Contos

Meu superpoder

Meu superpoder Allexsander de Souza * Hoje quando vejo os desenhos de super-heróis com meus filhos, lembro-me de ter manifestado um superpoder que infelizmente só ocorreu um dia. Pena! Teria sido muito útil, mas a única vez que funcionou, salvou minha vida. Tinha 8 anos. Seguia para casa de minha avó, Dindinha, a pé. Era a primeira vez que seguia sozinho. Desta forma, sozinho, notei muitas coisas que não notara antes. Contemplava árvores, pedras, arbustos e, no meio do caminho, uma cerca: alta, bem fechada, com diversas ripas horizontais entrecruzadas com pequeno espaço entre elas. Apenas para que entendam esta aventura: entre uma ripa e outra mal cabiam as pontas dos meus pezinhos, os quais encaixei para escalar. Uns...
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Contos

Ninguém pode explicar nem a Lapa Nem a Lida, num conto curto

por Zeh Gustavo   ao Paulinho da Viola que acompanha todos os sambistas   Tenso. Desfavorável. Um abafa num Rio de outono-inferno, calor alegremente soturno, derrete-miolos. A cidade exala qual açougue. No matadoidos do caldo urbano assa nossa carne misturada, rastegue somos todos andrajos na cidade-sítio de bairros-baldeações com seu trânsito de veículos débeis sob siglas pelos quais desfiamos nosso rosário de pés-rapados e bolsos extorquidos. E aquela, mais uma guigue por se fazer. Prato do dia: ensopado de restolhos. A direção: a velha senhorita-patrona, dona Lapa. Maneca e suas responsas, a superpesarem nos quengos. E nos braços que lutam pela sobrevivência musical num pano de fundo quase findo, horizonte vindouro é magro. Pedestais, dois mics, um pequeno amplificador...
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Contos

Carinho de Clarinha

CARINHO DE CLARINHA nair lucia de britto Chovia, céus como chovia!!!.. Ruas alagadas, céu nublado, nuvens cinzentas e muito frio! Todos pareciam entocados dentro de casa e o silêncio se fazia total. O único ruído era da chuva que, a seu modo, parecia canção de dormir… – Que tempinho ruim! — ouviu a mãe observar. Lembrou-se de uma frase que lhe dissera um colega da Escola. – Que seria das batatas, se não fosse a chuva! A mãe riu e concordou: – É verdade. Cansada de ficar dentro de casa, Clarinha foi até o terraço e ficou olhando a chuva. O vento bateu no seu rosto, mas ela até que gostou. De repente viu um pombo, solitário, todinho molhado, abrigando-se da...
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Contos

Por sobre o ruído da rotina besta

Zeh Gustavo* Éramos somente eu e minha mãe, num conjugado em Copacabana. A coisa precarizava mas não mudávamos de Copacabana. Não existia mundo além de Copacabana. Daí que minha família enterrara-se toda em Copacabana, constituindo um cemitério de vazios engarrafados ao sabor de sapólio de mascar e detergente de bolhas, algo barulhando qual sabão de pedra tacado ao esmo. Na verdade, a família éramos eu, minha mãe e uma amiga da minha mãe. Num conjugado em Copacabana. A amiga de minha mãe era buça-profissa. Pultinha. De regaço e recato: mulher de um gringo só, um gringo casado. Um gringo casado e sacana. Um gringo veado. Veado e provavelmente broxa, punhetesco e trivial, como qualquer gringo que tirasse Copacabana a...
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Contos

Meu inesquecível Grupo Escolar

Antes de entrar para o Ginásio Estadual, hoje, Instituto de Educação, cursei o quinto ano fundamental. Era uma extensão, reforço ou preparatório para enfrentar o exame de admissão obrigatório. Interessante que esse exame era prestado em duas etapas, provas escrita e oral. Aqueles que não eram aprovados tinham a oportunidade da segunda época. Aí as férias ficavam comprometidas se quisesse entrar no Ginasial....
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Contos

TOC

  Remisson Aniceto — O Paulinho virá nesta sexta-feira e vai ficar aqui em casa até domingo  – disse-lhe a esposa. — Serão dois dias de curso. O sobrinho do casal morava no interior e faria na capital um curso rápido de informática, pago pela empresa, para facilitar o desempenho no seu primeiro trabalho. — Quer dizer então que ele tem esta tal baboseira de TOC? Cada coisa que essa juventude de hoje inventa… é falta do que fazer… — Não caçoe – irrita-se a mulher.  — O TOC é um distúrbio importante e sério que precisa de tratamento e ninguém tem isto porque quer ou porque gosta. Até você tem uns traços deste transtorno e vem falar dos...
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Cida Mello

O Chorão

Aparecida Luzia de Mello* Estavam casados há 30 anos e ele continuava perdidamente apaixonado pela esposa e totalmente dependente dela. Era ela quem comprava suas roupas, que as separava para que ele vestisse após o banho, era ela que preparava seu prato de comida nas refeições, quem controlava a conta bancária, quem programava o lazer, marcava médico, enfim faziam tudo junto. Até que certo dia ela teve um infarto fulminante e morreu na hora. Ele ficou inconsolável, chorava dia e noite. Sua vida era somente dor, tristeza, desamparo e lágrimas. Alguém lhe sugeriu que lesse algum livro espiritualista para ajudá-lo a acalmar sua dor e tristeza além de lhe proporcionar a compreensão a respeito da morte. Ele ficou sabendo...
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Contos

Senhorita de vermelho

nair lúcia de britto Esta história é tão real que, se não fosse por ela, eu não estaria aqui, escrevendo… Apesar dos meus 48 anos de idade, não me considero velho. Tenho lá minhas esquisitices, uns gostos meio estranhos, alguns até ultrapassados que se chocam com os dessa juventude que aí está. Mas, e daí? É meu jeito de ser. O que é que tem? Feio? Na verdade, não sou! Se uma mulher me olhar com cuidado, desculpem-me a falta de modéstia, vai me achar simpático: estatura mediana, olhos castanhos-esverdeados, cabelos escuros. O grisalho das têmporas até que me dá um certo charme. Quando mais moço, nunca pensei em me casar. Não porque eu fosse contra o casamento; mas,...
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Nas manhãs no sul do mundo ll

‘’Sufocante, escuro e pesado, minha alma carece de paz, Mantê-la em lugar arejado, meu corpo úmido não é salubre ao meu ser.’’ Giordano Zaguini Furtado Para David Souza Maia e Delta Souza Maia(em memória)   Adérito Muteia caminhava, sem muita pressa, no passeio destinado para ciclistas e pedestres, tomava a direção do Bar-café Garibaldi. O Bar-café Garibaldi, não era muito distante da residência do, outrora, emérito professor doutor Adérito Muteia. Era lá que ele, invariavelmente, passava suas manhãs tediosas e nevoentas. Era para ser mais um dia de puro tédio, mais um dia vago, nevoento e desesperado. Em suma, um dia rotineiro onde, Muteia se abrigava no claustro, na segurança da mediocridade da vida cotidiana e rotineira. Mas, no...
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Contos

Num flash

 Por Ronie Von Rosa Martins Martins Estava além de qualquer horário. Era intrigante. O relógio já não mais lhe apontava ameaçador, seus ponteiros pontiagudos. Livre. Livre? Já não sabia. Não entendia qualquer liberdade. E enquanto a mulher retirava o corpo da cama e se preparava para trabalhar. Fingia dormir. Era um grande fingidor. Até felicidade fingia. Sorrisos, amenidades, afagos… era bom em fingir. Do outro lado do quarto ouvia o movimento da filha. Escola. Barulho na cozinha, banheiro. Vida. E ele fingia. Cerrava os olhos. Não pretendia ver. Não mais. Ou não era visto? Mecanicamente recebia o beijo da esposa que saia. Certa vez, para teste, acomodou-se sob as cobertas a fim de esconder o rosto. Ela beijou o...
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