Da Felicidade

Margarete Hülsendeger

publicado em 01/10/2009

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

procede tal e qual o avozinho infeliz:

em vão, por toda parte, os óculos procura

tendo-os na ponta do nariz!

Mário Quintana

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Muito já se falou e escreveu sobre ela. E a conclusão é sempre a mesma: nunca se é, mas, na verdade, se está. A felicidade é, portanto, aquele estado emocional de momento e de conquista, muitas vezes difícil. No entanto, independentemente do que se pense sobre ela, é inegável o fato de que todos a buscamos. Encontrá-la – ou, seria melhor dizer, conquistá-la – é o maior objetivo do ser humano.

A questão é se ao encontrá-la saberíamos reconhecê-la. Você sabe quando está feliz?

Faço essa pergunta por que a insatisfação e a impaciência vêm se tornando cada vez maiores, cada vez mais sufocantes, transformando a infelicidade, e não a felicidade, na nossa companheira mais constante. Estamos sempre procurando meios de sermos felizes, esquecendo, no entanto, os modos de conquistar esse sentimento tão sonhado.

Segundo o dicionário, o substantivo felicidade significa: “Qualidade ou estado de feliz”. Já o adjetivo feliz pode ter cinco significados diferentes: “1. Que goza de satisfação, sorte, ventura; afortunado. 2. Intimamente contente, alegre. 3. Que teve ou tem bom resultado; bem-sucedido. 4. Favorecido pela sorte, afortunado. 5. Que proporciona, traz ou transmite felicidade”.

Após ler todos essas definições, compreendi que o simples e frio conceito acadêmico também não é capaz de explicar completamente um sentimento que por sua própria natureza é carregado de subjetividade. Como a felicidade não é uma propriedade do indivíduo, inexiste uma maneira objetiva de entender o seu significado. Suspeito que Einstein ao enunciar a sua célebre frase “Tudo é relativo”, tenha, quem sabe, pensado justamente nas diferentes gradações que esse sentimento pode assumir.

Os livros de autoajuda, por exemplo, se tornaram verdadeiros campeões de vendas porque, entre outros objetivos, se propõem a ajudar as pessoas a descobrir a felicidade. As receitas dadas por eles são as mais variadas, basta ter paciência para ler. Entretanto, nenhum livro, por melhor que seja, é capaz de realizar milagres. É preciso, antes de tudo, uma tomada interna de consciência sobre o que queremos fazer com as nossas vidas: se vamos ser um veículo de felicidade ou de infelicidade, de satisfação ou de insatisfação.

Freud dizia que a felicidade era um problema individual, onde nenhum conselho seria válido, devendo cada um procurar por si a receita de ser feliz. Assim, a questão não é se somos ou se estamos felizes, mas se conseguimos compreender o que é e como se conquista essa felicidade. Uma pessoa feliz é facilmente reconhecível, assim como uma infeliz. Todos nós já sentimos a diferença e todos nós sabemos do lado de quem é mais prazeroso estar. A felicidade, assim como o amor, é um sentimento contagiante. Uma pessoa feliz ou apaixonada modifica o seu entorno, influenciando a todos aqueles que entram em contato com ela.

Portanto, como sabiamente nos lembrou Freud, não podemos querer atribuir aos outros a responsabilidade pela da nossa felicidade ou infelicidade; essa, felizmente, é uma tarefa que nos cabe. E se esse é um estado emocional de momento, porque não torná-lo mais frequente em nossas vidas? Quanto mais momentos de felicidade conseguirmos conquistar, mais satisfeitos e menos ansiosos iremos nos sentir. E isso, com certeza, é algo pelo qual vale a pena lutar.

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