A imagem no espelho

A imagem no espelho

Margarete Hülsendeger
publicado em 02/06/2008

 

“Será que faço? Ou será que não faço? E se eles não gostarem? E se não conseguir agradar? E se não sou a pessoa certa?”.

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Quantas perguntas. Quantas dúvidas. Essa é a vida daquele que se poderia chamar de inseguro crônico. O sentimento de inadequação, de estar em dívida, é tão grande que cada passo dado vem repleto de incertezas e questionamentos sobre a sua capacidade de ser e de fazer. Esse tipo de inseguro, ao olhar-se no espelho, raramente consegue realizar uma avaliação pessoal minimamente satisfatória.

É claro que, a insegurança assim descrita pode até ser considerada um tanto quanto patológica. Afinal, viver sentindo-se inadequado não é vida, é sofrer. No entanto, todos nós, em menor ou maior grau, já nos sentimos dessa maneira. O problema é quando isso se torna regra, e não exceção, em nossas vidas.

Outro dia, estava em uma reunião e pude presenciar algumas reações bem interessantes. Sabe aquelas reuniões de avaliação, tipo “vamos ver como estão as relações interpessoais da nossa equipe?”. Era uma dessas. Havia um pequeno grupo reunido e a proposta era que cada um pudesse identificar, verbalizando para o grupo, as suas qualidades e defeitos. Nesse encontro em particular, eu era apenas uma espectadora. Assim, não participando diretamente do trabalho, pude observar, com relativa tranqüilidade, os diferentes níveis de insegurança apresentados por cada um dos participantes. Foi uma experiência não só interessante, mas também, instrutiva.

Um dos participantes (o primeiro a falar) foi sincero em dizer que seus defeitos eram poucos (quem sabe, falta de modéstia?). Ele considerava suas qualidades e potencialidades tão numerosas que facilmente superavam quaisquer deficiências que pudessem existir em sua personalidade. Bravo! A pessoa em questão foi praticamente aplaudida de pé. Muito provavelmente, baixa auto-estima é um conceito que inexiste em seu vocabulário. Tanta segurança reunida em um único indivíduo é de fazer inveja a qualquer um!

De qualquer maneira, ao ouvir esse primeiro depoimento não pude deixar de pensar na minha própria lista de defeitos e qualidades. Constatei, por exemplo, que as duas colunas competem entre si em pé de igualdade. Um equilíbrio relativamente satisfatório entre o que considero bom e mau em minha personalidade. O mesmo sentimento fui capaz de perceber na maioria dos integrantes do grupo.

No entanto, alguns reconheceram que em alguns momentos de suas vidas o sentimento de insegurança torna-se mais forte, o que pode transformar, nessas horas, a lista dos possíveis defeitos mais extensa e significativa. Segundo eles, esses momentos geralmente estão associados a períodos de dificuldades ou exigências pessoais, nos quais a auto-estima de cada um é testada ao extremo. São aqueles dias em que tudo parece conspirar contra nós. Nesse caso, para eles, o “sentir-se por baixo” chega até ser normal. O “pulo do gato”, entretanto, para a maioria dessas pessoas, foi sempre o de tentar sair dessas situações o mais rápido possível, pensando nas coisas boas que já realizaram e nos sucessos que alcançaram. Quando percebiam e se convenciam dessas conquistas, a velha e incomoda insegurança tendia a diminuir até atingir um nível considerado por todos “normal e tolerável”.

Contudo, antes da reunião encerrar ainda restava um último componente do grupo para se manifestar. Até aquele instante ele havia permanecido em silêncio. Ele foi, com certeza, a grande surpresa do encontro, com um depoimento radicalmente diferente do primeiro. Segundo ele, encontrar aspectos positivos na sua personalidade, foi uma tarefa extremamente difícil. Na verdade, só havia conseguido elaborar uma lista de defeitos, ficando para uma próxima oportunidade (quem sabe outra reunião?) a sua lista de qualidades. O silêncio do grupo foi total. “O que dizer? O que não dizer?”. Essas eram as perguntas que todos se faziam. O mais estranho foi perceber que os colegas nunca haviam percebido tal quadro de depreciação. Daí a surpresa e o espanto de todos.

Quando convidado a explicar as razões para sentimentos tão fortes de insegurança e inadequação, ele não soube precisar como ou quando tudo começou. É claro que todos perceberam que aquele, talvez, não fosse o melhor momento para exorcizar possíveis fantasmas interiores, os responsáveis, quem sabe, por esses sentimentos. Assim, coube naquele instante aos participantes do grupo procurar reforçar os aspectos positivos da sua personalidade, fazendo-o ver suas reais potencialidades e capacidades. No entanto, eram visíveis o constrangimento e relutância dessa pessoa em reconhecer os aspectos positivos apontados por seus colegas.

Esse indivíduo, portanto, ao contrário do primeiro, é o que me arrisquei em denominar, anteriormente, de um inseguro crônico. Nada que ele venha a fazer ou realizar é suficientemente bom ou satisfatório. Os outros sempre estão a sua frente, sempre são melhores que ele. O sentimento de baixa auto-estima é uma constante, quase um modo de vida. Assim, realizando-se apenas uma análise superficial de um depoimento desse tipo, é difícil deixar de acreditar que uma pessoa com esses pensamentos não sofra. Afinal, sentimentos de insegurança tão fortes e freqüentes geralmente vêm acompanhados de outras sensações, igualmente desagradáveis e negativas.

Quando, finalmente, o trabalho encerrou, todos pareciam exaustos como se tivessem corrido uma maratona. Era quase possível ouvi-los ofegando. Essa é uma daquelas experiências que, apesar de interessantes e instrutivas, poucos se sentem à vontade para repeti-la. Todos, de uma maneira ou outra, deixaram transparecer muitos de seus sentimentos e, principalmente, como eles os afetavam.

De qualquer maneira, apesar das limitações inerentes a esse tipo de proposta, talvez seja importante refletir sobre o que podemos levar da experiência aqui descrita?

As conclusões, como sempre, não são definitivas, dependem muito de como cada um é capaz de interpretar e gerenciar os seus próprios sentimentos. Porém, é possível identificar alguns pontos em comum. O primeiro deles, talvez, seja compreender que a insegurança (não importa o grau) raramente vem desacompanhada. Geralmente, ela está associada a outros sentimentos perturbadores, como baixa auto-estima, ansiedade e/ou medo. Do mesmo modo, é preciso entender que todos nós passamos por períodos de “baixa” nos quais nos sentimos aquém das nossas reais potencialidades. O problema todo está na extensão desses períodos e na dimensão que damos, em nossas vidas, a esses sentimentos negativos. Em outros termos, sentimentos de insegurança fazem parte da vida de todos, principalmente quando pensamos nos tempos que atualmente vivemos. No entanto, levá-los ao extremo, acreditando-nos incapazes o tempo todo, é algo que deve ser questionado e analisado em profundidade.

Portanto, quando perguntas do tipo: “Será que faço? Ou será que não faço? E se eles não gostarem? E se não conseguir agradar? E se não sou a pessoa certa?” insistirem em aparecer no horizonte dos seus pensamentos, lembre sempre que ninguém é realmente perfeito e que uma pitada (apenas uma pitada!) de insegurança pode até ajudar a mantê-lo dentro de uma perspectiva saudável e realista seus reais limites e potencialidades. Entretanto, se tudo sempre lhe parecer estar além das suas capacidades, pense em trocar o espelho no qual você vem se olhando, pois talvez ele não esteja refletindo a imagem que, realmente, reproduza o seu verdadeiro eu.

 

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