Uma difícil lição

UMA DIFÍCIL LIÇÃO

Margarete J. V. C. Hülsendeger

Ninguém deveria acreditar que é perfeito nem se preocupar com o fato de não o ser.

Bertrand Russel

“Errar é humano”, afirma um velho ditado popular. “Persistir no erro é burrice”, conclui esse mesmo ditado. Sendo burrice ou não, o fato é que as pessoas erram o tempo todo e acabam lidando com esses erros de formas diferentes. Alguns os encaram de maneira pragmática, como quem diz: “Hoje fui eu, amanhã poderá ser você”. Outros, no entanto, se flagelam, impondo-se um sofrimento sem sentido e desperdiçando uma energia que poderia ser aproveitada em algo mais construtivo.

De qualquer maneira, a tensão emocional que, muitas vezes, nos atinge quando percebemos que erramos é imensa. Demoramos em reconhecer o quanto somos falíveis e como estamos longe de atingir a perfeição. Experimentamos uma espécie de “complexo de Deus”, esquecendo as nossas naturais – e sempre presentes – fragilidades e limites.

Gerenciar as pressões que, na maior parte das vezes, nos autoimpomos define como iremos agir diante dos inúmeros equívocos que, com certeza, cometeremos ao longo de uma vida. Assim, há os que escolhem não assumir as suas responsabilidades, transferindo para os ombros de terceiros a culpa e até mesmo o castigo. Outros, ao buscar a autoflagelação, criam para si e para aqueles que estão próximos um inferno difícil de suportar.

Mesmo sendo clichê, a verdade é que precisamos aprender com o erro. Quando isso acontece, a pessoa até pode se sentir aborrecida; mas, em vez de se impor um martírio do qual não resultará nada positivo, irá se fazer a pergunta: “Tudo bem, fiz bobagem, mas e agora, o que posso fazer para corrigir essa situação?”. Quando alcançamos essa clareza sobre o porquê das nossas ações, atingimos um nível de  amadurecimento que nos permitirá ver além dos erros cometidos.

René Descartes, filósofo francês do século XVII, já se questionava: “Se Deus é bom e nos criou, porque, então, Ele não nos equipou de tal maneira que nunca nos enganemos? Ele poderia ter-nos criado como seres cognitivamente perfeitos”. Contudo, sabemos que a imperfeição faz parte da natureza humana. Se nunca errássemos, nos tornaríamos tão arrogantes que, em pouco tempo, desapareceríamos, como espécie, da face da Terra.

Quem insiste em não ver o erro como uma forma de aprendizado, poderá voltar a errar, correndo, agora, o risco de não perceber que errou. Do mesmo modo, punir-se por ter errado só afasta as possibilidades de aprendizagem que a compreensão do erro é capaz de nos proporcionar. Nesse caso, estaremos tão voltados para dentro de nós mesmos, para o nosso sofrimento interno, que esqueceremos o quanto de dor podemos infligir aos outros.

Compartilho da opinião de Clarice Lispector quando diz: “Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar”. E será errando e acertando que nos tornaremos seres mais tolerantes, prontos para compreender melhor aqueles que, como nós, também erram. Portanto, afirmo: errar é bom. Errar faz bem à saúde do corpo, da mente e do espírito. E apesar de parecer uma afirmação polêmica, principalmente se considerarmos a sociedade na qual vivemos, que deplora e rejeita aqueles que erram, me arrisco a fazê-la, pois creio ser esse mais um daqueles paradigmas que devemos ser capazes de derrubar.

Pense sobre o assunto e se, por acaso, no meio do caminho, cometer algum erro, não se assuste e nem o ignore, mas aproveite a oportunidade para amadurecer.

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