Como partimos de Dr. Kildare e chegamos a … House?

Como partimos de Dr. Kildare e chegamos a … House?

 Por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Todo médico de minha geração lembra-se do Dr. Kildare, que inspirou tantos entre nós.

Admirado, amado mesmo, este jovem médico (ainda estudante) era apresentado como uma pessoa útil, atenciosa, dedicada, compreensiva, que escutava e consolava seus pacientes. Nos seus relacionamentos profissionais, havia um forte elo emocional. Humano, não se esperava dele que fosse infalível

Neste, que é o primeiro seriado médico que assisti, já percebemos um certo tecnicismo, pois o supervisor de Kildare o adverte: ‘Nosso trabalho é manter as pessoas vivas, não dizer a elas como viver.’

Comentário cínico, cujo objetivo era garantir um distanciamento emocional que não perturbasse o raciocínio médico, que, no caso, era quase salutar, por impedir que o profissional sofresse com um relacionamento mais íntimo com seu paciente, já que, inevitavelmente alguns pacientes morrem, e alguns, morrem jovens. E, inspirados pelo jovem Dr. Kildare, este era um mandamento que todo aspirante a médico ansiava por transgredir.

Já o atual seriado House nos apresenta um médico brilhante, lógico, técnico, odiado por alguns de sua própria equipe, meramente tolerado pelos pacientes, e do qual se esperam, apenas, resultados.

Ambos são inteligentes e dedicados: um aconselha, importa-se que o paciente viva bem, e mesmo que morra bem – que sua vida tenha sida uma boa vida; o outro não se importa, sua meta é que o paciente sobreviva – seu paciente é quase um troféu, seu triunfo na arte de diagnosticar.

House expressa-se da seguinte maneira: “Me importar para que? Pergunte ao paciente se ele prefere um médico que se importa enquanto ele morre ou um médico que o ignora enquanto ele é curado?” A visão de mundo que o doutor House criticou nesta frase é profunda. House não criticou apenas o altruísmo em si; ele demoliu nesta frase o conceito de ética médica, o humano respeito ao próximo. Sacrifica-se o espiritual em nome de uma eficácia questionável.

Proponho-me a comparar os valores existentes nestas duas séries:

Em Dr. Kildare:

1 – Há um valor de vida – que se faça a diferença, que se seja feliz e útil.

2 – Há um valor de morte – que se retorne ao sagrado, ao misterioso.

3 – Há um valor de paciente – que se aprenda e se evolua com a doença.

4 – Há um valor de médico – que se importe com o ser humano, que sinta emoções, que seja competente e bom.

 

 

Em House:

1 – A vida é uma miséria, todos mentem, todos sofrem.

2 – A morte é o fim, e toda crença religiosa é ilógica, já que não se pode provar – a supervalorização da ciência, vista como técnica.

3 – O paciente é um ser humano tolo, na melhor das hipóteses, ou indigno, na pior, e exige resultados da medicina, quer ser curado e salvo a qualquer preço.

4 – Do médico exige-se a cura – que faça o serviço pelo qual está sendo pago, e que obtenha os melhores resultados. Ser bom é inútil. Descartou-se a espiritualidade.

 

Para tentar entender melhor como chegamos a este lamentável estado de coisas – ou alguém acha que a atual situação da saúde no mundo não seja lamentável? –  temos de ir além do médico, temos de penetrar nos paradigmas de nossa sociedade capitalista.

Os pacientes de Dr. Kildare eram pessoas sofredoras, sensíveis, centradas em suas famílias, amigos, e objetivos baseados em mérito pessoal e trabalho duro: a professora desejava ensinar, o vendedor vender, os jovens, concluírem um curso.

Os pacientes de House são, em sua maioria, insensíveis como ele, amantes da tecnologia, consumistas, consomem o produto saúde como consumiriam qualquer outra coisa, e são focados no sucesso monetário: o atleta olímpico que quer o ouro, o artista que quer o Oscar, o empresário que quer comprar a rede concorrente, todos querem ser o primeiro, não basta concorrer, nem ganhar, trata-se de ganhar em primeiro lugar. Erros são descartados – o filho que foi reprovado de ano, a atleta que não se classificou, o marido desempregado, a mulher feia, esqueça, são todos ridículos e indesejáveis perdedores. E qualquer paciente que se apresente amoroso e idealista é logo dissecado para que revele suas ambiguidades e contradições, apresentadas como mentiras e fraquezas inadmissíveis.

No último século, assistimos a certas mudanças na sociedade capitalista.

Antes, aceitava-se a morte como um fato natural; admitia-se que as pessoas deviam estar preparadas para morrer, bem como para viver; os médicos eram vistos como seres humanos esforçados e empenhados em fazer o melhor possível, dentro de possibilidades razoáveis.

Agora, quer-se evitar o confronto com a morte, retardar o desfecho da vida a qualquer preço, mesmo a custo de uma vida de qualidade ruim.

Os médicos entram nesta visão capitalista como geradores do produto saúde, portanto não são vistos como seres humanos, mas como um mal necessário, já que as máquinas não funcionam sozinhas; deles se exige perfeição técnica e nenhuma ética; paga-se a eles o menor honorário possível e são trocados da equipe assim que algum cérebro mais brilhante surja. Espera-se que sejam infalíveis, e, a par disto, critica-se esses mesmos médicos por serem arrogantes e diz-se deles que sofrem de ‘complexo de Deus’.

A minha geração médica, que anda ao redor dos sessenta anos, ressente-se do reconhecimento não recebido; já a geração atual, bem, sejamos honestos, toda a categoria é atualmente vista pela população como House, um médico que desdenha tudo, desde o sistema até o doente, que ficou reduzido a uma ficha clínica.

Afirma Gurdjieff que estamos a viver os últimos dias desta era técnica. O planeta nos destruirá se não mudarmos. O clima já mudou, e anuncia ao homem que ele, homem, não é o senhor do planeta, que a humanidade é tão descartável na escala cósmica como os dinossauros.

Chega o tempo de voltarmos a ser humildes. De enterrarmos House e buscarmos o Dr. Kildare, pois, desde os tempos de Esculápio, o que a humanidade deseja é, antes de tudo, compartilhar a vida e ser consolada, pois curar, é possível  às vezes, e consolar, é possível, sempre.

Sonia Regina Rocha Rodrigues
Santos/SP
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