And the winner is…

AND THE WINNER IS…

Margarete Hülsendeger

O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento à sociedade.

Albert Einstein

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Todo o ano a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anuncia os vencedores do Oscar (Academy Awards, no original em inglês) em uma cerimônia/festa transmitida, ao vivo, para quase todo o planeta. A TV cobre desde a chegada dos astros no tapete vermelho até o último sorriso congelado dos perdedores. Para quem gosta é um momento emocionante, pois podemos ver nossos atores e atrizes favoritos recebendo suas merecidas estatuetas folhadas a ouro.

Sem o mesmo glamour da entrega do Oscar, todo o ano, no mês de outubro, são também anunciados os ganhadores dos prêmios Nobel. A divulgação é feita pela Fundação Nobel, sediada em Estocolmo, e os prêmios são entregues em dezembro pelo Rei da Suécia.

Para os que ainda não sabem, esse prêmio foi criado pelo químico e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896), o inventor da dinamite. Segundo a história corrente, Nobel teria ficado tão desgostoso com o uso militar de sua descoberta que, para se redimir – ou, quem sabe, aplacar a ira divina, permitindo-lhe um acesso mais fácil ao paraíso –, teria deixado em testamento 32 milhões de coroas (uma coroa é aproximadamente R$ 0,36) para a criação de uma fundação dedicada a premiar aqueles que, no futuro, servissem ao bem da humanidade.

Assim, como consta no testamento de Nobel, os prêmios seriam entregues àqueles que se destacassem nas áreas de Física, Química, Medicina ou Fisiologia e Literatura. Além destes, não se pode esquecer o Nobel da Paz que, segundo o próprio Nobel, deveria ser concedido “à pessoa que tivesse feito a maior, ou melhor, ação pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção de tratados de paz”.

Desde 1901 essa premiação ocorre e, como não poderia ser diferente, alguns percalços aconteceram ao longo desse tempo. Einstein, por exemplo, não recebeu o Nobel de Física, em 1921, pelo seu trabalho mais famoso e importante, a Teoria da Relatividade. Na época, nem todos os membros da Academia Real das Ciências da Suécia estavam convencidos da validade dos conceitos enunciados pelo físico alemão, em 1905. No entanto, como estavam sob forte pressão de um grupo de cientistas extremamente importante (entre eles Max Planck, Nobel de Física de 1918) decidiram o problema seguindo o caminho mais seguro: concederam-lhe o prêmio por outro fenômeno, bem menos conhecido, chamado efeito fotoelétrico.

Do mesmo modo, o Nobel de Literatura. Muitos de seus críticos alegam que essa categoria está sendo utilizada como “arma política”. Isso pôde ter acontecido com os prêmios concedidos a novelista austríaca Elfried Jelinek (2004) e ao ator, diretor, poeta, roteirista e dramaturgo inglês Harold Pinter (2005), pois ambos, na época, eram críticos ferozes do governo Bush. E o que dizer do Nobel da Paz de 2009, dado ao atual presidente americano Barack Obama? Comentários maldosos dão conta que nem mesmo ele teria entendido o porquê de ter sido agraciado por essa honraria.

Enfim, o fato é que, apesar das críticas, muitos homens e mulheres comprometidos com seus trabalhos têm recebido esse prêmio por suas contribuições em prol da humanidade.

Em 2013, por exemplo, o Prêmio Nobel de Física saiu para dois homens que, há 49 anos, predisseram a existência de uma partícula que descreveria a composição, em nível subatômico, do mundo que nos cerca. Esses senhores, ambos na casa dos 80 anos, são o belga François Englert e o britâncio Peter Higgs. Se ele não tivesse falecido em 2011, haveria outro laureado, o também belga Robert Brout. Os mais desconfiados podem estar se perguntando por que esses dois velhinhos demoraram tanto tempo – quase 50 anos – para receber um prêmio tão importante? A razão é simples: o Nobel não segue as mesmas regras que o Oscar.

Para que um cientista – ou grupo de cientistas (no máximo três) – receba o Nobel é preciso muito mais do que uma ideia brilhante. Ao contrário do que ocorre no Oscar, quando uma atuação (uma só!) pode garantir a estatueta, o Nobel somente é concedido quando o trabalho do candidato, ou candidatos, é analisado profunda e detalhadamente por um período de tempo considerável. No caso dos prêmios científicos existe ainda a necessidade de a descoberta ter sido comprovada experimentalmente.

Em 1964, Higgs, Englert e Brout teorizaram a existência dessa partícula afirmando, inclusive, que ela seria “a mãe” de todas as outras partículas. O problema é que, em 64, não havia tecnologia para detectá-la. Foi preciso construir um super acelerador (LHC), com 27 km de circunferência, situado a 175 m abaixo do nível do solo, para que a sua existência pudesse ser comprovada.

No entanto, para tristeza dos inúmeros cientistas envolvidos, esse experimento crucial teve de ser adiado algumas vezes. Em setembro de 2008, o acelerador foi posto em funcionamento, mas nove dias depois teve de ser desligado por conta de um grave vazamento, sendo religado somente em novembro de 2009. Assim, os cientistas do CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), local onde se encontra esse grande acelerador, só conseguiram comemorar a detecção da “partícula de Deus” – os físicos preferem chamá-la de “bóson de Higgs” – em julho de 2012. Essa descoberta, enfim, comprovou efetivamente a previsão realizada em 1964.

Para aqueles que não entendem os objetivos da ciência, pode parecer um trabalho tolo e dispendioso diante das necessidades mais urgentes (fome, doenças, guerras) enfrentadas atualmente pela humanidade. Contudo, é preciso compreender que muitas pesquisas que, no início pareceram tolas e sem nenhuma aplicação prática, acabaram resultando em ganhos surpreendentes para a sociedade. A própria Teoria da Relatividade – desprezada pelo Nobel – é a base do funcionamento dos chamados Sistema de Posicionamento Global (GPS), com aplicações diversas na aviação geral e comercial e na navegação marítima.

De qualquer modo, não importa se é o Oscar ou o Nobel, essas são premiações que visam a honrar homens e mulheres que, de alguma forma, se destacaram em suas respectivas áreas. É óbvio que, em ambos os casos, o juízo de valor daqueles que decidem estará presente, o que poderá resultar em algum descontentamento. A nós, pobres mortais, sem direito a voto, cabe apenas torcer, acreditando que os membros das duas ilustres academias terão juízo suficiente para escolher os melhores. Escolhas que só saberemos quando os envelopes forem abertos e as palavras mágicas pronunciadas: And the winner is…

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . AND THE WINNER IS. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, 08 nov. 2016

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