QUAND’UM NUM QUÉ, DOIS LUMBRIGA: O PARADOXO NAMASTÊ EM TEMPOS DE TOTALITARISMO-EMPRESA E INTERNACIONAL LULISTA!

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]

QUAND’UM NUM QUÉ, DOIS LUMBRIGA: O PARADOXO NAMASTÊ EM TEMPOS DE TOTALITARISMO-EMPRESA E INTERNACIONAL LULISTA!

Eu sei, eu sei – tá virando rastro de estilo começar assim tão claudicante!Mas eu sei, e isso importa: é muita informação… E eu tô em falta com esta coluna: meu modo janonesco, em risco iminente de aturar viver em um país em calvário narcopentecostal bolsofascista, não me permitiu respiro, nem inspiro, para escrever uma coluna não remunerada – e que quase ninguém afinal vai ler! – em outubro. Mas, vencemos!

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Vencemos?!

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A absolutamente genial Marilena Chauí – a maior pensadora deste país depois da Maria da Conceição Tavares e da Hilda Hilst! – afirma com muita propriedade que, se vivemos condenados a nos tornarmos empresas de nós mesmos, vivemos em um estado de totalitarismo. É clamoroso, de tão evidente! Mas o MEI que me habita saúda o MEI ou ME que te habita e afirma, com todas as letras garrafais: VENCEMOS, SIM!

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De quebra, o General Janones deu pistas, mas muitas pistas, algumas subliminares e impublicáveis por aqui – como não deixar que a imagem pública de alguém se cancele por uma questão pessoal que pega carona num ativismo –, de como agir para combater por dentro esse totalitarismo neoliberal – na expressão exata de Chauí – que nos coloniza. E tal mecanismo opera de um modo diferente: pela forma. Ou pela forma-empresa – outra expressão dos termos justos de Chauí –, que ostentamos no nosso perfil no Insta, e que ouvimos do influencier namastê que denuncia nossa incapacidade de acolher o real – quando o real é algo mais próximo, digamos, do virtual, e claro que isso o influencier namastê não considera (e alguns ainda votam em miliciano!).

Como sempre há resistência, esta também precisa cuidar da forma com que se organiza em pleno Big Data, combatendo tanto de dentro para fora (driblando a Meta também na cultura, por exemplo) quanto de fora pra dentro (regulamentando as big techs, ocupando e dando voz ao que é alternativo ao modelo hegemônico de vida atual, disputando o território do desejo antissistema que a extrema direita mobiliza etc.).

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Há o racha – um lado abomina o outro. E estamos aí. Sabe-se lá quando sairemos dessa falsa polarização que se fez entre o desejo de um abismo pleno e a defesa de algum chão. Qualquer solução passará por uma reestruturação sensível do pensamento, uma reaproximação humanístico-malandra de vínculo comunitário, que puxe pela convivência em torno de algum resquício de saúde. Isso junto, em paralelo, com o propósito de erradicação do bolsofascismo como um projeto de nação a ser tocado sem hesitar. Só isso para curar a lombrigueira que se tornou viver num país cindido entre a estupidez orgulhosa e barulhenta e o restante das gentes.

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E onde entra Janones nisso? O camarada inventou uma espécie de pragmatismo crítico, pelo qual se torna viável – e necessário, urgente – lidar com o mundo, o real, virtual como ele também é. Confuso? Vamos lá: o Exército do Lula mobilizou seres críticos, cricríticos, cricricríticos a entender, por exemplo, que você não está nos corredores de sua bolha acadêmica ou profissional ou militante empoderadx, ao adentrar o Instão. Você pensa que está. Você caiu no conto do vigário mais sacanocrata de todos os tempos. Mas você precisa entender onde você tá, isto seja – cair na real do virtual.


Exército do Lula – Reprodução Redes Sociais

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Então, com o Exército do Lula, em plena Guerra Híbrida – e numa reedição fabulosa do centralismo democrático dos antigos PCs da época da Guerra Fria –, Janones chamou para si o papel de direção, de vanguarda, que andamos deixando de lado como algo ultrapassado – enquanto éramos/somos dirigidos pelo capitalismo de falsas transparências das big techs. E deu no que sabemos. Em suma: no mundo de comandos, precisamos ter os nossos – sem maiores vacilos, sem dó de agir também num modo automatismo quando isso se impõe como tarefa civilizatória.

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Para além de MEI, este Zehzeira é um artista que não consegue viver às custas da sua arte e que faz revisão de texto pra sobreviver, como antes já foi celetista de empresa pública com mandato sindical e camelô (da infância até alta adolescência). E que já ouviu, inúmeras vezes, acusações de elitismo ao cantar o samba em que acredita, ao propor seu próprio repertório numa roda, ao criticar publicamente a normalização do domínio do pagonejo sobre tal expressão popular e por aí vai. Então, alguns pingos nos is depois, temos que: artista precisa também propor e encampar sua arte, além de se comunicar e buscar atingir um público com/para ela. Quando não consegue porque o algoritmo não deixa; porque o streaming esconde até nome de compositor(a) de música, e não o remunera; ou porque o mercado concentrou 90% dos recursos, como nunca na história da música brasileira, num gênero só, o agromusic (e seus associados: pagonejo meloso, pisadinha nervosa, ostentação de dedo no cu e gritaria, tudo machadada pops na maior escola musical do mundo, a brasileira), isso não é mais da alçada de um único artista. Precisa ser tomado como uma missão de continuidade e de resgate dos escombros. Do contrário, NÃO VAMOS SOBREVIVER FAZENDO ARTE.

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Ainda Chauí: vai de dica de acesso rápido e gratuito ao seu pensamento o artigo O totalitarismo neoliberal, publicado na revista Anacronismo e Irrupción em 2020: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/7456781.pdf.

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Como nunca estive a escrever tão direto ao ponto: como viver em paz, ou alcançar alguma graça interior, num mundo produtor de ansiedades e perversidades mil, que te exige trabalhar como indivíduo-empresa de si mesmo(a) e ainda sorrir na redessoci? Quem te oferece isso te oferece um placebo em cápsula de fármaco. Eis então o que chamei – lindamente, não?! – de paradoxo namastê (e que preciso desenvolver mais, aqui é só um aperitivo): o mercado, então, disfarçado de psicólogo holista da vez, ou de coach mesmo, quando mais desavergonhado, vai convocar aquele seu Augusto Cury (argh!) da vez para te convencer a entoar um mantra maneiro; ou chamar tua Polyanna da paz interior pra jogo (já falei em edições passadas desse clássico irrefutável das bancas de jornais que depois fez sucesso no cinema com figuras como a Amelie Poulain, dessa certamente você se lembra!).

De quebra, você ainda ouvirá conselhos díspares como: se valorize pois você se basta, não entre num relacionamento com pessoas estruturalmente diferentes de você, cuide de si (que parece vir com o combo implícito nunca leia o Foucault pois vai descobrir que o cuidado de si de que ele fala é bem outra coisa e implica o outro, implica o mundo).

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Dúvida do mês: você, a esta altura do campeonato, ainda acha que dupla pseudossertaneja que apoia Flavio Fujão é dupla de artistas e não de celebridades-sócias da agromusic?

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Enfim, no paradoxo namastê, dois dos maiores alvos, de modo sutil ou nem tanto, são o amor e a arte. Sem ser simplório: o paradoxo namastê sustenta uma vigilância contra a agonística própria do (1) se deixar viver o amor (permissão de encantamento e abertura do eu para com o outro; vontade de potência carnal e afetiva compartilhada; mergulho do eu no outro e uma volta do eu a si, pelo outro, o que modifica esse eu e esse outro, como fala Byung Chul-Han no seu Agonística do Eros; (2) se deixar fruir pela arte (o que requer profundidade de vivência, capacidade de leitura, também mergulho e disposição de escuta presente de um sensível avesso a fórmulas prontas).

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Ah, Zehzeira, então não tem remédio para o nosso desassossego? Nenhum alívio para a tormenta? Ora, o remédio (!) é encarar isso sem tapar a bicha da dor que corrói qualquer existir. Existir dói. Pronto, então tá tudo bem. Na fórmula do filme de Hugo Carvana: Não se preocupe, nada vai dar certo! Ou, à la Carlos Drummond: trata-se de aceitar (evite o famigerado acolher!)a condenação do Anjo Torto que nos guia e desguia e aprender de uma vez a ser gauche na vida. Se funciona para mim? Claro que talvez!

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PESSOAL, URRRGENTE! Não me xinga, vai, mas eu te peço, em tom janonista: vamos abrir nossos poros estético-político-existenciais para fazer o L pelo mundo, mas para além do próprio L? Bora enchê-lo de um sentido outro, novo, potente, pujante – logo, poético? A Internacional Lulista não merece que surjam (eles já estão aí!) outros Chicos Buarques e Drummonds de Andrade? Hildas e Chauís? Cartolas e Clubes da Esquina? Bora então ser mais pragmáticos ao lidar com empresas de algoritmos e curtir/repostar/compartilhar o mundo de dados que espelha ao menos um pouco do que a gente acredita, a começar pelo amigo artista que lança um livro de literatura, pela professora foda que vai dar um curso on-line para repensar essa bagaça toda que a gente vive? Por que ser tão blasé ao entrar na rede? A quem serve tua indiferença diante do outro que está ali próximo e precisa de apoio para driblar o limbo virtual?

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Uma inusitada Internacional Lulista se conforma em torno do símbolo mundial que é o gênio amoroso e combativo de nome Luiz Inácio Lula da Silva. Sigamos fazendo nosso L pela vida, pelo mundo. Aprofundemos e lutemos todo dia por esse legado que se consolida exponencialmente como forma-luta.

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Ha! Pensou que eu ia esquecer? EXPLOOOODE este texto, pessoal!

Zeh Gustavo
Zeh Gustavo, carioca, filósofo do cotidiano foucaltiano é sambista de rua, compositor, escritor, revisor. Publicou, entre outros, os livros Uma vírgula no findomundo, Contrarresiliente e Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (vencedor do Prêmio Lima Barreto, da Academia Carioca de Letras) e co-organizou, com Rafael Maieiro, a coletânea poética “Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo“, do qual Zeh é também um dos autores. Na cantoria, fez parte, como cantador, de grupos como o Terreiro de Breque, Cordão do Prata Preta, Samba da Saúde e Banda da Conceição e hoje atua solo como intérprete em Cuidado, Zehzeira!, seu primeiro álbum, de que fazem parte a autoral “Mignon com queijo magro” e a regravação de “Beto bom de bola”, de Sérgio Ricardo. Em 2021, fez a produção fonográfica e cantou em duas faixas do álbum musical “Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo”, gravado pela cantora baiana Kell Santos inteiramente com composições de Zeh.

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