Revendo os passos da história da matemática no Brasil

Revendo os passos da história da matemática no Brasil

Jonatha Daniel dos Santos
Rozane Alonso Alves*

Rozane Alonso Alves -Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Educação – GPEA. Email: rozanealonso@gmail.com

Resumo: Este trabalho busca apresentar a história da matemática, revendo-a a partir do período Colonial/Jesuítico ao período Pós Positivismo / Matemática Moderna. Para tanto, optou-se em apropriação bibliográfica que trata do tema em questão, bem como textos que envolvem estes períodos históricos. Observamos que os resvalos correspondentes ao histórico da matemática no Brasil correspondem a diversos contextos existentes na sociedade que de certa forma são ressaltados no processo de construção da Educação Brasileira.

Palavras-Chave: História da Matemática,. Períodos Históricos, Educação Matemática, Processo de Construção da Matemática.

Ponto de Partida

A necessidade de rever a história da matemática, especificamente na construção social do Brasil, se deu pelo desenvolvimento do trabalho cujo objetivo era verificar a redução da carga horária no ensino de matemática no estado de Rondônia. Neste estudo, observou-se a relevância do processo de construção da matemática no país e como sua relação auxiliou na constituição do mesmo.
A princípio, o presente trabalho buscou organizar a história da matemática por meio dos períodos históricos que compõem também a história do Brasil, sendo eles: Período Colonial – Jesuítico; Pós Jesuíta / Positivista e Pós Positivismo / Matemática Moderna.
Deste modo, o histórico sobre a Educação Matemática no Brasil onde se faz uma relação com o ensino da matemática e suas transformações de acordo com cada período histórico e ao mesmo tempo, situa-se com o ensino da matemática atual.
Após a leitura de várias obras acerca da história da matemática no Brasil, pressupõe-se que os resvalos correspondentes ao histórico da matemática no Brasil correspondem a diversos contextos existentes na sociedade que de certa forma são ressaltados no processo de construção da Educação Brasileira. Estes resvalos estão diretamente ligados a momentos relevantes da formação social do Brasil. Autores como Castro (1999), Valente (2004), Silva (2011), entre outros, que trabalham estes preceitos em seus escritos.

Histórico Da Matemática No Brasil

Jonatha Daniel dos Santos
Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação na Amazônia – UNIR
Estudos sobre Etnomatemática – PUC RS

O inicio da história da matemática no Brasil ocorre em meados do século XV, após a chegada dos portugueses comandados por Pedro Álvares Cabral em terras brasileiras. Durante a exploração das terras brasileiras, os portugueses encontraram distintos povos indígenas que tinham culturas próprias. A população indígena não resistiu de forma significativa à chegada dos novos habitantes. Segundo os escritos de Darcy Ribeiro no livro O Povo Brasileiro, onde o autor relata a chegada dos portugueses a costa brasileira. Neste episódio, os índios observavam os portugueses desembarcando e pensavam, será que são deuses ou homens. Iniciando a colonização que segundo Neves (2009, p.167) ocorre na medida em que o contato com os não indígenas vai se intensificando.
Neste processo de colonização, os portugueses “por ocasião de sua chegada ao Brasil não enxergaram nenhum sistema educacional próximo ao deles o que os levou a pensar que não existia educação nas aldeias indígenas” (Ibid., 2009, p.165). Desta forma, evidenciaram a necessidade de adequar as populações indígenas ao domínio do principio da leitura e escrita.
Assim, com a chegada dos jesuítas ao Brasil, foram iniciadas as atividades escolares de ensino elementar com o propósito missionário e de política colonizadora – sendo ensinado apenas a leitura e a escrita nas primeiras escolas missionárias. No desenvolver das atividades de ensino e com a criação do curso de Artes que conduzia o aluno a licenciatura e bacharelado, foram iniciados os primeiros estudos matemáticos, tais como noções de algarismos e aritmética.
Com o decorrer do tempo, em algumas escolas de ensino elementar, iniciaram-se as aulas de matemática com as quatro operações algébricas e aritméticas. Após a expulsão dos jesuítas do Brasil, a educação brasileira passa a ser organizada pelo Estado e consequentemente os professores e professoras passam a ser selecionados por meio de concursos públicos. (SILVA, 2011)
Com a expulsão dos Jesuítas, a educação matemática deu inicio ao um novo período de sua construção histórica. Pode-se caracterizar este período como pós-jesuítico.
Com a invasão de Portugal pelo exército de Napoleão Bonaparte, a família real portuguesa se muda para terras brasileiras em meados do século XVIII. Durante a estadia da família real no Brasil, houve vários momentos relevantes na história, sendo umas delas, a proclamação da Independência Brasileira de Portugal. A chegada da coroa portuguesa trouxe consigo, o ensino superior, até então proibido no período colonial. (SILVA, 2011)
Segundo Castro (1999, pg.23) com a criação da Academia Real Militar, o Brasil teve a primeira Instituição destinada ao curso completo de “Sciencias de Observação, quaes a Physica, Chymica, Mineralogia, Mettallurgia e Historia Natural, que comprehenderá o reino Vegetal e Animal e das Sciencias Militares em toda a sua extensão, tanto de Tactio como de Fortificação e Artilharia”.
Os professores de ensino superior que ministravam suas aulas na Academia Real Militar eram formados na Universidade de Coimbra em Portugal. Mesmo com as mudanças que foram realizadas pelo Marquês de Pombal, o ensino continuava inferior ao ensino europeu. Para Silva (2011, p.9)

[…] a ausência do ensino da Matemática de vanguarda de então, bem como a ausência de pesquisa científica básica atrelada ao ensino das Matemáticas. Percebemos que as cadeiras sobre Matemáticas abordavam o ensino de uma Matemática arcaica […]

Os estudos da História da Matemática no Brasil no período colonial e pós-colonial ressaltam que o governo por sua vez – a cada período, demonstrava desinteresse pela matemática, mesmo sabendo que nessa época já existiam alguns cursos de engenharia no Brasil republicano, mas nada que enfatizasse a importância de se formar um matemático. Não se podem afirmar os motivos desse desinteresse para com a matemática, mas com o advento do tempo, Ibid. (2011, p.9) retoma a discussão evidenciando o decorrer de alguns fatores que poderiam de certa forma, responder questionamentos pertinentes ao descaso histórico que a educação matemática no Brasil percorre na transição de métodos, conteúdos e abordagens no geral

[…] talvez uma resposta seria o fato de ser o Brasil um país periférico, pobre, que fora descoberto e colonizado por um país europeu também pobre, Portugal, de relativa pobreza científica e de certa forma isolado dos países ricos do velho continente[…]

Na época da então Academia Real Militar, a matemática estava começando a vivenciar um novo método de ensino, a matemática positivista de Augusto Comte (1798-1857), que em sua filosofia, aplica às ciências sociais os métodos racionais utilizados na Matemática para extrair as leis que regem o desenvolvimento da sociedade, atribuindo um papel social à ciência.
O ensino positivista pregava a liberdade tendo como base um caráter pedagógico e a preocupação de reorganizar a sociedade através de estudo da ciência positivista, oferecendo de certa forma, o suporte para a ciência especializada ter o seu próprio desenvolvimento. Apesar da grande aderência de renomados professores da época ao positivismo, nem todos especialistas da época estavam de acordo ou se propunham a aderir ao positivismo de Augusto Comte. De acordo com os escritos de Brolezzi e Motta (2011, p.07) “na câmara dos deputados, foram várias as manifestações contra a propaganda positivista”.
Todo esse aparato ressalta que o pensamento positivista, no “ensino das Matemáticas, sofrerá atraso e danos consideráveis, se considerarmos como referencial o desenvolvimento das Matemáticas que ocorria no velho continente”. (SILVA, 2011, p.03)
Com os novos tempos da passagem da civilização agrário-comercial para urbano-industrial, necessitava-se de uma modernização, que segundo Valente (2004, p.62) “seria, então, romper com as estruturas oligárquicas agrárias responsáveis pela manutenção do analfabetismo e a ignorância, e que não construíram um verdadeiro sistema escolar.” Nessa perspectiva de mudanças, movimentos de reformas na educação, iniciam no Brasil República.
Dentre as reformas que houve de acordo com as necessidades de cada período, ressalva-se as Reforma de Campos (1931) e Reforma de Capanema (1942), na época de Getulio Vargas. De acordo com Godoy e Santos (2011, p.06)

Na Reforma de 1931, o ensino secundário passou a ter a duração de 7 anos, divididos em duas partes: a primeira de cinco anos, com a função de formar o cidadão para viver em regime democrático e a segunda com a finalidade de preparar para o ingresso nas escolas superiores. Já na Reforma de 1942, houve um ajuste nas propostas pedagógicas existentes para a formação de intelectuais e trabalhadores.

Vale salientar que o professor de matemática Euclides Roxo teve participação ativa nesse processo. Euclides Roxo em 1928 propôs e foi aceita a unificação das matemáticas em apenas uma, denominada Matemática. (VALENTE, 2004).
Advindo de transformações no currículo de matemática, começa a serem discutidas internacionalmente, maneiras adequadas para efetivar mudanças significativas e eficazes. Através das ideias do professor alemão Felix Klein, que serve como referência, emergiu pensamentos que advém o surgimento do Movimento da Matemática Moderna-MMM. No Brasil, se constata a concepção desse pensamento no inicio do ano de 1960, como afirma Wielewski (2011.p.02) “ao que tudo indica a MMM foi oficializada em alguns estados do Brasil por intermédio de grupos de professores de Matemática que foram constituídos entre as décadas de 1960 e 1980”.
A história da Matemática no Brasil caracterizou o que Burke (1992) descreve como períodos tradicionais compreendidos como político, administrativo. Observa-se deste modo, que os pontos históricos elencados no século XX engendraram movimentos relevantes quando relacionados ao processo de ensino e aprendizagem. Assim, ao rever tais fatos, posteriormente à colonização, a matemática ponderou várias faces da legislação educacional, bem como a criação de vários grupos de estudos e de movimentos que buscaram inovações as práticas docentes de cada época.

Ponto de Chegada
A matemática no Brasil, em especial, a matemática escolar, vem se transformando de acordo com as necessidades da sociedade. Houve-se o tempo que sua importância não era abrangida, como nos tempos atuais, mas por isso, não deixava de ser importante. Suas transformações percorriam as diversas correntes que situavam em distintos tempos.
Nos atuais dias, percebe-se que o ensino de matemática é atrelado as suas práticas políticas e sociais produzidas historicamente. Por isso, é inegável o levantamento do processo histórico para tentar entender certos procedimentos que atualmente agem como discursos de verdade. Tentar entender essas produções de verdades é perceber suas ligações e verificar seus discursos de poder (FOUCAULT, 1979). Mas, também é visualizar através de um olhar, numa perspectiva histórica cultural, suas evoluções e avanços na sociedade, bem como no espaço escolar.

Referências

BURKE, P. A Escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992.

BROLEZZI, Antonio Carlos ; MOTTA, Cristina Dalva Van Berghem. A influência do positivismo na história da educação matemática no brasil. Disponível em http://www.faced.ufu.br/colubhe06/anais /arquivos/426CristinaDalva_AntonioCarlos.pdf. Acessado em Março de 2011.

CASTRO, F.M. de Oliveira. A Matemática no Brasil. Campinas, SP: Editora UNICAMP, 1999.

FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, RJ: Graal, 1979.

NEVES, Josélia Gomes. Cultura escrita em contextos indígenas (Tese de doutorado). UNESP: Araraquara, SP, 2009.

RIBEIRO, D. O Povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SILVA,Clóvis Pereira da. A MATEMÁTICA NO BRASIL : Uma História de seu Desenvolvimento. Disponível em http://www.a ccefyn.org.co/PubliAcad/Clovis/titular/titular.html. Acessado em Janeiro de 2011.

VALENTE, Wagner Rodrigues, et all. Euclides Roxo e o movimento de modernização da matemática escolar. In: VALENTE, Wagner Rodrigues (org). Euclides Roxo e a modernização do ensino da matemática no Brasil.. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.

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