Soninho da tarde

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/10/2010

 

ão há dor que o sono não consiga vencer.

Honoré de Balzac

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Fui criada com a ideia de que dormir demais encurtava a vida. A frase predileta de minha mãe era que teríamos muito tempo para dormir quando estivéssemos mortos. Assim, por anos a fio evitei a qualquer custo o sono que não fosse aquele considerado “normal”. Dormir à tarde? Nem pensar! Isso era coisa para desocupado.

Qual não foi, então, a minha surpresa quando descobri que a Ciência estava indo por um caminho totalmente distinto. Recentemente, pesquisadores da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, revelaram que uma hora de sono à tarde pode tornar as pessoas mais inteligentes. Segundo esse estudo, a sesta serve para melhorar a capacidade de aprendizagem, pois facilita o armazenamento da memória a curto prazo e, consequentemente, aumenta o espaço para novas informações.

Contudo, sabemos que, apesar dessas e de outras pesquisas, dormir no meio do dia não é um costume que receba muito apoio. Ao contrário. Trata-se de um hábito associado a pessoas preguiçosas que não querem ou não têm vontade de trabalhar. Como essa ideia, agora, encontra-se na contramão do que a Ciência está estudando, fica a pergunta: o que leva as pessoas a pensarem dessa maneira?

É possível apontar diferentes causas, mas, para mim, tudo tem relação com a forma como a nossa sociedade absorveu os valores e hábitos da cultura norte-americana. O americano médio acredita que as 24 horas do dia devem ser destinadas a realização ininterrupta das atividades ditas produtivas. Dormir é uma concessão feita apenas àquele horário socialmente permitido, ou seja, à noite. E caso haja necessidade de burlar até mesmo essas horas em prol de uma maior produtividade, isso é bem aceito e até estimulado.

No entanto, são eles mesmos que, agora com suas pesquisas, vêm dizer que o sono não só cura o mal estar prolongado, mas ajuda a melhorar a qualidade da aprendizagem. Do mesmo modo, confirmam que passar a noite acordado (o velho serão!), por exemplo, reduz em quase 40% a capacidade para empreender novas atividades o que influiu diretamente no potencial produtivo do indivíduo.

Por outro lado, os povos latinos e mediterrâneos – espanhóis, portugueses, italianos e gregos – há muito tempo já conhecem as vantagens do sono da tarde. Quemjá teve a oportunidade de visitarqualquerum desses países sabe que, em muitas cidades, principalmente as pequenas, depois do almoçoatémaisoumenos às dezesseis horas, é difícilencontrarqualquertipo de estabelecimentoaberto. As pessoassimplesmente desaparecem das ruas e não adianta reclamar. Estão todos exercendo o seusagradodireito à siesta.

De qualquer maneira, ninguém irá ficar mais pobre ou mais rico se resolver parar uma horinha durante o dia, para tirar um cochilo revigorante. Ao contrário. Segundo os cientistas, o nosso cérebro é como o HD de um computador: ao nos desligarmos, estamos permitindo que mais espaços sejam criados e, portanto, abrindo lugar para mais informação. E não é só a nossa memória que melhora, o nosso humor e disposição geral também. É preciso, então, reabilitar a siesta. Ela não pode continuar como um hábito restrito a pessoas preguiçosas ou desocupadas. Pense sobre isso. E sempre que tiver a oportunidade, relaxe o corpo, feche os olhos e sonhe. Acredite: você estará fazendo um favor ao seu chefe.

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