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Purgatório

PURGATÓRIO

Margarete Hülsendeger

Lo que no llega a ser nunca sabe que pudo haber sido. Las novelas se escriben para eso: para reparar en el mundo la ausencia perpetua de lo que nunca existió[1].

Tomás Eloy Martinez

Na doutrina católica, purgatório é o lugar para o qual vão as almas que necessitam de uma “purificação final” já que morreram na “graça e na amizade de Deus”. São, portanto, almas que, apesar de não serem completamente puras, têm a “garantia da salvação eterna”. Eu, particularmente, imaginava o purgatório como uma espécie de antessala do céu, um lugar de espera onde podemos, quem sabe, folhear a “revista da nossa vida”. No entanto, para alegria geral dos católicos, em 2015, o Papa Francisco, ao revisar a teologia do inferno (incluindo o purgatório), aboliu a ideia da condenação eterna, ou seja, “no DNA da Igreja de Cristo, não existe um castigo para sempre, sem retorno, inapelável”[2]. Resultado dessa revisão teológica: adeus inferno e, consequentemente, adeus, purgatório!

Contudo, apesar da sua “extinção”, nada impede que ele continue sendo uma boa fonte de inspiração para a literatura. É o que acontece no livro do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2010) intitulado Purgatório[3], publicado um ano antes de sua morte e, portanto, seu último livro. Martínez foi escritor, crítico de cinema, editor de revista, repórter e fundador de jornais e suplementos literários, na Venezuela e no México, durante seu exílio fugindo da ditadura militar. Seu livro mais conhecido é Santa Evita (1995), uma narrativa que mistura fatos reais com ficção, onde narra a história de Evita Perón (1919-1952), ou melhor, a história das “andanças” do cadáver embalsamado da ex-primeira dama argentina, uma obra que foi traduzida para 32 idiomas e publicada em 50 países.

Purgatório segue uma linha semelhante à de Santa Evita, ou seja, é uma narrativa na qual mescla fatos reais com ficção. A ficção fica por conta da história de Emilia Dupuy, filha de um dos ideólogos do regime militar argentino, que passa 30 anos esperando pela volta do marido (Simón Cardoso), um dos milhares de desaparecidos durante a ditadura. Os fatos reais, obviamente, são os eventos que marcaram esse período negro da história da Argentina. Não espere, no entanto, cenas gráficas de torturas ou fuzilamentos; Martínez é mais sutil, mas nem por isso menos impactante. Suas palavras mexem com sentimentos e emoções profundas, como o medo de que algo parecido volte a ocorrer.

O livro inicia com uma frase que faz as sobrancelhas do leitor se curvarem em confusão: “Simón Cardoso estava morto há 30 anos quando Emilia Dupuy, sua esposa, encontrou-o na hora do almoço no salão reservado do Trudy Tuesday”[4]. Essa primeira frase gera um enigma que, apesar de toda a racionalização, se manterá até o final da leitura. Mais adiante, o narrador entrega outra informação desconcertante: “Não era só surpreendente que seu marido estava vivo. O inexplicável era que não havia envelhecido. Continuava preso aos seus trinta e três anos e até sua roupa era a de antes”. E, novamente, a despeito de toda a lógica nos apontar um caminho aparentemente óbvio, a esperança se levanta e o leitor se pergunta: “Isso é possível? Simón está, realmente, vivo?”.

Emilia, ao contrário do leitor cético, não tem dúvidas: Simón, seu marido desaparecido há mais de 30 anos, está vivo. Entretanto, como Martínez não quer que o leitor fique preso à certeza de sua protagonista, ele introduz a incerteza, a dúvida, na narrativa. Para conseguir esse efeito, obriga-nos a seguir os passos dessa história que deixa, em certo momento, de ser a de um indivíduo para se tornar a de uma nação. Ao escrever sobre a jornada de Emilia, Martínez também está escrevendo sobre como um povo pode perder sua identidade e respeito próprio quando cede a manobras que o levam a acreditar na necessidade do uso da violência e da repressão como forma de manter um sentimento de falsa segurança.

Martínez dá um certo toque poético à narrativa ao dizer que Emilia e Simón eram cartógrafos e, portanto, responsáveis por traçar rotas inexistentes e fazer desaparecer caminhos como se eles nunca tivessem existido. Os desaparecidos da ditadura argentina, entre eles Simón, transformam-se, então, nesses pontos de um mapa imaginário que podem ser apagados a qualquer momento. Do mesmo modo que desapareciam ruas, rios, lagos, estações de trem e, às vezes, cidades inteiras, também desapareciam pessoas: trabalhadores ao saírem das fábricas, proprietários de empresas, estudantes, crianças do ventre de suas mães e “mães da memória de seus filhos”. Ao assistir um dos discursos do general Videla na televisão, Emilia o vê pronunciar a seguinte sentença: “Um desparecido é uma incógnita, não tem identidade, não está vivo, nem morto, não está. É um desaparecido. Não se repita mais essa palavra. Não tem fundamento. Está proibido publicá-la. Que desapareça e se esqueça”. Uma declaração como essa é tão surreal que parece ter sido extraída de um livro, produto da imaginação de algum escritor. Contudo, para a desgraça e infelicidade de muitos, ela foi real durante sete anos (1976-1983)[5].

Purgatório, portanto, narra a vida de Emilia durante 30 anos: desde o momento que ela conhece o marido em uma reunião estudantil até o dia em que ele desaparece sem deixar vestígios. O narrador passa, então, a descrever a vida de Emilia recebendo chamadas estranhas que informavam a presença de Simón no saguão de um hotel do Rio de Janeiro ou em um hospital na Venezuela. Aliás, esse era um dos vários “jogos demoníacos” aos quais as famílias dos desaparecidos eram submetidas: o objetivo era manter a incerteza e, consequentemente, a esperança, de que

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

seus entes queridos haviam desaparecido por vontade própria. Emilia seguiu todas as pistas possíveis e imagináveis na busca de Simón, até desistir, deixando para trás a família e o país, indo se refugiar nos Estados Unidos.

É em uma pequena cidade norte-americana, onde continua exercendo a profissão de cartógrafa, que ela reencontra o marido. Emilia não questiona essa aparecimento; na verdade, sua primeira preocupação é com a diferença de idade, pois, enquanto ele usava uma camisa de gola aberta, como as de John Travolta nos “Embalos de sábado à noite”, e o cabelo era comprido como na época de seu desaparecimento, ela tinha olheiras e os músculos de seu rosto delatavam uma mulher de 60 nos. A preocupação com as diferenças corporais – destacando-se a pergunta: será que ele continuará me amando? – sobrepuja a estranheza que a situação desperta: o fato de um homem, passados 30 anos, não só estar vivo, mas não ter envelhecido. Contudo, até mesmo essa reticência inicial é superada quando Emilia percebe que a “verdadeira identidade das pessoas são as lembranças” e como ela “lembra de tudo como se fosse ontem, como se fosse agora”, Simón continua sendo o homem que amou e ela a mesma mulher amada por ele. É essa verdade que permite a Emilia aceitar Simón não como uma fantasia, mas como algo real e verdadeiro.

Purgatório é um livro que emociona de várias formas. Ficamos cativados pelo amor, sem reservas, de Emilia, emocionados pela forma como descreve seu breve casamento e um pouco confusos quando Simón retorna e ela o aceita sem qualquer preconceito. Também há espaço para a raiva e a indignação diante de uma situação da qual hoje sabemos os detalhes, mas que há mais de 30 anos foi considerada, por uma “elite”, a “melhor” forma de manter fechada a boca daqueles que discordavam de suas “ações patrióticas”. Martínez evoca essa época lembrando de eventos reais que estiveram ligados à manutenção da ditadura: a Copa de 1978, a Guerra das Malvinas, as entrevistas do general Videla aos jornais e a televisão. Ele descreve esse período como um tempo onde tudo era possível, tempo no qual a propaganda criava “ilusões de felicidade em um deserto de infelicidade”. Purgatório é um livro que merece ser lido, pois, trabalha com a memória, com o que não pode ser esquecido, pois esquecer significa (desculpe o clichê) correr o risco de voltar a repetir os mesmos erros.

[1] “O que não chega a ser nunca sabe que poderia haver sido. Os romances são escritos para isso: assinalar para o mundo a ausência eterna do que nunca existiu” (Tradução minha).

[2] Disponível: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/20/politica/1424448314_104080.html. Acesso: 31 jan 2019.

[3] MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Purgatório. Tradução Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[4] Como li a versão em espanhol, todas as citações foram traduzidas por mim.

[5] Essa declaração foi dada pelo general ao jornal Clarín em 14 de dezembro de 1979.

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