BRASIL PROFUNDO VERSUS BRASIL DIGITAL

BRASIL PROFUNDO VERSUS BRASIL DIGITAL

Como eu tenho dito muitas vezes, o futuro já chegou. Só não está uniformemente distribuído.

William Gibson

Por Margarete Hülsendeger

Durante a campanha presidencial, um dos candidatos defendeu, em entrevista à GloboNews, a criação de um Ministério da Inteligência Artificial e Robótica, o uso de drones no combate ao feminicídio e o treinamento de embaixadores e funcionários das representações brasileiras no exterior para que atuassem também como influenciadores digitais. Essas propostas desenhavam a imagem de um país familiarizado com inteligência artificial, robótica, redes sociais e novas tecnologias. Um Brasil que parece pronto para o futuro. O problema é que uma parte considerável dele ainda luta para ter acesso pleno ao presente.

Enquanto o debate político incorpora algoritmos, automação e transformação digital, muita gente ainda convive com problemas bem menos futuristas: internet precária, falta de saneamento e dificuldades para acessar serviços públicos que migram cada vez mais para as telas. É nesse espaço entre a promessa tecnológica e a vida como ela é que aparecem dois países convivendo no mesmo território: o Brasil digital e o Brasil profundo.

O primeiro trabalha remotamente, movimenta dinheiro pelo celular, pede comida por aplicativo, conversa com assistentes virtuais e acompanha o mundo em tempo real. O segundo enfrenta filas, espera ônibus, percorre quilômetros para chegar a um posto de saúde e, muitas vezes, depende de um pacote limitado de dados móveis. Quando um serviço público passa a ser exclusivamente digital, o que para uns representa comodidade pode se transformar, para outros, em mais uma dificuldade. Às vezes, digitalizar significa apenas mudar a fila de lugar: ela sai do balcão e vai parar na tela.

A proposta de usar drones no combate ao feminicídio ajuda a enxergar essa contradição. O problema é imaginar que uma ferramenta sofisticada possa, sozinha, dar conta de uma violência que costuma começar muito antes de qualquer emergência visível.

Antes do feminicídio, podem existir ameaças, agressões, pedidos de ajuda, medidas protetivas descumpridas, dependência econômica, medo e falta de acolhimento. Um drone pode fazer parte de uma política de proteção, mas não substitui delegacias preparadas, abrigos, investigação eficiente, assistência social nem mecanismos capazes de proteger uma mulher antes que a violência chegue ao extremo. A tecnologia pode ajudar o Estado a agir melhor, mas não pode servir de atalho para aquilo que ele ainda não consegue oferecer.

A proposta de transformar embaixadores e funcionários das representações brasileiras no exterior em influenciadores digitais também chama a atenção. Hoje, a comunicação de um país também passa pelas redes sociais, e faz sentido que as embaixadas saibam conversar com novos públicos nesses espaços. Mas comunicar bem não é a mesma coisa que entrar na lógica do influenciador. A diplomacia exige conhecimento, negociação, prudência e, muitas vezes, discrição, enquanto as redes sociais costumam premiar exposição, velocidade e simplificação. Modernizar a comunicação é uma coisa; transformar curtidas e seguidores em medida de eficiência é outra.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

Talvez esteja aí uma das seduções da política contemporânea. Palavras como inteligência artificial, algoritmo, robótica, inovação e transformação digital carregam uma aparência imediata de modernidade. Quando entram em um programa de governo, parecem anunciar eficiência, novidade e futuro. Mas um país não se torna moderno pela quantidade de tecnologias que consegue incluir em um discurso. A pergunta mais importante é outra: quem, de fato, poderá se beneficiar delas?

O Brasil é cheio de contradições desse tipo. Uma pessoa pode usar reconhecimento facial para entrar no aplicativo do banco e morar em uma rua sem saneamento. Uma família pode ter televisão conectada à internet e esperar meses por uma consulta médica. Um estudante pode assistir, em segundos, a um vídeo produzido do outro lado do mundo e frequentar uma escola sem laboratório ou professores suficientes. Por aqui, o futuro costuma chegar por partes e nem sempre vem acompanhado de infraestrutura, direitos e serviços públicos.

Não somos exatamente um país antigo tentando se tornar moderno. Somos um país em que diferentes épocas convivem lado a lado. Enquanto especialistas falam em cidades inteligentes, há bairros convivendo com esgoto a céu aberto. Enquanto imaginamos drones protegendo mulheres, muitas ainda enfrentam dificuldades para encontrar ajuda quando decidem denunciar uma agressão.

Isso não significa rejeitar a tecnologia. O desafio é fazer com que a inovação responda às necessidades reais da população, em vez de servir apenas como vitrine de modernidade. A tecnologia pode aproximar pessoas, facilitar serviços e ampliar oportunidades, mas também pode aumentar distâncias quando chega apenas a quem já tem recursos, conhecimento e infraestrutura.

O Brasil não precisa escolher entre o profundo e o digital. Precisa impedir que os dois continuem avançando em velocidades tão diferentes. Caso contrário, poderemos ter inteligência artificial nos ministérios, drones cruzando os céus, diplomatas disputando seguidores e serviços públicos instalados em aplicativos cada vez mais sofisticados, enquanto, em algum canto do país, alguém continuará levantando o celular acima da cabeça, não para fotografar o futuro, mas apenas para encontrar sinal.

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