Eu sou as minhas crenças?

EU SOU AS MINHAS CRENÇAS?

Margarete Hülsendeger

O que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver.

Thomas Kuhn

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Irritação. Desconforto. Nervosismo. Impaciência. Se você pensou que essa era uma lista dos sintomas que caracterizam a TPM (tensão pré-menstrual), não estava errado. No entanto, esses também podem ser os sentimentos de uma pessoa que se vê diante de uma mudança de paradigma.

Segundo o dicionário Houaiss, paradigma é “um exemplo que serve como modelo; padrão”. Para a Wikipédia, atual “oráculo da modernidade”, paradigma é “um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas”.

Suponha que o seu modelo do planeta Terra fosse algo semelhante a uma folha de papel. Você poderia, por exemplo, passar a vida toda acreditando que se andasse em direção a borda cairia em um abismo repleto de entidades demoníacas. Esse paradigma orientaria não só o seu comportamento – não viajar longas distâncias –, mas também suas expectativas – acreditar que nada existe além do horizonte.

No entanto, certo dia, você descobre que algumas pessoas começaram a questionar a ideia de como a Terra se parece. De uma hora para outra, você vê seu paradigma sendo bombardeado por conceitos extravagantes e, em sua opinião, absurdos e irreais. A Terra, segundo esse novo modelo, não seria plana como uma folha de papel, mas esférica como uma bola. Sua superfície não teria limites e essa coisa de “borda” e “entidades demoníacas” se tornaria uma bobagem fruto da imaginação de pessoas ignorantes.

De repente, tudo o que você achou que sabia é questionado. As suas mais sagradas convicções e certezas são impiedosamente postas em dúvida como se nada do que você acreditou até aquele momento valesse a pena. Nessa situação, será que alguém poderia culpá-lo por querer discutir, esbravejar e, se não houver outra forma de lidar com o assunto, até quebrar algumas cabeças?

Perceber que o universo pode ser maior e mais complexo do que aquilo que se imaginava é muito estressante. Causa irritação, desconforto, extremo nervosismo e impaciência. Quebrar um paradigma é doloroso. Algumas pessoas jamais o conseguem. Outras, na tentativa de diminuir o sofrimento, tentam acomodar modelos diferentes, criando um terceiro (uma espécie de híbrido) que, na maioria das vezes, acaba não indo adiante por não conseguir se sustentar.

De qualquer maneira, o fato é que a questão da quebra de paradigmas não é uma ideia nova. Ela, no entanto, se tornou famosa quando o físico e filósofo da ciência Thomas Kuhn passou a utilizá-la para explicar como o trabalho do cientista se desenvolve. Assim, no exemplo aqui dado, a ideia de uma Terra plana, semelhante a uma folha de papel, é um paradigma. Segundo Kuhn, quando esse modelo começa a apresentar falhas e a ser questionado, inicia-se uma crise. Essa crise, caso não consiga ser contornada com modelos mais explicativos e coerentes, acaba provocando a substituição do paradigma antigo por outro mais novo. Esse fenômeno desencadeia uma espécie de revolução conceitual; no caso do nosso exemplo, a Terra passa a ser vista como um objeto esférico.

A grande questão é que viver dentro de um determinado paradigma é extremamente confortável. Ele nos dá não só uma sensação de estabilidade, mas, principalmente, uma ilusão de segurança diante das incertezas da vida. E é justamente essa tranquilidade criada pelo paradigma dominante que faz as pessoas brigarem e se revoltarem quando ele é colocado em dúvida. Afinal, a incerteza desestabiliza. A desestabilização faz temer o novo. O novo força uma mudança. A mudança gera medo. O medo nos faz permanecer imóveis.

Se você pensar bem verá que passou algumas vezes por essa experiência atordoante. Num dia, sentindo-se seguro de suas ideias, sendo capaz, inclusive, de fazer longos discursos para defendê-las, e, no outro, perceber que tudo está mudando e você já não é mais o dono da verdade. O choque é arrasador, a ponto de você se perguntar: “se minhas crenças tão zelosamente cultivadas não têm mais valor, será que eu, como indivíduo, continuo tendo?”

Esse é o tipo de pergunta que pode levar uma pessoa a um psiquiatra ou, na melhor das hipóteses, a uma reviravolta na vida. Tudo vai depender do grau de dependência que ela mantém com suas ideias pré-concebidas.

De minha parte, posso dizer que já passei por essas crises algumas vezes. Não vou negar o sofrimento que elas causaram. O estresse emocional de descobrir que não se é a dona da verdade – “daquela verdade” –, é imenso. A vergonha de aceitar a ignorância quando se acreditava ser um “sabe-tudo” é acachapante. Reconhecer ser apenas mais um pequeno grão de poeira em um universo de proporções infinitas exige uma quantidade significativa de humildade que, muitas vezes, não estamos dispostos a assumir. Enfim, não vou esconder o quanto isso pode custar em horas de sono e momentos de angústia. Contudo, se estou aqui, escrevendo esse texto, é por que, de algum jeito, consegui superar e segui em frente. O importante, o essencial, é compreender que as convicções existem para serem quebradas. Por mais que doa, a vida é feita de incertezas e crises e são elas que nos ensinam que o mundo não gira e nunca girará à nossa volta.

 

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . EU SOU AS MINHAS CRENÇAS?. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, 04 jun. 2014.

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