Minha formação escolar ocorreu basicamente em escolas públicas do Estado de São Paulo, do então Primário ao Colégio Técnico. Também comecei a trabalhar cedo, aos 15 anos, como extensão do curso de Edificações que fazia. Era emprego e não estágio!

Eu mesmo identificava as deficiências dos professores, pelo conteúdo previsto para a disciplina, vis a vis das dificuldades ou facilidades que sua atuação docente proporcionava.

Sempre gostei de professores instigadores, interessados e atentos, ao contrário dos “gente boa” ou “terroristas”. Estes últimos faziam mais “tipo” do que efetivamente ensinavam, fazendo suas práticas barreiras ao desenvolvimento intelectual dos alunos.

Nessa época, havia professores altamente qualificados e bem remunerados, atuando em escolas públicas diferenciadas, melhor equipadas. Para estar nelas, tanto alunos como docentes passavam por processos seletivos. Mesmo assim, havia os que faltavam regularmente, por atuarem em outras atividades docentes, geralmente escolas particulares, algumas de sua propriedade.

Chegamos a ficar várias semanas sem um deles, sem substituto. Quando enfim ele apareceu, não foi para lecionar Ciências, matéria que eu particularmente adorava, mas para vender um curso de inglês.

O Curso Técnico, equivalente ao atual Ensino Médio, era no período noturno, para conciliar com o trabalho.

A carga horária de disciplinas convencionais era menor. Não tive aulas de Química, por exemplo. E mesmo a Física já era aplicada ao curso, basicamente Estática.

Na França, por exemplo, um curso técnico não daria acesso à Universidade, o que não era o caso no Brasil.

Assim, aprovado no vestibular para o curso de Engenharia Civil, precisei me virar para aprender o que os professores afirmavam ser de “conhecimento prévio”. Ciente de minha deficiência de formação pregressa, apenas pedi aos professores que indicassem o que eu deveria estudar. Tive êxito, graças à biblioteca, num tempo em que não havia internet.

Foi nessa época que implantaram a “progressão continuada” no Ensino Fundamental.

Muito tempo depois, tornei-me docente de cursos de Engenharia e Arquitetura, e passei a receber os egressos desse modelo.

A maioria não tinha a menor noção de aplicação prática do que havia estudado nos estágios pregressos. Muitos sequer sabiam fazer operações básicas, ou escrever textos minimamente compreensíveis. Pontuações e unidades eram uma ausência constante.

Alguns alunos dos semestres iniciais tinham olhares aterrorizados. Eu também ficava horrorizado, só que com as falhas de formação básica que eles denotavam, algumas beirando ao total absurdo. Já havia celulares, agora “proibidos”, que se somaram às conversas paralelas de fundo de classe, em turmas muito grandes e já sem uma postura adequada em classe, também fruto de outras falhas de educação.

Lembrei-me da frase: “O estudo deve ser ativo e solitário, já a aula é coletiva e predominantemente passiva”.

De fato, a aprendizagem só é efetiva quando a aula é seguida de estudo. Porém, os estudantes parecem que vêm sendo desestimulados a estudar, pela “cultura” da progressão continuada, pelo medo de escolas públicas e privadas perderem alunos, por razões políticas ou de sobrevivência financeira, respectivamente; e pela submissão das novas gerações às facilidades proporcionadas pela internet, disponíveis nos aparelhos celulares.

Encontrar alunos interessados em estudar me fez permanecer na sala durante intervalos, chegar mais cedo e sair mais tarde, atendê-los presencialmente ou remotamente, inclusive fora de horário de aula, orientar Trabalhos de Conclusão de Curso…

No entanto, depois de algum tempo, e com a idade, essas deficiências de formação e o contexto atual começaram a me provocar desgaste físico e, até, emocional.

O exercício continuado de “resgate” coletivo de alunos com 12 anos de formação deficiente pode fazer mal à saúde de docentes. A falta de educação no âmbito familiar e algumas disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente também.

Ao que consta, esse cenário persiste, demonstrado pelos resultados de exames nacionais e internacionais.

Para piorar, algumas propostas de inclusão, apesar das boas intenções, tiveram efeito negativo. Solidariedade e empatia são importantes, mas não dispensam tratamento especializado. O excesso de atenção para uns pode desestimular os outros. Reconheço que a questão é complexa. Por isso mesmo, não pode ser tratada de forma simplista, utópica.

O potencial de aprendizagem de crianças é inegável e precisa ser estimulado, assim como o mérito. O bom desempenho deve ser motivado, e não desmotivado, com a desculpa de não “humilhar” quem não se esforça. Os alunos devem aprender a respeitar e buscar o mérito e o conhecimento, em vez de ter sua formação fundamentada em teóricos inconsequentes – ou mal-intencionados – idolatrados por promoverem a mediocridade controlável, o conformismo engajado, e preconceitos tão nefastos quanto os que alegam combater.

Qualquer sociedade tem acertos e falhas que devem ser corrigidos com evolução consciente, e não com radicalismos ideológicos.

Avaliar desestimula a permanência na escola? O ensino precisa ser contextualizado?

Francamente, é melhor que haja escolas diferenciadas, para não desperdiçar o potencial de quem quer estudar, em vez de reduzir o nível, com a justificativa de que estar numa sala de aula proporcionará aprendizagem por osmose.

Em certos casos, há alguns que não estão na escola para aprender, mas por motivos tão ou mais desastrosos do que uma escola onde não se aprende.

Conheço pessoas que foram reprovadas em uma disciplina e se sentiram motivadas a se tornarem referência nessa área. Foi um “choque de realidade”, que motivou autorreflexão, vontade e força para reagir, superar. Assim, reprovação também pode ser um incentivo, quando aplicada no âmbito da formação, desde que seja motivada exclusivamente no âmbito do conteúdo, e com o devido aconselhamento. Jamais deverá ocorrer como punição pelo aluno discordar das crenças pessoais do docente, aplicadas indevidamente na disciplina que leciona.

Antes, havia oportunidades: exames, recuperação, “segunda época”, junta de professores… Formar sem avaliar eliminou todo esse processo de tentativa de resgate.

Minha motivação também era entrar em férias mais cedo! Além disso, meus pais, que não tiveram muita educação, sempre me exortavam a estudar como forma de melhorar de vida. Nunca me exortaram ao comodismo ou resignação!

Felizmente, há os que aprendem a aprender, superando todas essas deficiências e limitações. Em algum momento, eles serão motivados a isso.

Reconheço as limitações de minha formação. Tento superá-las até hoje!

Porém, também há os que se acomodam com esse “pouco”, mas vão em busca de facilidades por toda a vida, às vezes por caminhos tortuosos. Esses exigirão dos outros o que não têm conhecimento ou competência para fazer, e bradarão por direitos isentos de deveres, cultivando e defendendo a mediocridade como forma de assegurarem seu “mercado de trabalho”.

Isso leva a algumas perguntas cruciais: O que os alunos estão aprendendo durante a infância e adolescência? O que docentes estão ensinando, e em que condições? Como estes docentes estão sendo formados? O que os motivou a buscarem essa profissão?

Talvez a avaliação deva ser ainda mais ampla, para tentar melhor entender como superar os problemas existentes, que têm prejudicado o desenvolvimento social e econômico do País.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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