A geografia do Rio Ipanema

Maria do Socorro Ricardo

publicado em 01/12/2011

 

 

Poema de 1977 – de Maria do Socorro Ricardo

 

 

Maria do Socorro Ricardo
escritora e pesquisadora;
escreve sobre Literatura em Santana do Ipanema: Boa Leitura!

Estou viajando na geografia do rio Ipanema

Conheço o seu leito de rio e de pedras e mato

As pedras e areia constroem arranha-céus

PE avizinha-se de Alagoas de quem foi una

Sigo o rio com olhar de peixe, olhar de pedra

Ele corre e desaparece na boca de ribeirinhos

E o rio reaparece em jorros ferozes de peixe

Dele saem baleias, tubarões e latidos de cães

Sua geografia rasga a terra com fome, à unha,

O rio Ipanema alimenta as cidades de chuva

Como sonhos que alimentam o sono de plumas

Numa velocidade de ano-luz que liga galáxias

O rio Ipanema morre dentro do rio São Francisco

Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra

E se desembesta pra morrer na Praia do Peba

O rio Ipanema se aproxima igual peba da praia

Em partes se aprofunda, em partes ele está raso

Ao avistar Santana do Ipanema o rio rir um risco

E continua a sua viagem em seu leito de sono

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de riso

Ipanema viu morrerem de sede as suas piabas

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de rio

Você que deixou em PE a Serra do Ororubá

Você que termina sua vida de rio em Belo Monte

No povoado Ipanema onde bebe o São Francisco

Este nosso São Francisco também é alagoano

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de rio

Alaga os potes de barro dos sedentos ribeirinhos

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de rio

Antes visite as cidades de Poço das Trincheiras

Visite Santana que homenageia o nome Ipanema

E depois corte Batalha com sua água de peixe

Antes que as barragens lhe alcancem com garras

Se lhe alcançaram em Ingazeira com dedos férreos

Se lhe aprisionaram em Águas Belas, não o soltam;

Porém, rio Ipanema, se lhe soltam, solta um fio só

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de rio

Pois a barragem de Santana tem o ouro da areia

Onde são esculpidos os fósseis de seus piaus

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de rio

Não saltam mais nas suas águas lodais os mandins

Vai, rio Ipanema, cumprir o seu destino de riso.

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