Imaginação

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 04/01/2011 como www.partes.com.br/terceiraidade/imaginacao.asp

Ao participar de um evento científico sobre velhice, tive que atravessar a cidade por três dias.

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.

Tinha duas possibilidades – ir de carro e enfrentar duas horas de trânsito congestionado no período da manhã e mais duas horas à tardinha ou usar o meio de transporte coletivo disponível na cidade de São Paulo, que reduziria o tempo de viagem em uma hora a cada período, vantagem esta garantida pelo metrô. Obviamente teria que abrir mão do conforto de estar sentada com ar condicionado e suportar o aperto costumeiro devido ao grande número de pessoas no horário do rush.

Fiquei com a segunda opção, embora soubesse dos contratempos teria a meu favor, duas horas preciosas para curtir a família.

Logo no primeiro dia de – ônibus – metrô – ônibus – pude perceber que no trajeto havia muita coisa a ser vista que ao dirigir um carro não temos oportunidade de observar. Foram momentos prazerosos apesar do empurra – empurra dentro do metrô, tanto na hora de embarcar como na hora de desembarcar e do para-continua do ônibus a cada ponto ou semáforo, além do trânsito congestionado no trajeto até as estações do metrô.

No congresso eu estava atenta a tudo que se falava sobre velhice.. Longevidade, tipos de envelhecimento, preconceitos, saúde, sexo, morte, qualidade de vida, relacionamentos familiares e sociais, etc.. Foi uma oportunidade também para rever amigos, professores e alunos.

No terceiro dia ao pegar a 1ª condução, percebi algo inusitado, o ônibus estava vazio, ou melhor, eu era a única pessoa que estava em pé. Logo depois um casal deu o sinal e desceu, vagando um banco com dois lugares. Era aquele banco instalado sobre as rodas do veículo, do lado esquerdo, atrás do motorista, permitindo a quem se sentasse à janela apreciar o outro lado da rua do alto, já que para se sentar neste banco tem um degrau devido a altura em que está situado.

O trânsito estava mais lento que o normal. Fiquei feliz pelo lugar vago e sentei. Olhando para fora me distraí observando a avenida que deu origem ao bairro, de um lado está o cemitério, do outro os imóveis velhos da região decadente, alguns estão tão surrados que o reboco já não existe, ou existe parcialmente, o beiral de alguns está solto colocando em risco a vida de transeuntes, madeiramento apodrecido, telhados comprometidos.

Muitos imóveis parecem abandonados, imaginei que envolvessem disputas de herança entre famílias que preferem ver as coisas se perderem a entrarem em acordo e ou dividirem o bem comum. As casas não têm garagem e os armazéns não têm estacionamento, diante disto o valor tende a se depreciar ou dificultar as negociações, além do inconveniente cemitério que ali está para tudo testemunhar.

Fui despertada destas reflexões por um aroma cada vez mais forte se aproximando, voltei meu olhar para dentro do ônibus e vi uma senhorinha que caminhava na minha direção, ou melhor, na direção do banco que restava vazio. Senhorinha porque era miudinha. Sentou-se ao meu lado e o perfume quase me sufocou. Lembrava um perfume que conheci na adolescência que se chamava Hora Íntima da perfumaria francesa Vigny[1] e que me enjoava, talvez porque ganhei um vidro de um pretendente que não me interessava.

Descobri que o perfume antes importado e contrabandeado, agora é fabricado no Brasil, ou pelo menos uma fragrância semelhante com o mesmo nome. Pude observar que a senhorinha estava bem arrumada, maquiada e olhava impacientemente para o relógio.

Depois de alguns pontos rodados vagarosamente pelo ônibus, ela deu o sinal e desceu, imaginei que achava melhor caminhar para chegar ao destino mais rápido.

De onde eu estava pude acompanhá-la com os olhos, naquela minha distração observadora.

Atravessou a rua com cuidado. Seu vestido era branco estampado com flores lilases, sua bolsa também era branca e o sapato de salto. Naquele momento senti inveja, pois uso sapato baixo por recomendação médica. O cabelo grisalho tinha delicadas ondas, uma tintura lilás que insistia em ornar com o vestido e bastante laquê ou fixador para os mais modernos. O batom se destacava, era rosa cintilante.

Ela ultrapassou o ônibus com seus passinhos curtos, apressados e seguros. De repente vejo que seu rosto ora sisudo começa a se desanuviar. Pensei:

-: por quê?   E segui seu olhar…

Aproximava-se dela, no sentido contrário, um senhor, também idoso, simpático, sorridente. Um pouco mais alto que ela, pequena barriguinha saliente, talvez pela cerveja nossa de cada dia. Os poucos cabelos davam indícios que era louro, ou também tingido, como os dela. A pele era muito clara, quase vermelha talvez devido ao sol. Vestia calça bege e camisa azul mais ou menos escura de manga curta. Imaginei que seus olhos pudessem ser azuis para combinar com a cor da camisa.

Pareciam ter a mesma idade, ou bem próxima um do outro.

Quando seus olhares se encontraram sorriram demonstrando alegria, os corpos se aproximaram e se abraçaram. Ele beijou o rosto dela e ela como uma adolescente encolheu-se toda, ele aproveitou e beijou também o cangote e enlaçou-a pela cintura puxando-a para caminhar…

O casal seguiu em frente, o ônibus ia atrás. Alguns metros à frente eles pararam e olharam para cima como se estivessem confirmando o endereço. Eu olhei junto e maliciosa quase ri alto. O letreiro já desgastado pelo tempo identificava – HOTEL.

Ela ajeitou a roupa e arrumou o cabelo, ele enfiou a mão no bolso conferiu o dinheiro, arrumou a calça e tocou a campainha.

Vi que era um prédio antigo, como os demais, todavia havia recebido uma embalagem nova, fora revestido de pastilhas cor de rosa forte. A janela do quarto da frente do prédio de dois andares estava aberta e do ângulo que o ônibus parou pude ver que era um ambiente sombrio, escuro, e, imaginei que cheirava a mofo.

Naquele momento, meu pensamento entrou na espelunca antes deles. Imaginei a escada de madeira revestida de carpete já puído, a porta comprometida por cupins, o guarda roupa de madeira bem escura, a cortina de juta gasta e a cama de casal com lençóis baratos, travesseiros manchados, colcha de chitão vermelho com babados até o chão e um cobertor cinza com uma listra vermelha na beirada, caso esfriasse..

Minha imaginação não parou. E me perguntei:

-: porque estarão se encontrando num hotel de baixa categoria? É claro que tem o fator financeiro, mas será que não têm casa? Será que moram com os filhos? Será que a família não aprova? Será fetiche?

Quando a porta do hotel abriu, ele ofereceu passagem para que ela entrasse na sua frente, deu uma olhada geral pela rua com um sorriso nos lábios como se estivesse a conferir algo, ou a dizer:

-: aqui vou eu!

Arrumou a calça de novo, entrou e a porta se fechou atrás dele.

Imaginei que ao subir as escadas puídas, ele talvez tocasse as nádegas dela, como preliminares, e ela por sua vez corresponderia dando tapinha leve naquelas mãos buliçosas. Ele abriria a porta com cupins e ela baixaria os olhos para entrar. Quando ele começasse a abraçá-la…

Neste momento ouço o cobrador falar:

-: oh Dona, chegamos aqui é o ponto final! Tem que descer…

Constrangida, sorri, agradeci e desci.

Minha imaginação queria seguir em frente, mas me dei conta que já estava imaginando demais, o dia seria longo e o relógio ainda marcava 9 horas da manhã!

[1] http://perfumesbighouse.blogspot.com/2010/04/vigny-perfumes.html

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