O caso das estátuas

O CASO DAS ESTÁTUAS

Margarete Hülsendeger

 

Há esperanças, só não para nós.

Franz Kafka

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Morro, mas não vejo tudo! Têm coisas que parecem ter saído diretamente de um conto do Kafka.

Um belo dia, funcionários da prefeitura de uma cidade do interior – me reservo o direito de preservar o nome do local – receberam uma encomenda inusitada. Tratava-se de três estátuas: uma zebra, um elefante e a imagem, em tamanho natural, do deus do vinho. Esses “monumentos”, quando chegaram na tal cidade, foram descarregadas no pátio da Secretaria de Viação e Obras Públicas e, como mais tarde foi averiguado, custaram aos cofres públicos a bagatela de 24 mil reais. Segundo o que se pôde até o momento apurar, elas seriam o resultado de medidas de compensação ambiental (?!) acordadas, em 2011, com duas vinícolas (?!) com o objetivo de “embelezar” praças.

Se você a essa altura está pensando que eu estou inventando essa história, lamento informar: é tudo verdade. E se não fosse triste seria muito engraçado. Imaginem…

Em uma manhã de segunda-feira, digamos 10 horas, estavam todos os servidores trabalhando, quando um caminhão enorme estacionou na frente da prefeitura. O veículo imediatamente atraiu a atenção das pessoas que estavam ali perto e até fez com que algumas reduzissem o passo para matar a curiosidade. O motorista deixou o caminhão segurando uma prancheta e, com pressa, dirigiu-se para o interior do prédio.

Como geralmente acontece em repartições públicas, ele foi encaminhado no mínimo a quatro (talvez cinco!) funcionários diferentes até que alguém decidiu responsabilizar-se pela entrega. Esse pobre infeliz, quando leu o que estava descriminado na fatura, não conseguiu entender. Era absurdo demais para ser verdade. O motorista, querendo encerrar a história o mais rápido possível, correu para o caminhão e aguardou que alguém fosse designado para retirar a mercadoria.

Enquanto isso, o número de curiosos em torno do veículo aumentara significativamente.

“O que será que tem aí dentro?” – era o que todos se perguntavam. Afinal, se tratava de uma cidade do interior, onde qualquer evento novo era sempre bem vindo.

Muito bem, alguns minutos depois, três funcionários saíram para receber a encomenda. Para espanto dos três, dentro do caminhão cobertas por uma lona preta, embrulhadas em metros e metros de papel bolha, encontraram três estátuas: uma zebra, um elefante e um homem seminu, coberto de folhas de parreira segurando um jarro de vinho em uma das mãos e um cacho de uvas na outra.

Os funcionários se olharam e boquiabertos permaneceram diante do caminhão sem saber o que fazer.

O motorista furioso, de dentro do veículo, começou a empurrar a primeira estátua. Praguejando muito, ele exigia que os três funcionários começassem a se mexer. Vencida a inércia inicial dois deles entraram no caminhão, enquanto o terceiro foi buscar uma prancha que ajudasse na retirada daqueles três “monumentos”.

A primeira a sair foi a zebra. O povo – sim, já havia uma pequena multidão na frente da prefeitura – susteve o fôlego quando viu o animal.

“Uma zebra? E de pedra? O que está acontecendo?” – as pessoas se perguntavam.

Os murmúrios ficaram mais fortes quando o elefante foi colocado na calçada.

“São de verdade?” – uma criança quis saber, olhando assustada para os dois animais.

No entanto, a grande atração, como se fosse um espetáculo circense, estava reservada para o final. A descida, pela rampa improvisada, do homem seminu.

Quem não sabia do que se tratava, estranhou aquele ser meio pelado e aparentemente bêbado.

“Quem é? Algum artista? Quem sabe, alguém da Globo?” – os mais animados arriscavam.

“Não, bando de ignorantes! É o deus do vinho!” – respondeu o professor de história da escola municipal.

“Como assim, ‘deus’!?” – quis saber uma senhora.

O professor, impaciente, pois estava atrasado para a primeira aula, explicou:

“É a divindade que representa o vinho, chamado pelos gregos de Dionísio e pelos romanos de Baco” – e sem mais uma palavra saiu correndo em direção à escola.

Um homem que estava ali desde que o caminhão chegara e era, como se soube depois, funcionário público aposentado, indignou-se e aos berros dizia:

“Pouca vergonha! Deus é um só!”

A essa altura o prefeito e seus secretários já haviam sido informados e nervosos estavam todos na frente do prédio pedindo pressa para colocar as tais estátuas para dentro do pátio. Era preciso descobrir qual a sua origem e, principalmente, quem era o responsável por aquela brincadeira de mau gosto.

Bem, o resto da história você conhece, pois se trata, como disse no inicio, de um fato verídico. O Ministério Público passou a investigar a possibilidade – sim, porque enquanto não forem fornecidas provas é apenas isso, uma possibilidade – de desperdício do dinheiro público. Além disso, descobriu-se que se tratava de uma transação efetuada pelo governo anterior. Uma vergonha e um imenso constrangimento!

Nesse ponto, é impossível não se lembrar de várias histórias ficcionais que de alguma forma guardam relação com o que aconteceu nessa cidade. A zebra, o elefante e o deus se parecem muito com o inseto do conto “Metamorfose” de Kafka ou os mortos-vivos do romance “Incidente em Antares” de Erico Veríssimo. Histórias, aparentemente inverosímeis, com personagens transitando entre o real e o imaginário sem maiores dificuldades. O que aconteceu nessa cidade, no entanto, não é fruto da imaginação de algum escritor. Muito pelo contrário. Uma diferença importante entre a realidade e a fantasia é que os finais de “Metamorfose” e “Incidente em Antares” você pode conferir lendo os livros, enquanto, o desfecho do caso das estátuas será preciso aguardar que a justiça se manifeste. E eu diria mais, aguardar e rezar para que dessa vez a justiça não tarde e nem falhe.

 

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . O CASO DAS ESTÁTUAS. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, , v. 5, p. 3 – 5, 02 maio 2013.

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