Uma vivência de estágio curricular no ensino de Química

Uma vivência de estágio curricular no ensino de Química (1)

Edna Falcão Dutra (2)
publicado em 20/06/2009 como <www.partes.com.br/educacao/ensinodequimica.asp>

INTRODUÇÃO

Edna Falção Dutra é licenciada em Química pela UFSM, Aluna do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM, Bolsista de Mestrado CAPES/DS

Este trabalho apresenta as experiências vivenciadas por uma graduanda do Curso de Licenciatura em Química da UFSM, durante o desenvolvimento de seu Estágio Curricular, no âmbito das disciplinas de Prática de Ensino de Química I e II. Esse estágio foi realizado nessa disciplina, em uma turma de 1ª série do Ensino Médio, no Colégio Estadual Coronel Pilar, na cidade de Santa Maria/RS, no ano de 2006. Esta Escola oferece, nos 3 turnos de funcionamento, Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio e possui aproximadamente 1.500 alunos. A Escola possui Educação Inclusiva, onde alunos com necessidades educacionais especiais frequentam aulas em turmas regulares.

A Escola possui laboratório de ciências, laboratório de informática, sala de artes, sala de vídeo, quadra de esportes, sala de ginástica, cozinha e uma biblioteca que possui livros, revistas e jornais.

A turma de 1ª série do Ensino Médio, onde se realizou o estágio, funcionava no turno da noite e era composta, por 35 alunos, sendo 15 meninas e 10 meninos, cuja faixa etária variava entre 14 e 22 anos. Entre os alunos havia alguns repetentes. O tamanho da sala de aula era compatível com o número de alunos; era bem iluminada e bem arejada; havia alguns cartazes de outras disciplinas pendurados nas paredes.

O planejamento e aplicação dos planos de aula foram realizados individualmente, acompanhados por reuniões quinzenais com o professor orientador de Estágio Curricular na UFSM. O estágio foi realizado no período entre 13 de Abril a 02 de Outubro de 2006, sendo ministradas 48horas/aula.

 

DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

O primeiro contato com a supervisão da Escola foi para consultar a possibilidade de poder desenvolver a Prática de Ensino em Química nessa instituição de ensino, porém, a supervisora me comunicou que a Escola já tinha quatro estagiárias atuando na disciplina no período noturno e que veria o que era possível fazer em relação ao meu caso.

Assim, decidi entrar em contato com outras Escolas de Ensino Médio. Na mesma semana a referida supervisora entrou em contato comigo e me explicou que a Escola estava sem professor efetivo de química para as turmas de 1º ano do Ensino Médio do turno da noite e me consultou se eu poderia assumir uma das turmas. Como já havia desenvolvido meu Estágio de Prática de Ensino em Ciências nessa mesma Escola e meu desejo inicial era de continuar trabalhando nela, aceitei o convite.

Assumi, eu, estagiária, todas as responsabilidades que diziam respeito à turma que me foi cedida. Por exigência da Escola, programei o conteúdo conceitual a ser trabalhado, ao longo do ano, de acordo com o “conteúdo programático do PEIES – Programa de Ingresso ao Ensino Superior” da UFSM. O PEIES é uma forma de seleção para entrada na graduação da UFSM, na qual os alunos matriculados no Ensino Médio e inscritos para essa seleção realizam uma prova, em geral no mês de dezembro, a cada um dos três anos do Ensino Médio. Essa forma de seleção é uma alternativa para os alunos que não pretendem enfrentar as provas de vestibular, porém não os priva dessa tradicional forma de ingresso na universidade. Cabe ressaltar que diversas vezes perguntei aos meus alunos se eles pretendiam realizar a prova do primeiro do ano do PEIES e apenas dois confirmaram que sim.

Procurei planejar as atividades de aula demonstrando uma certa preocupação com o aprendizado e a importância que ele teria para o aluno, esperava que com essas atividades eles se tornassem mais participativos e interessados em aprender, e que conseguisse despertar neles o interesse pela Química, que tem grande importância para o nosso dia-a-dia. Essas atividades foram planejadas tendo como base o uso de diferentes livros e materiais didáticos.

A ausência de um acompanhamento por parte de uma professora regente de turma para poder sanar dúvidas e angústias foi sentida com o passar do tempo, entretanto procurei superá-la em minhas conversas com colegas, com professores da escola e com o professor orientador.

Minha preocupação não só neste estágio, mas em qualquer momento da prática docente é preparar os alunos para a vida, torná-los capazes de avaliar, de agir e de refletir sobre as diferentes situações que a vida nos oferece. Em algumas dessas situações há a influência da Química, e minha meta é tornar o conhecimento adquirido o mais próximo possível da realidade dos alunos, que eles consigam relacionar as situações do seu cotidiano com os conteúdos científicos. Durante as aulas pedia aos alunos que buscassem reportagens/textos em revistas/jornais relacionados com o tema que estávamos trabalhando para que nossas discussões pudessem ir além do conteúdo dos livros didáticos. Para as aulas práticas, dava um leque de opções de técnicas que poderiam ser trabalhadas e pedia a opinião deles para saber qual experimento tinham maior interesse em realizar. Notei que os alunos sempre optavam pela técnica que tinha maior relação com o dia-a-dia deles.

Essas atividades me ajudaram a conhecer a capacidade crítica e discursiva de alguns alunos, diversas vezes nossas aulas transformaram-se em verdadeiros debates, onde temas atuais e importantes como guerra, doenças, biotecnologia e impactos ambientais tiveram destaque. Em vários momentos os alunos demonstraram-se surpresos em constatar que alguns desses temas poderiam ter relação com o conteúdo que eles estavam aprendendo.

A avaliação dos alunos ficou totalmente sob a minha responsabilidade, para tal considerei o avanço deles em relação às unidades trabalhadas e à participação e ao comportamento dos mesmos em sala de aula. A Escola pediu para que a avaliação fosse realizada continuamente. Essa avaliação era feita mediante uma prova escrita. Nossas avaliações foram organizadas a partir de diferentes modelos de questões (completar, responder, citar, palavras-cruzadas…). Apesar disso, considero que os métodos para a avaliação foram insatisfatórios, pois percebíamos, durante as aulas, que os alunos compreendiam e conheciam determinados temas e que, após a correção das provas, as notas não condiziam com o que vivíamos em sala de aula. Acredito que a avaliação ainda seja um assunto delicado, o qual ainda não consegui chegar a um consenso.

Essa experiência confirmou meu pressuposto de que devemos trabalhar atividades que despertem o interesse do aluno, independente dos obstáculos que teremos que superar para conseguir isso. As barreiras encontradas foram importantes para que eu aprendesse a tomar as devidas atitudes e adquirisse o respeito dos alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nas experiências por mim vivenciadas, foi possível constatar que elas foram muito válidas. Não só tive a oportunidade de ensinar como também de aprender e terei para a vida muitas lembranças e ensinamentos. Apesar de não ter tido acompanhamento por parte de uma professora titular, foi uma ótima oportunidade para trocar idéias e experiências com os alunos. Considero que o professor deve ser um transportador e não um fornecedor de respostas, ele deve considerar as concepções prévias dos alunos e a partir dessas construir um conhecimento.

Estou certa de que ainda existirão obstáculos a serem enfrentados, cada turma será diferente, as situações que enfrentarei serão outras, as atitudes que tomarei também deverão ser diferentes, mas estou ciente de que esses obstáculos servem de preparação e encorajamento para eu enfrentar situações que são comuns e constantes na vida de um professor.

Para a vida profissional, pretendo continuar desenvolvendo situações relacionadas com a realidade do aluno, pois o papel do professor é fundamental na formação crítica de uma pessoa, por isso não basta que eu seja apenas professora, preciso também ser orientadora e condutora de meus alunos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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KULCSAR, Rosa: (2003). ‘O estágio supervisionado como atividade integradora’. In: Piconez, Stela C. B. (Coord.) A prática de ensino e o estágio supervisionado. 9.ed. Campinas/BRA: Papirus.

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TERRAZZAN, Eduardo A.; SANTOS, Maria Eliza G.; LISOVSKI, Lisandra A. ‘Desigualdades nas relações universidade-escola em ações de formação inicial e continuada de professores’. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO, 28., 16 a 19 de Out. de 2005, Caxambu, MG, Brasil. CALDAS, Alessandra; RIBEIRO, Luciene; CARNEIRO, Tarsila M. (org.). ‘40 anos de Pós-Graduação em Educação no Brasil: produção de conhecimentos, poderes e práticas’. Atas… 21p. (CD-ROM, arq). ISBN 85-86392-15-4.

 

[1] Trabalho apresentado no VII Encontro sobre Investigação na Escola, realizado na cidade de Porto Alegre, em setembro de 2007.

2 Licenciada em Química pela UFSM, Aluna do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM, Bolsista de Mestrado CAPES/DS. E-mail: ednaduttra@yahoo.com.br

 

Como citar este artigo:

DUTRA. Edna Falcão, Uma vivência de estágio curricular no ensino de Química.P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. Junho de 2009. Disponível em <>. Acesso em _/_/_.

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