As duas resistências

AS DUAS RESISTÊNCIAS

Margarete Hülsendeger

 

[…] sei bem que nenhum livro jamais poderá contemplar ser humano nenhum, jamais constituirá em papel e tinta sua existência feita de sangue e de carne.

Julián Fuks

 

Um livro pequeno. Um título que se confunde com outro título. Uma epígrafe retirada de um livro de mesmo nome. Uma história dentro de uma história. Uma narrativa que conta como a narrativa foi construída. Uma estratégia literária que recebe o nome pomposo de “metaficção”.

Em linhas muito gerais isso é o que está por trás do livro do escritor brasileiro Julián Fuks, intitulado A resistência[1]. Um livro com apenas 144 páginas, cujo título se confunde com o livro[2] de outro autor chamado Ernesto Sabato (1911-2011). Além dos dois livros terem o mesmo nome, há uma outra coincidência (se é que elas existem) Sabato é argentino de nascimento, enquanto Fuks é filho de argentinos. Nos dois livros há a presença de uma “argentinidade”, marcada por uma profunda melancolia e um forte sentimento de nostalgia que está ligado a um tempo que não é mais este tempo presente, do hoje, do agora.

O livro de Sabato não é um romance, mas um conjunto de seis cartas/ensaios escritas quando o autor estava já com 89 anos. É uma espécie de livro “testamento” no qual o autor revisita não só suas obras de ficção[3], mas retoma muitas das ideias expressas em seus ensaios anteriores. N’A resistência de Sabato encontramos, além de seu conceito de “homem concreto”, sua trajetória de luta contra a desumanização característica de uma sociedade que endeusou a tecnologia. No entanto, apesar de seu aparente cansaço da humanidade, vamos perceber que, aos 89 anos, Sabato ainda acredita que “resignar-se é uma covardia”. Para ele, a aceitação é o “respeito pela vontade do outro”, respeito que não nasce do medo, mas “é como um fruto”.

O romance de Fuks abre com uma citação de Sabato, retirada de “A resistência”, publicada em 2000: “Creo que hay que resistir: éste há sido mi lema. Pero hoy, cuantas veces me he preguntado como encarnar esta palabra”[4]. Essa citação está na quinta carta do autor argentino, na qual ele se queixa da velocidade vertiginosa com que caminha a humanidade e pergunta-se como se pode pedir às pessoas, que estão tomadas pela vertigem da vida moderna, que se rebelem. Sabato, portanto, convida a uma reflexão sobre o conceito de resistência, reflexão que Fuks também faz, mas na forma de uma narrativa ficcional.

A resistência de Fuks, publicada em 2015, trata, em um primeiro plano, dos problemas enfrentados por uma família de classe média, cujos pais argentinos foram obrigados a imigrar para o Brasil na década de 70. Na verdade, a preocupação centra-se na figura do filho mais velho, que o narrador faz questão de apresentar como sendo adotado. Por sua vez, esse narrador é o filho caçula dessa família, que toma a situação do irmão como ponto de partida e revisita, não apenas a história familiar, como também a história argentina durante a ditadura militar.

Desse modo, com uma narração em primeira pessoa, percorremos os anos de ansiedade e medo vividos pelos pais do narrador durante o regime militar. A figura do irmão não é delineada com clareza, permanecendo sempre na penumbra, a ponto de o leitor perguntar-se se ele não seria uma das milhares de crianças retiradas dos braços das mães presas nos porões militares, e entregues a famílias que apoiavam o regime. Essa teoria, no entanto, acaba não se sustentando, já que o narrador logo nos informa que seus pais foram obrigados a fugir por estarem envolvidos em atos de subversão. A origem desse irmão fica, portanto, em suspenso enquanto o narrador anda pelas ruas de Buenos Aires, reconstruindo fatos e preenchendo os espaços vazios com suposições, construindo, assim, uma vida de ficção na tentativa de explicar os problemas de seu irmão e, consequentemente, as razões que motivaram o exílio de seus pais.

O narrador/personagem de Fuks é um jovem escritor, que ao decidir escrever seu primeiro livro, encontra nessa história familiar ambígua o tema de seu romance. A narrativa, porém, vai além das dificuldades de uma família de classe média no exílio; ele trata de temas que Sabato chamava de “temas metafísicos”, pois falam das questões mais profundas que desde sempre preocuparam o homem: a solidão, a morte e a angústia do isolamento. No romance de Fuks o narrador questiona não só sua relação com o irmão problemático, mas o silêncio de seus pais, percebendo que às vezes, “no espaço de uma dor cabe apenas o silêncio. Não um silêncio feito da ausência das palavras: um silêncio que é a própria ausência”.

Margarete Hülsendeger é física e mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

O fato de Fuks ser filho de argentinos pode levar muitos leitores a pensarem que seu livro tem pontos que o aproximam de uma autobiografia ou uma autoficção. Essa suspeita não é de todo descabida, afinal é muito difícil um escritor não imprimir na sua escrita marcas que tenham relação com suas próprias experiências de vida. O autor, então, “brinca” com essa possibilidade da autoficção quando, ao final da história, o narrador entrega o livro aos pais para que eles apreciem o seu trabalho. Nesse ponto é quando fica mais em evidência o trabalho de metaficção, pois os pais, além de tornarem-se os primeiros leitores, não reconhecem que estão diante de uma narrativa ficcional, para eles, o livro é uma traição à história da família: “É estranho, minha mãe diz, você diz mãe e eu vejo meu rosto, você diz que eu digo e eu ouço minha voz, mas logo o rosto se transforma e a voz se distorce, logo não me identifico mais”.

As duas resistências, a de Sabato e a de Fuks, convergem quando o tema são os problemas do homem em conflito consigo e com a sociedade. Fuks compreende que a culpa não é a solução, pois “nem tudo é tão simples que envolva uma culpa, cuja expiação vocês jamais alcançariam”, enquanto Sábato acredita firmemente que se pudéssemos vencer o medo que nos paralisa, recuperaríamos a fé. Do mesmo modo, se Sabato, em suas cartas/ensaios, defende que o essencial da vida é a fidelidade ao que acreditamos, Fuks, no seu romance, vê no silêncio não uma traição, mas a “prova mais extrema de compromisso e amizade”, pois calar para salvar o outro é o mesmo que aniquilar-se. De qualquer maneira, os dois autores, cada qual em seu tempo e a seu modo, têm a grande qualidade de transformar a resistência ao medo e à adversidade em matéria de excelente literatura.

 

[1] FUKS, Julián. A Resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2015 (versão Kindle).

[2] SABATO, Ernesto. A Resistência. Tradução Sérgio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

[3] O túnel (1948), Sobre Heróis e tumbas (1958) e Abadon, o exterminador (1974).

[4] “Acredito que é preciso resistir: esse tem sido meu lema. Hoje, contudo, muitas vezes me pergunto como encarnar essa palavra” (Tradução Sérgio Molina/Companhia das Letras).

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