Peculiaridades da seca no RN: o relato de um seridoense

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Max Leandro de Araújo Britoi Jeanne Christine Mendes Teixeiraii Acsa Nara de Araújo Britoiii

publicado em 04/01/2011

Max Leandro de Araújo Brito é mestrando em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. E-mail: maxlabrito@yahoo.com.br

Resumo: A pesquisa objetiva perceber peculiaridades referentes à seca no Seridó norteriograndense a partir da visão de um habitante da região. Trata-se da análise de uma carta presente no livro Carta da Seca (FARIA, 2006), sustentada pela revisão da literatura sobre seca. Dessa forma a pesquisa é qualitativa. Ao final percebe dentre outras peculiaridades: distribuição das chuvas, disponibilidade de água, permanência e êxodo da população, implicações socioeconômicas, vulnerabilidade e resistência.

Palavras-chave: Seridó, Seca, Pobreza.

Abstract: The research aims to understand the peculiar dry Seridó regarding the state of Rio Grande do Norte from the perspective of an inhabitant of the region. This is an analysis of this letter in the book Letter of Drought (FARIA, 2006), supported by the literature review of drought. Thus the research is qualitative. At the end realizes among other peculiarities: the distribution of rainfall, water availability, permanence and exodus of the population, socio-economic implications, vulnerability and resilience.

Keywords: Seridó; Drought; Poverty.

Introdução

Jeanne Christine Mendes Teixeira é mestra em Administração e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. E-mail: jeanneteixeira@yahoo.com.br

A seca é, há muito tempo, um grande tormento para as famílias que habitam a região do Seridó no Estado do Rio Grande do Norte. Trata-se de um evento natural que ameaça anualmente principalmente quem ainda sobrevive da agropecuária.

Uma forma de entender os progressos feitos em relação à adaptação à seca é a retomada da realidade encontrada em tempos passados. A partir da compreensão de como se sobreviveu a diversas secas pode-se chegar a um melhor entendimento do nível de desenvolvimento atual.

Esse estudo se torna relevante por respaldar possíveis decisões em relação à seca tomadas nos dias atuais, a partir da maneira de perceber este evento no ano de 1877.

Sabendo-se desse contexto surge a seguinte questão: quais as peculiaridades referentes à seca no Seridó norteriograndense a partir da visão de um habitante da região no século XIX?

Para tentar responder ao questionamento, essa pesquisa tem por objetivo perceber peculiaridades referentes à seca no Seridó norteriograndense a partir da visão de um habitante da região. Trata-se da análise de uma carta, presente no livro Carta da Seca (FARIA, 2006), de um seridoense que se apresenta como Targino Pires Pereira. Essa análise é sustentada pela revisão da literatura sobre a seca. Dessa forma a pesquisa é qualitativa (ROESCH, 2005).

Acsa Nara de Araújo Brito é graduanda em Nutrição pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. E-mail: acsa.nara@yahoo.com.br

Seca e população do Seridó

As populações que vivem na região semiárida, como o Seridó, passam por constantes situações de vulnerabilidade devido às irregularidades na distribuição das chuvas e limitações relacionadas com disponibilidade de água na região (VALADÃO, 2010). Dessa forma, a escassez de água é um importante fator ecológico que limita essa região, determinando uma redução geral no crescimento da vegetação durante o período seco (ZANELLA, 2003).

Os anos em que as condições hídricas são favoráveis propiciam a permanência da população na região, mas naqueles cujas condições são de seca podem levar ao êxodo desta para áreas mais propícias ou centros urbanos maiores. Tais situações de vulnerabilidade afetam a vida destas populações, ocasionando profundas implicações socioeconômicas (VALADÃO, 2010).

Essa vulnerabilidade faz emergir a resistência, definindo cenários em que a identidade da seca permeia as estratégias de reinvenção e inovação dos discursos e práticas regionais. Resistência que fez da economia, da política e da cultura os cenários de manifestação (MORAIS; ARAÚJO; MEDEIROS NETA, 2009).

Com a valorização da cultura e do fortalecimento do discurso regional o Seridó foi sendo reinventado. Na atualidade a identificação e valoração simbólica do espaço seridoense pelos habitantes projetam-se sobre uma base material que serve de referencial, dessa forma as pessoas não só se denominam seridoenses, como os outros as reconhecem como tal (MORAIS; ARAÚJO; MEDEIROS NETA, 2009).

Resultados

No livro Carta da Seca (FARIA, 2006) Targino Pires Pereira, que se encontra com graves dificuldades financeiras, escreve uma carta para o primo Antônio Pires de A. Galvão, solicitando ajuda para poder sobreviver durante a seca que ocorreu em torno do ano de 1877. No conteúdo da carta é registrado o drama da seca na região do Seridó do Rio Grande do Norte.

É escrito que “nas Flores” – terras de um conhecido de Targino – “está mais seco do que aqui, pois no ano passado lá não houve inverno” (FARIA, 2006, p. 26). Nesse fragmento é mostrada a irregularidade da chuva no Seridó. Em terras vizinhas chove em quantidades distintas. Nota-se a preocupação com as limitações ocasionadas pela disponibilidade de água, visto que em ambas existe a seca, embora que nas Flores, a seca esteja mais agravada devido à falta de água. O significado da palavra “seco” se direciona para falta de água, à falta de perspectiva de manutenção da vida, à quase inexistência de vegetação que possa ser utilizada para consumo do gado e humano.

No texto é lançado um questionamento: Se se retirar toda a população indigente do alto sertão, que povo fica para o trabalho agrícola (FARIA, 2006)? Esse pensamento se remete à necessidade de permanência de população na região. Mais especificamente à população pobre, que é mais afetada pela seca. A agricultura aparece como uma importante atividade econômica, já que existe a necessidade de saciar a fome em um período em que os transportes não são desenvolvidos, onde é caro e demorado comprar e transportar alimentos básicos de outras localidades. Nota-se também o foco na gestão, delegada aos mais ricos, e na necessidade de trabalho braçal para a execução das atividades produtivas. Dessa forma, é retratado o contexto do ambiente no qual se dá a manutenção de uma propriedade rural.

Targino considera inadequado permitir que aqueles prestadores de relevantes serviços saiam despatriados pela face da terra, nus, mortos à fome e sem recurso algum, expostos a morrerem pelas estradas, mirrados da necessidade corporal (FARIA, 2006). Dessa forma, vê-se a preocupação de manter os trabalhadores menos abastados na região, pois, dentre outros motivos, é desumana a jornada deles para áreas mais propícias. O êxodo, motivado pela seca – que traz a fome – acaba fazendo com que os trabalhadores tornem-se retirantes, sem lugar fixo para estabelecerem moradias, ou mesmo sem perspectivas de futuro.

O futuro é algo que não incomoda quem possui muito dinheiro, pois o flagelo da seca não afeta a “classe alta”, mas chega-se a uma indagação: que garantias terá a classe alta se sair toda a população pobre (FARIA, 2006)?

Através desse raciocínio fica evidente que as implicações socioeconômicas da seca permeiam a vida dos mais abastados. Embora seja possível fazer reserva de bens para resistir à seca, ao terminar o período de dificuldades pode existir falta de mão de obra, afetando a manutenção / aquisição / guarda de novos bens.

A vulnerabilidade gerada pela seca faz com que armazene-se bens como forma de resistência. Guarda-se, no período de bonança – com ajuda dos menos favorecidos – para que a seca não traga a fome na classe alta.

Têm-se a idéia que de todos os flagelos com que Deus castiga a humanidade, o mais terrível, é, sem dúvida alguma, a seca (FARIA, 2006). Destaca-se nessa ideia uma valorização da cultura através da manutenção da religiosidade mesmo em tempos mais difíceis. A existência da seca, a partir da perspectiva religiosa, seria apenas uma forma de opressão do divino em relação aos erros humanos.

Considerações finais

Portanto a pesquisa percebe, a partir da visão do seridoense Targino Pires Pereira, diferentes peculiaridades referentes à seca no Seridó norteriograndense, dentre os quais: distribuição das chuvas, disponibilidade de água, crescimento da vegetação, permanência e êxodo da população, implicações socioeconômicas, vulnerabilidade e resistência, cultura.

Dentre as limitações da pesquisa está o escasso acesso à literatura científica sobre a seca no Seridó norteriograndense.

Para pesquisas futuras sugere-se o aprofundamento das relações entre religiosidade e seca, visto que na carta estudada existe um grande foco nas relações com o divino.

Referências

FARIA, O. L. Carta da seca. Natal: Sebo Vermelho, 2006.

MORAIS, I. R. D. ; ARAÚJO, M. A. A. MEDEIROS NETA, O. M. Espaço e cultura: (carto) grafias seridoenses. Mneme, Caicó, v. 10, n. 25, 2009.

ROESCH, S. M. A. Projetos de estágio e de pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas, 2005.

VALADÃO C. E. A. et. al. Classificação Climática da Microrregião do Seridó/RN. CONGRESSO BRASILEIRO DE METEOROLOGIA, 16., Belém, 2010. Anais… Belém: CBMET, 2010.

ZANELLA, F. C. V. Abelhas da Estação Ecológica do Seridó (Serra Negra do Norte, RN): aportes ao conhecimento da diversidade, abundância e distribuição espacial das espécies na caatinga. In: MELO, G. A. R.; ALVES DOS SANTOS, I. Apoidea Neotropica: Homenagem aos 90 anos de Jesus Santiago Moure. Criciúma: UNESC, 2003.

i Mestrando em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. E-mail: maxlabrito@yahoo.com.br .

ii Mestra em Administração e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. E-mail: jeanneteixeira@yahoo.com.br .

iii Graduanda em Nutrição pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. E-mail: acsa.nara@yahoo.com.br .

Como citar este artigo:

BRITO, Max Leandro de Araújo; TEIXEIRA, Jeanne Christine Mendes; BRITO, Acsa Nara de Araújo. Peculiaridades da seca no RN: o relato de um seridoense. P@rtes, São Paulo, Janeiro de 2011. Disponível em: <http://www.partes.com.br/socioambiental/secanoserido.asp>. Acesso em: .

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