A cigana

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 01/02/2011 como www.partes.com.br

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.

Durante o trabalho de parto do sétimo filho a mulher morreu e a criança não teve melhor sorte. Pobre homem, viúvo, seis filhos para cuidar, não sabia o que fazer.

Eis que logo depois surgiu em seu caminho, uma viúva com um filho. Na opinião dele não era preciso amar, bastava respeitar. E na base do respeito “juntaram os trapos” e os dramas.

“Casados” morando na mesma casa, marido, mulher, 6 filhos e 1 enteado. Ou mulher, marido, 1 filho e 6 enteados, dependendo da perspectiva que se olhasse.

A relação não era das melhores, mas para ele o importante é que havia uma mulher tomando conta da casa. E para ela havia um homem para sustentá-la, ao seu filho e a tropa dele.

Foi assim que todos cresceram, tornaram-se adultos e se casaram. Como o terreno da casa onde moravam era muito grande, foram ficando por ali mesmo no famoso puxadinho, um puxava de um lado, outro puxava do outro, outro ainda puxava no fundo e outro puxava para cima e todos foram se acomodando.

Dependendo do recurso de cada um, o puxadinho podia ser maior ou menor, melhor o pior, mas o que importava é que a família continuava unida e dividida ao mesmo tempo.

Certo dia, num domingo à tarde, quando todos estavam na calçada sentados tomando “a fresca”, como era o hábito antigamente, enquanto as crianças corriam, brincavam e os adultos conversavam, um grupo de ciganas passou pela rua oferecendo-se para ler a sorte em troca de alguns réis1. Alguém da casa, irado com aquela conversa mole, as espantou aos xingos e ameaças.

A cigana mais velha, ofendida, gritou com o agressor e com palavras ditas de forma muito clara, rogou a maldição:

-: até o final do mês alguém há de morrer nesta casa!

O pânico tomou conta de todos! Na hora houve briga entre eles, discussões e os dias se tornaram tensos! Não admitiam, mas pairava no ar a angústia da superstição. Queriam que o tempo acelerasse e o mês terminasse logo para voltarem a viver.

O filho da viúva para aliviar o clima, começou a fazer piada da situação. E piada de mau gosto. Dizia que se alguém dali fosse morrer, seria o velho, seu padrasto, porque ela já estava mesmo com o pé na cova, vinha capengando, a tosse era constante e o pigarro dava indícios de algum problema no pulmão.

Toda vez que cruzava com o velho, por trás fazia o sinal da cruz. É certo que os irmãos “postiços” ficavam furiosos com os comentários e gestos dele, mas para não piorar ainda mais a situação ficavam quietos. Só a mãe sentia-se no direito de ralhar com ele.

Mas, foi no último dia daquele mês que a fatalidade aconteceu…

O enteado do velho, que vivia gorando-o, teve um infarto fulminante morrendo na hora! Deixou a viúva inconsolável, três filhos pequenos e um na barriga.

A mãe chorava dia e noite e acusava as ciganas de terem matado seu amado filho.

Quanto ao velho, bem, ele viveu por mais 10 anos tossindo e pigarreando com seu cigarrinho de palha no canto da boca…


* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 

1 Moeda da época.

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