A mulher de bota

Pedro Coimbra

ppadua@navinet.com.br

Seria um dia comum de outono se não fosse pelo frio que teimava por entrar no meio dos agasalhos que vestia e me enregelar.

Esperava cumprir aquele compromisso profissional e social e me enfiar debaixo de pelo menos três cobertores, numa cama aconchegante.

Era uma reunião em que o número de homem predominavam sobre as mulheres. Eles falantes e desinibidos e elas, estranhamente caladas, o que não era de seu feitio.

Encostei-me num canto e fiquei a observá-las, todas elegantemente vestidas.

Num instante percebi que quase todas elas calçavam botas.

Quando o homem surgiu lá na África distante não usava vestuário nenhum. Literalmente todos andavam nus. E talvez o que mais aborrecesse esses nossos irmãozinhos de um passado distante fosse caminhar num chão pedregoso, cheio de armadilhas.

Envergonhados, depois de conhecer o Mal, que os tirou de seu caráter angelical de seres especiais no Paraíso, sentiram vergonha de suas partes pubentas e trataram de se cobrir com toscas roupagens.

Daí para a primeira sandália a lhes proteger os pés foi um pulo, dizem os historiadores.

Andar descalço ou não tornou-se com toda certeza um sinal de civilização.

Um empreendedor se transferiu para a Corte do Marfim, com disposição e maquinário para fabricar meias. Lá chegando percebeu que iria a falência, pois ninguém comprava seus produtos. Simplesmente não havia demanda. Encomendou novas máquinas e começou a produzir sandálias de borracha que se transformaram num sucesso…

A bota é um tipo de calçado que todos nós sabemos ter o cano mais alto que o sapato comum. A altura do cano varia com a destinação ou em razão da moda.

São de inúmeros tipos: combate, militar, de motociclista, vaqueiro, feminina e outros.

São feitas com couro bovino, sola de borracha ou couro e forros em lã, pele ou sintéticos.

Surgiram da necessidade de proteger uma parte da perna das pessoas, acabando por se tornar um artigo de moda, do gosto das mulheres.

Localizo minha amiga de muitos anos, G., com os cabelos alourados, um casaco muito elegante, preto e botas da mesma cor.

Ao vê-la e perceber suas atitudes percebi que essa história de usar botas mais do que moda era um sensual fetiche.

Fetiche é uma palavra oriunda do francês e significa feitiço. É uma espécie de obsessão por alguma coisa, situação, pessoa ou parte da pessoa. Uma atração incontrolável que origina um prazer intenso, nem sempre ligado à prática sexual.

Mas ligado também profundamente a roupas de couro pretas, chicotinho e outras práticas sadomasoquistas…

A nossa conversa flui de forma muito agradável e me ponho a pensar se G. tem conhecimento de toda a simbologia contida naquele complemento do seu vestuário.

Concluo que as mulheres têm uma percepção muito maior do que a homens para o que nos atrai.

Mesmo que seja, como para G., puro charme…

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