O ponto cego

O PONTO CEGO

*Paulo Custódio de Oliveira

O Cineclube da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) exibiu o filme Ensaio sobre a cegueira (2008) de Fernando Meirelles, um trabalho interessante para quem estuda a adaptação cinematográfica. O diretor brasileiro traz para as telas o livro de mesmo nome escrito por José Saramago em 1995.

O filme não se afasta do enredo do livro, mas nem por isso deixa de ser uma obra independente. Foram articuladas miríades de relações à espera de interpretação: há o encontro de várias artes (Literatura, Pintura e Música); de muitos países (Brasil, Canadá e Japão) e de diferentes nacionalidades (os atores são brasileiros, japoneses, mexicanos e americanos). O trabalho, como um todo, se tornou um ícone da relação interartes e da interação estético-ideológica de nosso tempo.

A história é a seguinte: uma estranha doença torna as pessoas cegas. Temendo uma epidemia, o Estado as isola em um ambiente com péssimas condições de permanência, sem qualquer apoio ao problema dos “internados”. Nesse lugar ocorrem coisas horripilantes. Desprovidos de sua visão e praticamente prisioneiros, aqueles homens e mulheres recriam uma sociedade onde floresce o que há de pior em suas próprias naturezas. Um dos homens está armado e proclama-se rei. Na sociedade que ali se forma, as mulheres precisam se prostituir para comer e, seus homens, quando existem, devem se conformar à situação para continuarem a receber sua cota de ração. Instala-se o motivo do temor hobbesiano do “lobo como lobo do homem”.

Apenas uma personagem não fica cega. Estranhamente, porém, ela não consegue (ou não pretende) usar esse “poder” em benefício próprio. Esconde sua saúde e continua ajudando os companheiros cegos. Estaria originalmente impedida de usar sua visão em benefício próprio depois de séculos de opressão masculina? Estaria tão moralmente motivada que, mesmo diante da degeneração circundante, não perde sua civilidade? A doença do mundo a fizera sentir-se mal a tal ponto que perdera a vontade de ser saudável? Difícil responder com precisão, mas um fato impede respostas impensadas: ao final da narrativa ela mata o autoproclamado rei.

O tirano merecia o castigo? Sim. A resposta é certeira. A lógica da narrativa faz dela uma obviedade. Afinal, o criminoso caiu na mão da justiça. A mulher que o mata sacia a sede de vingança dos confinados. Mas a legalidade do ato não diminui sua violência. Em outras palavras, as características especiais daquela mulher caem por terra e cedem às suas contingências. Não havia meios nem motivos para impedir que ela usasse os seus poderes. Ninguém viu a execução nem pode saber quem foi o vingador do grupo. Estão todos cegos.

Exceto eu e você, meu caro leitor. Nós dois podemos julgar. E somos convidados a fazer isso. Mas devemos cuidar de um ponto cego nesse processo: nossos próprios sentimentos. É preciso considerar que também somos humanos. Chegue mais perto e contempla os sentimentos despertados por essa experiência. Sinta a raiva nascida daquela opressão. Somos capazes de contemplar objetivamente nossa condição? Seremos algum dia? Uma resposta possível estaria em um detalhe pouco explorado: no filme, a cegueira não coincide com uma escuridão, como se costuma imaginar o ambiente visual dos cegos, mas com uma brancura.

Tecnicamente, no filme não se está cego por se ver pouco ou nada, mas por se ver muito ou tudo. Compreende-se pouco porque há muito a se ver. Há um excesso de leis, de carros, de páginas do google, de prédios, de outdoors, de livros, de pessoas e de chinelas havaianas no mundo. Esse exagero de informações produz a certeza de que tudo está sendo visto.

Mas os perigos da certeza de se ver muito são idênticos aos da certeza de nada se ver. Atente para o fato de que saudamos felizes a morte do tirano. Mas porque nossa civilidade não foi capaz de recusar o prazer catártico da vingança? Porque não nos vemos. Eis o nosso ponto cego. Tendo o olhar cooptado pelos objetos, o cego de si está preparado para as mais irascíveis atitudes. Os humanos são juízes inaptos porque carecem desse cuidado com a subjetividade. Sempre se estará aquém ou além do delito de sermos humanos. Do adequado conforto de nossas mentes preenchidas por coisas, figuramos como melhores que as pessoas julgadas. A disposição lógica dos alimentos do prato ideológico que nos é oferecido sacia nossa fome de ordem. Atentos aos objetos, consideramo-nos sempre como pessoas boas, convidadas a opinar sobre o trágico caminho tomado pelas coisas do mundo. Estamos convencidos de que os civilizados jamais fariam aquelas coisas, jamais oprimiriam, jamais explorariam. Mas os civilizados, meu caro leitor, também jamais ficariam felizes com a morte de outro.

*Paulo Custódio de Oliveira. Doutor em Teoria literária, coordenador da Editora da UFGD e professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Comunicação Artes e Letras (FACALE), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Pesquisa a relação do Cinema com a Literatura e coordena o Grupo de Estudos Interartes. É vice-presidente do projeto de extensão “Cineclube”, que exibe nos finais de semana filmes brasileiros premiados, de forma gratuita à população de Dourados (MS).

Saiba mais em: Cineclube UFGD – facebook.com/cineclubeufgd

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