que a realidade o subjuga, através da representação do real, e liberta-se na arte do esmagamento em que se acha sob o cotidiano?” (FISCHER, 1971, p.13)

Há aí uma dualidade: de um lado, a tentativa de absorver a realidade e, de outro, o desejo de controlá-la. Fischer nos diz que a tensão e a contradição dialética são inerentes à obra de arte. O mundo capitalista cria dualidades, separa razão e emoção. A arte precisa remover esse conflito, ultrapassá-lo.

Corroboramos com Fischer e pautamos nosso trabalho voltado para as linguagens artísticas de forma a levar as crianças a falarem de si e de seu mundo, a criarem a partir de sua própria cotidianidade, a refletirem sobre o que vivenciam, seja com propostas voltadas para as artes visuais, para o jogo teatral, para a literatura infantil ou para a musicalidade. As propostas de atividades se voltam para formas lúdicas de aprendizagem.

Privilegiamos o jogo, que tem como base o improviso, em todo o processo de trabalho. Não trabalhamos, por exemplo, com o teatro formal, mas com o jogo teatral. E por que o jogo? Por meio do ato de jogar a criança experimenta vários caminhos para chegar à solução de problemas. Huizinga (1996) valoriza de tal forma o ato de jogar que parte do pressuposto de que o jogo é mais que um elemento da cultura, ele está na base da própria civilização humana. Religião, arte, linguagem, filosofia, nascem do jogo, considerado pelo autor como atividade livre, voluntária, realizada dentro de limites de tempo e de espaço, que obedece a determinadas regras. O jogo envolve o mais alto grau de seriedade, segundo o autor.

Por meio do ato de jogar, a criança experiencia o mundo, elabora hipóteses, testa os melhores caminhos para a resolução de problemas, questiona o que está posto e reflete sobre o mundo que a rodeia. Um trabalho artístico que privilegia as formas lúdicas de aprendizagem evita a cristalização do conhecimento, abre novas perspectivas para os atores educacionais. É isso que o Projeto LUDIBUS visa proporcionar com seu trabalho nas escolas de Educação Básica.

De 1999 até a atualidade, inúmeras escolas foram atendidas e beneficiadas pelo Projeto. A partir do ano de 2005, várias parcerias foram estabelecidas junto a algumas secretarias do município de Marília: Secretaria da Educação, Secretaria da Cultura e Secretaria do Verde e Meio Ambiente. A equipe do Projeto, formada pela docente coordenadora e alunos (as) dos cursos de Pedagogia e Filosofia da FFC desenvolvem o trabalho nas escolas durante todo o ano letivo. Por ano, cerca de duas ou três escolas são contempladas com parcerias estabelecidas e inúmeras outras recebem a visita do ônibus lúdico para que as crianças o conheçam e adentrem em seu interior, experimentando do momento mágico de brincar e criar dentro deste veículo capaz de fazer sonhar.

Projeto LUDIBUS

Dentro do ônibus, fantoches aguçam a imaginação e as crianças criam histórias improvisadas, às vezes intrincadas, cheias de ação. Petecas, bolas, bambolês, bilboquês, brinquedos de tempos antigos passam a ser conhecidos pelas crianças, que brincam com eles e os apreciam. Jogos de damas, quebra – cabeças, livros de Literatura Infantil, gibis, papéis coloridos, tudo serve à magia, ao encantamento das horas passadas no interior do LUDIBUS.

A própria equipe do Projeto vivencia o fazer artístico e as atividades lúdicas nos momentos de preparação do trabalho a ser realizado nas escolas, por meio de reuniões semanais. Nestas reuniões, os (as) graduandos (as), juntamente com a coordenadora do Projeto, organizam materiais e oficinas artísticas e lúdicas de forma coletiva. Assim, o Projeto forma professores criadores, apreciadores da arte e capazes de levar as crianças a também tomarem gosto pelas linguagens artísticas por meio de oficinas elaboradas para este fim.

LUDIBUS é um Projeto de Extensão Universitária ligado ao Departamento de Didática da FFC – UNESP.

O Projeto também visita, de forma mais esporádica, as comunidades de bairros e o bosque municipal durante as atividades ligadas ao meio ambiente, promovidas pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente no mês de junho. Nestes espaços, enfatizamos as oficinas de artes visuais e os momentos de leitura agradável no interior do ônibus. Caber salientar que não apenas crianças, mas adultos, apreciam adentrar no interior de um espaço único, todo destinado à alegria e à aprendizagem.

Como resultado das atividades desenvolvidas, crianças ouvem, contam, criam e recriam histórias, elaboram cenas teatrais a partir do diálogo e do jogo dramático e teatral, falam de si e de seu mundo (casa, amigos, escolas, bairros) por meio de desenhos, encenações, músicas, etc. Exposições com os trabalhos das crianças são realizadas no interior do LUDIBUS para a apreciação de todos da comunidade escolar.

Também como resultado deste trabalho, conseguimos estabelecer um salutar diálogo entre a Universidade e as escolas públicas da Educação Básica (Educação Infantil e Ensino Fundamental, séries iniciais) sobre as linguagens artísticas e lúdicas. Pesquisas são desenvolvidas pelos graduandos a partir do contato com esta rica realidade das escolas.

Desta forma, visamos cumprir com a meta de levar as crianças a aprenderem de forma lúdica e divertida por meio do jogo, que requer que a criança pense em variadas estratégias de ação e por meio das linguagens artísticas, tão importantes para uma formação humana mais completa.

Quando ouvem o ronco de motor perto da escola, muitas crianças já sabem que ele vem chegando: o LUDIBUS, o ônibus da alegria!

Referências

ARAÚJO, R. T. Sobre as rodas da Alegria: uma incursão ao trabalho de formação artística e cultural de alunos de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental de Marília por meio do Projeto LUDIBUS. 2007. 101 p. (monografia) Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Pedagogia. FFC. Marília.

CORDEIRO, A. P.; ARAÚJO, R. T.; LOPES, F. M. Projeto LUDIBUS: a arte e o lúdico nas escolas e bairros de Marília, SP. In: PINHO, S. Z. de; SAGLIETTI, J. R.C. (Org.). Cadernos dos Núcleos de Ensino. São Paulo: UNESP- PROGRAD, 2008.

FISCHER, E. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

HUIZINGA, J. Homo Ludens. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.

* É formada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista e é Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente é docente lotada no Departamento de Didática da Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP- Campus de Marília – SP. Coordena, desde 1999, o Projeto “Oficinas de Teatro da UNATI (Universidade Aberta à 3ª Idade) – UNESP de Marília” e desde 2005 o Projeto “LUDIBUS, o ônibus da alegria”. Contato: napcordeiro@marilia.unesp.br .

Como ser citado:
CORDEIRO, Ana Paula. LUDIBUS: um ônibus que leva a arte e o lúdico às crianças de escolas da Educação Básica.  P@rtes.V.00 p.eletrônica. Agosto 2010. Disponível em <…..>. Acesso em _/_/_.

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