Há sentidos na vida?


Gilberto da Silva

Viver tem sentido. Compreender o significado da vida nem sempre tem sentido. Entendê-la, decifrá-la é a tarefa mais difícil de ser cumprida.

Viver hoje, na maioria dos casos, num cotidiano estressante, violento e impiedoso. É um convite à resistência. Resistir à infelicidade que teima em colocar-se presente em todos os momentos. O espanto da humanidade moderna e a incredulidade são os pequenos, fugidios e sempre sonhados “Momentos de Alegria”, “instantes de felicidade”.

É por estes maiores (e melhores) momentos de felicidade e de alegria, que muitos lutam.

Recorro a um pensador marxista alemão, um “iluminista”, Walter Benjamin, para recordar que construir a história é “recolher os restos esquecidos dessa História”. Os derrotados, os esquecidos, os incompreendidos e as “latas de lixo da História” devem ser resgatados. Dessa forma, colocá-los num novo recipiente, e assim, mesclandopassado e presente, restituir e reconstruir novos rumos, novas forças vitais para a continuidade da vida.

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos, Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.” (Sobre o Conceito de História, in: Benjamin Walter, Magia e técnica, arte e política, 7 edição, São Paulo, Brasiliense, 1994)

Lançar um olhar ao passado é ponto de partida em direção ao futuro?

Devemos lançar este olhar? Devemos ficar indagando o que foi certo ou errado?

Pode o passado desvelado, desnudo, servir de guia para um futuro onde os párias e os excluídos da História retirem as suas próprias lições?

A História possui cortes, desvios, entranças, meandros, mas as pessoas nem sempre desviam, partem em linha direta, a caminho do obscuro e ao fundo do poço. Parar é preciso, pensar é mais que preciso, lutar é sempre necessário. É necessário mesmo?

Trabalhar com a continuidade retilínea da História, com a certeza das coisas, é impossível. Mas, pergunto, tantos vivem assim até o fim de seus dias, estes estão na contramão? Por certo devemos partir do concreto, sem respostas pré-determinadas ou maniqueístas. Façamos a natureza continuar viva (se quisermos), fazemos a História, além do simples querer. Terá a História FIM? 

OS CAMINHOS

Para viver é preciso ter caminhos. Os caminhos são múltiplos sempre! Mas nem sempre as opções para caminhar são múltiplas. Muitos possuem condições objetivas para escolher. Outros nem têm caminhos. Mas a coerência nem sempre é múltipla. Quem escolhe nossos caminhos, quem faz nossos caminhos?

É que a sociedade permanece em constante construção/reconstrução, numa permanente arte de tirar/por pedras no caminho.

Há poucos que julgam ter acertado seu rumo e caminham, passos largos à destruição. Infelizmente, cegos e possuídos por uma “certeza” tal que é impossível frear ou mudá-las de caminhos. Outros estão sempre à procura do melhor caminho. Ao seguir seu ”destino”, voltam sempre ao ponto inicial, de largada, pois para estes o retorno é sempre necessário, e eterno.

“No meio do caminho havia uma pedra. Havia uma pedra no meio do caminho”. Das pedras grandes muitos desviam, das pequenas muitos tiveram que amargar tropeços e quedas. 

A MORTE DAS COISAS

O olhar atento, crítico, não passivo, carregado de múltiplas significações, percebe que viver deve ser principalmente um ato contínuo de Amor e Esperança, baseado na inconstância e nos desvios da História.

Curvar sobre o passado, recolher o lixo, reciclá-lo é, pois, a marca, o elo entre o passado e o futuro. Matemos o passado? Glorifiquemos o futuro? Ou devemos esperar somente sentado à beira da estrada sem lugar algum?

Continuaremos a desvendar o nexo oculto, para que apareça com nexo? Até quando diante do espanto (ainda nos espantamos?) ficaremos em atitude de contemplação? 

ATORES

A sociedade é desencadeadora de terremotos, furacões, tempestades e brisas; é a regente da inconstância da felicidade e da permanência dos poderes políticos viciados. É o doce teatro das ilusões e das seduções.

Palmas! A vida é um teatro de múltiplos personagens, atores, cenógrafos, iluminadores, contra-regras, diretores (poucos, porém autoritários), e produtores (ou produtor?).

Os roteiros escolhidos e encenados, conforme a conveniência da época, são aceitos pela maioria dos atores ou impostas pela mão determinante do produtor. Nem sempre a platéia participa do jogo de cena (é provável que nem entre em cena), nem sempre os atores desejam que a platéia participe desse jogo democrático. Muitos atores rebelam-se, protestam contra as regras dos atos e encenam um roteiro diferente do programado, outros são trocados como mercadoria em feira livre.

Pronta a peça, feita a montagem, nem sempre os resultados apresentados agradam o público, vem a vaia, a crítica (a má critica), a reflexão e a decepção. E quando tomados por um sentimento de revolta, ou pura vingança, o seu impedimento.

Não há sentido uma peça para todos. Porém, se esta peça não agradou a ninguém, amigos tenham certeza, há algo errado.

O produtor, muitas vezes, é desrespeitado, despido da sua natureza de poder. Mas, ardiloso recria suas histórias, cria-se outros cenários, outros atores, novos personagens. Uma nova montagem, num cenário desigual, onde o real é sonho e o falso é verdadeiro, o verso é o reverso, a tese é a antítese.

E então, há sentidos?

Posto que todos são iguais perante a lei, surge a desigualdade da desordem; posto que todos são desordeiros, surge a política da coexistência pacífica e nela a briga pelo reino do céu ou da terra, ou a luta da terra no céu.

Quem dá mais, os que oferecem a vida no reino da Terra ou os que oferecem a felicidade no reino do Céu na consciência dos moradores da Terra?

Creio que há sentidos, e captar estes sentidos, “digníssimo guru”, é transformá-los em utilidade para a vivência. É decifrar o fino fio que encobre os fenômenos, desvelando, desnudando e engendrando esse ser/desaparecer dos seres.

Mas, para você, leitor, viver tem sentido?

Gilberto da Silva, editor de Partes, jornalista e sociólogo.

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