Quando a unanimidade é impossível

QUANDO A UNANIMIDADE É IMPOSSÍVEL

Margarete Hülsendeger

 

Os adversários acreditam que nos refutam quando repetem a própria opinião e não consideram a nossa.

Goethe

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Quando alguém se predispõe a dar uma opinião – não importa o assunto – deve estar preparado para receber não só apoio, mas, principalmente, críticas. E se essa opinião for disponibilizada na internet, não tem jeito: é preciso estar pronto para tudo.

No entanto, mesmo que essa afirmativa possa parecer um tanto óbvia, ainda existem pessoas que se surpreendem quando seus pontos de vista geram alguma polêmica. Já cansei de ouvir frases do tipo: “Jamais pensei!” ou “Estão exagerando!”. Até entendo a segunda queixa, pois há assuntos que não mereceriam uma opinião, quanto mais um debate. Contudo, é difícil de aceitar que ainda existam pessoas, suficientemente ingênuas, para acreditarem que um texto ou uma pequena mensagem postada no twitter ou facebook não vá, em questão de minutos, correr pelo mundo. Se no tempo das cartas escritas a mão já havia polêmicas, imagine agora com as redes sociais?

Meus textos – artigos, crônicas e contos – estão, desde 2006, na sua grande maioria, disponibilizados na internet. Posso dizer, sem nenhuma vergonha, que sou uma escritora gerada e mantida pela web. Somente em 2011 tive meu primeiro livro publicado em papel[1]. Logo, considero-me uma espécie de “especialista” quando o assunto é divulgação de ideias por meio da internet. E para os ingênuos de plantão digo: sempre penso no que pode acontecer, justamente porque preciso estar preparada para as diferentes opiniões – a favor e contra – que os meus textos podem provocar.

Contudo, não pensem que sou algum tipo de santa ou heroína que aceita tranquilamente a ação dos trolls de plantão. Quando sou “trollada” fico muito aborrecida, mas não posso dizer que seja pega de surpresa.

Uma das características da internet é permitir a divulgação de opiniões sob o manto da invisibilidade e do anonimato. Indivíduos mal intencionados podem dizer o que querem e para quem bem entendem com um risco mínimo de serem castigados[2]. É difícil – não impossível – ajuizar uma ação contra um endereço de e-mail ou site criados com informações falsas. Portanto, quando usamos a web para emitir um julgamento, devemos estar preparados para todo o tipo de leitor. Enfim, não se pode agradar todo mundo e esta é outra obviedade que algumas pessoas não conseguem compreender.

De qualquer maneira, apesar de todos os aspectos negativos, ainda considero a internet um veículo de comunicação inestimável. É preciso apenas saber utilizá-la. É necessário que na família e na escola oriente-se nos melhores modos de utilizar os recursos que ela oferece, iniciando pelos limites de uma exposição pessoal segura e saudável. Os trolls são uma praga que só conseguiremos combater com educação. Infelizmente, não os eliminaremos, mas podemos colocá-los no seu devido lugar, o de indivíduos doentes, incapazes de externar uma opinião sem agredir.

O escritor irlandês, prêmio Nobel de Literatura de 1925, George Bernard Shaw disse: “Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela”. Realmente, opinar é um direito garantido por qualquer democracia de respeito; no entanto, não há dúvidas de que é preciso saber opinar. Um debate sem conteúdo é, além de leviano, um bate-boca que não leva a nada, a não ser a muito estresse e incomodação. Essa “máxima” vale não só para publicações na internet, mas para qualquer situação de vida. Portanto, pense, pense muito, como e onde você vai expor os seus pontos de vista e não se iluda acreditando que todos irão compreendê-lo e aceitá-lo. Afinal, se Nelson Rodrigues está certo, toda a unanimidade é burra.

[1] E Todavia se move (E pur si muove) – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011

[2] Ver crônica: “Maldade na internet”. Revista Virtual partes – http://www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/maldade.asp – 02/12/2009

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