O TRIBUNAL INVISÍVEL
A geração mais tecnologicamente equipada da história humana é aquela mais assombrada por sentimentos de insegurança e desamparo.
— Zygmunt Bauman

Margarete Hülsendeger
Nos últimos anos, a chamada “cultura do cancelamento” tornou-se um fenômeno central no debate público. O termo surgiu nas redes sociais por volta de 2015 e ganhou força nos anos seguintes, especialmente no Twitter e no Instagram. A ideia inicial era simples: deixar de apoiar publicamente uma pessoa ou instituição que tivesse cometido um erro grave.
O conceito, que começou como uma forma de responsabilização, logo se expandiu para além de casos evidentes de conduta imprópria, tornando-se uma ferramenta de punição social instantânea. Segundo o professor e pesquisador Thiago Soares, da Universidade Federal de Pernambuco, o cancelamento pode ser entendido como um processo intenso de julgamento moral, no qual os indivíduos se articulam em rede para condenar publicamente alguém que consideram ter agido de forma errada.
Esse tribunal invisível não tem juízes oficiais, nem direito de defesa. O processo acontece em segundos: tudo começa com a descoberta de uma fala, atitude ou postagem considerada ofensiva. Pode ser uma opinião controversa, uma piada de mau gosto ou até um comentário feito anos atrás. Alguém expõe esse conteúdo nas redes, geralmente com uma legenda indignada. Em questão de minutos, a postagem viraliza. Multiplicam-se as mensagens exigindo retratação, empresas parceiras são pressionadas a romper vínculos e a pessoa envolvida se torna alvo de ataques e ameaças. O julgamento acontece em tempo real, e a sentença – a exclusão social – é decretada sem possibilidade de recurso.
Os exemplos são frequentes. Em 2021, a escritora J.K. Rowling foi cancelada por declarações interpretadas como transfóbicas. Em 2022, o ator Will Smith, após agredir Chris Rock no Oscar, foi alvo de uma avalanche de críticas e perdeu contratos. Em 2023, uma influenciadora brasileira foi boicotada por ter feito um comentário visto como elitista sobre o preço dos alimentos. Em todos esses casos, observou-se uma reação intensa e, muitas vezes, desproporcional, na qual a condenação pública ultrapassou a crítica razoável e assumiu contornos de linchamento virtual.
O problema central não é a crítica em si – que faz parte de qualquer sociedade democrática –, mas a forma como ela ocorre nas redes sociais. O ambiente digital amplifica a indignação de maneira instantânea, sem qualquer processo de ponderação. Perfis anônimos multiplicam os ataques, empresas preferem se distanciar rapidamente para evitar crises, e a pessoa cancelada, mesmo que tente se explicar ou se desculpar, raramente tem sua versão dos fatos considerada.
Mas esse fenômeno não afeta apenas celebridades. Entre adolescentes, a cultura do cancelamento tem se manifestado de forma cruel, especialmente dentro das escolas e nas redes sociais. Jovens que cometem erros — às vezes simples mal-entendidos ou opiniões imaturas — são expostos publicamente e se tornam alvo de bullying digital. Um vídeo fora de contexto, um boato espalhado rapidamente, uma opinião mal colocada em um grupo de mensagens — tudo pode levar um estudante ao isolamento social e à humilhação pública.

Casos reais confirmam o impacto devastador desse comportamento. Em diversos países, adolescentes sofreram crises de ansiedade e depressão após serem cancelados online. Em 2020, um estudante norte-americano perdeu a vaga em uma universidade após um vídeo antigo seu ser divulgado e interpretado como ofensivo. No Brasil, há relatos de jovens que abandonaram a escola após serem expostos e ridicularizados em redes sociais. Diferente dos adultos, que podem se afastar temporariamente da internet, os adolescentes não têm essa opção — sua vida social gira em torno do ambiente digital, tornando o cancelamento ainda mais severo. Como consequência, o erro, que deveria ser parte do crescimento, passa a ser algo imperdoável.
Para Thiago Soares, embora o cancelamento compartilhe alguns aspectos do bullying, ele possui uma diferença fundamental: “O bullying é um gesto depreciativo que aponta uma certa fragilidade de uma pessoa. Se faz bullying porque a pessoa é gorda, negra, gay…” Já a cultura do cancelamento, segundo ele, não se concentra nas características físicas, mas em julgamentos morais. Funciona como uma convocação pública para condenar alguém com base em uma atitude ou opinião específica, transformando essa condenação em algo definitivo, sem espaço para o arrependimento ou mudança.
O perigo desse tribunal invisível está justamente na rigidez moral com que opera. Reduzir uma pessoa a um único erro ignora sua trajetória e sua capacidade de aprendizado. Em um mundo onde todos estão sob vigilância constante, a margem para o arrependimento e a transformação diminui, e o medo de ser condenado publicamente sufoca o debate e a liberdade de expressão. Como afirma Soares, “A gente está tirando a dinâmica da vida. O sujeito é complexo. Ninguém é bom ou mau o tempo inteiro.”
Se a sociedade realmente deseja evoluir, é preciso abandonar a lógica do tribunal invisível e recuperar a capacidade de compreender que as pessoas são falíveis, mas também capazes de mudar. Uma cultura que não permite erros não incentiva o aprendizado — apenas promove medo, silenciamento e exclusão. O verdadeiro progresso social não está em eliminar aqueles que erram, mas em construir caminhos para que possam se transformar. Afinal, uma sociedade justa não se mede pela severidade com que pune, mas pela generosidade com que permite a transformação.






