SACRALIZAÇÃO DO ESPAÇO E PRÁTICAS DEVOCIONAIS: A GRUTA DO MONGE JOÃO MARIA EM PORTO UNIÃO-SC

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SACRALIZAÇÃO DO ESPAÇO E PRÁTICAS DEVOCIONAIS: A GRUTA DO MONGE JOÃO MARIA EM PORTO UNIÃO-SC

SACRALIZACIÓN DEL ESPACIO Y PRÁCTICAS DEVOCIONALES: LA GRUTA DEL MONJE JOÃO MARIA EN PORTO UNIÃO-SC

Zaqueu Luiz Bobato[*]

Katiane de Fátima Schincoviaki Cordeiro[**]

RESUMO: Este artigo tem por objetivo analisar a sacralização do espaço associado ao Monge João Maria, com ênfase na Gruta localizada no município de Porto União, Santa Catarina, reconhecida como espaço sagrado pela população local. A pesquisa fundamenta-se nas contribuições teóricas de Zeny Rosendahl e Sylvio Fausto Gil Filho, que compreendem o espaço sagrado como resultado da vivência simbólica e da prática religiosa. Através da observação da Gruta e da análise das manifestações devocionais que ali ocorrem, como acendimento de velas, orações e rituais de agradecimento, evidencia-se a ressignificação cultural do lugar por meio da fé popular. O estudo insere-se no campo da Geografia Cultural e da Geografia da Religião, destacando a importância dos elementos simbólicos e da experiência religiosa na produção e manutenção dos espaços sagrados.

PALAVRAS-CHAVE: Espaço Sagrado; Práticas Devocionais; Monge João Maria; Religiosidade Popular.

RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo analizar la sacralización del espacio asociado al Monje João Maria, con énfasis en la gruta ubicada en el municipio de Porto União, Santa Catarina, reconocida como espacio sagrado por la población local. La investigación se fundamenta en los aportes teóricos de Zeny Rosendahl y Sylvio Fausto Gil Filho, quienes comprenden el espacio sagrado como resultado de la vivencia simbólica y de la práctica religiosa. A través de la observación de la gruta y del análisis de las manifestaciones devocionales que allí ocurren —como el encendido de velas, oraciones y rituales de agradecimiento—, se evidencia la resignificación cultural del lugar mediante la fe popular. El estudio se inscribe en el campo de la Geografía Cultural y de la Geografía de la Religión, destacando la importancia de los elementos simbólicos y de la experiencia religiosa en la producción y el mantenimiento de los espacios sagrados.

PALABRAS CLAVE: Espacio Sagrado; Prácticas Devocionales; Monje João Maria; Religiosidad Popular.

INTRODUÇÃO

Entre os anos de 1912 e 1916, a região do Contestado, situada entre os estados de Santa Catarina e Paraná, foi palco de um dos conflitos mais emblemáticos da história social brasileira: a Guerra do Contestado. Esse episódio resultou de um confronto entre camponeses — em sua maioria caboclos — e as forças do Estado, apoiadas por interesses privados, como a empresa norte-americana Brazil Railway Company, responsável pela construção da ferrovia entre São Paulo e Rio Grande do Sul. A concessão indiscriminada de terras à empresa desconsiderou a presença de comunidades tradicionais, resultando em deslocamentos forçados, mortes e processos de resistência popular (BOBATO, 2016).

É nesse contexto histórico que surgem figuras religiosas conhecidas como os monges do Contestado, entre os quais destacam-se João Maria de Agostini, João Maria de Jesus e José Maria. Considerados líderes espirituais e carismáticos, esses personagens mobilizaram a fé popular como forma de resistência social e cultural frente às injustiças vividas pelas populações locais. Com o passar do tempo, esses monges se tornaram elementos centrais de uma religiosidade popular que permanece viva na memória e nas práticas simbólicas da região (BOBATO, 2016).

O presente artigo tem por objetivo investigar a sacralização do espaço associado ao Monge João Maria, com ênfase na Gruta situada no município de Porto União, Santa Catarina. Com base nos aportes teóricos da Geografia Cultural e da Geografia da Religião, especialmente nas contribuições de Rosendahl (2009) e Gil Filho (2001), busca-se compreender como o espaço da gruta é ressignificado por meio das práticas devocionais da comunidade local.

A investigação adota uma perspectiva qualitativa, centrada na análise interpretativa de uma imagem fotográfica da Gruta do Monge, compreendida como documento geográfico que expressa os elementos simbólicos do espaço. A fotografia, enquanto representação sensível da paisagem cultural, permite observar marcas materiais e imateriais da religiosidade popular, constituindo-se como ferramenta metodológica relevante para a compreensão da produção e da vivência do espaço sagrado.

A Gruta como Espaço Sagrado: Práticas Devocionais e Simbolismo Religioso

A religiosidade popular expressa nas paisagens do Contestado está diretamente vinculada à figura do Monge João Maria, cuja presença histórica e mítica influenciou a formação de espaços sagrados em diferentes localidades do sul do Brasil (BOBATO, 2016). Dentre esses, destaca-se a Gruta do Monge João Maria, localizada na área urbana de Porto União-SC, reconhecida pelos moradores como um espaço de devoção, oração e expressão simbólica da fé. Tal reconhecimento popular está vinculado a narrativas que atribuem ao monge o poder de abençoar locais, especialmente os que guardam olhos d’água e outros elementos naturais.

Conforme destaca Rosendahl (2009, p. 1), “podemos definir o espaço sagrado como um campo de forças e de valores que eleva o homem religioso acima de si mesmo, que o transporta para um meio distinto daquele no qual transcorre sua existência”. A autora ainda ressalta que, no discurso religioso, o poder do sagrado representa uma força compulsiva e imprevisível, sendo vivenciado com sentimentos de dependência, respeito e confiança. A partir dessa perspectiva, é possível compreender que o espaço da gruta ultrapassa sua materialidade física e se configura como locus de experiências espirituais intensas, carregado de significados coletivos.

Imagem 1:  Gruta do monge Porto União-SC.

Fonte: SCHINCOVAIKI CORDEIRO, Katiane de Fatima (2018).

A observação qualitativa da imagem fotográfica da Gruta do Monge — utilizada como instrumento metodológico neste estudo — evidencia elementos materiais que reforçam sua sacralidade. Na fotografia, notam-se velas acesas, imagens de santos da tradição católica e objetos de devoção popular que indicam a constante presença de fiéis. Esses elementos tornam visível a apropriação simbólica do espaço, onde rituais cotidianos, como pedidos e agradecimentos, são realizados com base na crença no poder milagroso do monge.

Segundo Rosendahl (2009, p. 1), “o sagrado é perceptível na organização do espaço, não somente pelos impactos desencadeados pelos devotos no lugar, mas, também, pela forma essencialmente integrada entre religião e tempo”. Assim, o espaço sagrado se manifesta como resultado de uma construção histórica, em que a religião imprime marcas visíveis e simbólicas na paisagem. Elementos como cruzes, imagens, pequenos altares e a própria prática ritualística reiteram esse processo contínuo de sacralização.

Gil Filho (2001, p. 76) contribui com uma abordagem relacional da Geografia do Sagrado ao afirmar que “a Geografia do Sagrado não é a consideração pura e simples das espacialidades dos objetos e fenômenos sagrados e, por conseguinte, do seu aspecto funcional e locacional; mas sim, sua matiz relacional”. Dessa forma, o espaço sagrado é compreendido não apenas como um local físico, mas como resultado das experiências dos fiéis em torno do sagrado, das práticas devocionais e das representações religiosas que o constituem.

Ao considerar essa rede de significados e práticas, entende-se que a Gruta do Monge João Maria é consagrada pela ação simbólica dos sujeitos. É a vivência da fé e a crença nas bênçãos do monge que transformam a gruta em um espaço sagrado. Como destaca Claval (1999, p. 37), “a religião interessa ao geógrafo porque organiza a casa em torno de um altar doméstico, influi na implantação do habitat e se distingue pelos lugares de culto […] e pela repetição do mesmo símbolo — a cruz no mundo cristão — nos limites do campo ou ao longo das estradas”. Tais marcas são perceptíveis também na paisagem de Porto União, onde a presença de símbolos cristãos reitera o caráter religioso do espaço urbano.

Em síntese, a sacralização da Gruta do Monge João Maria é fruto de um processo sociocultural que envolve memória, fé, prática religiosa e apropriação simbólica do território. A fotografia analisada revela a permanência dessas expressões no cotidiano da comunidade, confirmando que o espaço sagrado é, sobretudo, uma construção coletiva enraizada na geografia da fé.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As duas perspectivas teóricas, tanto a de Rosendahl (2009) quanto a de Gil Filho (2001), revelam-se fundamentais para a análise do espaço da Gruta de João Maria em Porto União-SC. A partir da teoria de Rosendahl, compreende-se a gruta como um espaço sagrado constituído pela fé, pelas práticas e pelas manifestações simbólicas dos devotos. A presença de imagens, velas acesas e elementos religiosos evidencia o reconhecimento coletivo da sacralidade do lugar, reforçando seu papel como centro de irradiação religiosa no cotidiano da população.

Por outro lado, a leitura proposta por Gil Filho (2001) permite interpretar esse espaço para além da materialidade física, considerando-o como parte de uma rede relacional que se constrói a partir da experiência vivida do sagrado. A Geografia do Sagrado, nesse sentido, ultrapassa a análise locacional ou funcional do espaço para se concentrar na dinâmica simbólica e afetiva que o constitui como tal.

Mesmo havendo várias imagens e referências ao Monge João Maria espalhadas pelo município, observa-se que apenas em determinados locais — onde, segundo a crença popular, o monge teria abençoado ou pernoitado — se concentram expressões mais intensas de religiosidade. É nesses lugares que a fé se manifesta com maior força, transformando-os em pontos de oração, devoção e pedidos de bênçãos. A crença no poder do monge e a devoção de seus fiéis conferem à gruta uma dimensão sagrada que ultrapassa sua materialidade, tornando-a parte essencial da paisagem simbólica e da religiosidade local.

Conclui-se, portanto, que o espaço sagrado da gruta é produto da interação entre a fé popular e a memória coletiva dos moradores, sendo ressignificado constantemente pelas práticas devocionais que nele se realizam. A partir das contribuições de Claval (1999), entende-se que a religião influencia diretamente a organização espacial e a paisagem, seja por meio da implantação de elementos simbólicos, como cruzes e imagens, seja pela repetição de práticas que mantêm vivos os sentidos religiosos atribuídos ao território.

A Gruta do Monge João Maria, nesse contexto, não representa apenas uma expressão da fé católica popular, mas também um elo entre história, identidade e resistência cultural na região do Contestado. Sua sacralização revela o quanto o espaço geográfico pode ser impregnado de significados simbólicos e espirituais que ainda hoje moldam o modo de vida e a percepção do território por parte das comunidades locais.

REFERÊNCIAS

BOBATO, Zaqueu Luiz. Desenvolvimento econômico e social no território de Calmon, SC: os reflexos de um contexto histórico-geográfico de formação conflituosa. In: FRAGA, Nilson Cesar (org.). Contestado: cidades, reflexos e coisificações geográficas. Florianópolis: Editora Insular, 2016. p. 515-536.

CLAVAL, Paul. O tema da religião nos estudos geográficos. Espaço e Cultura, Rio de Janeiro, n. 7, p. 35-43, 1999.

GIL FILHO, Sylvio Fausto. Por uma geografia do sagrado. Raega – O Espaço Geográfico em Análise, Curitiba, v. 5, p. 71-84, dez. 2001. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/raega/article/view/18316/11880>. Acesso em: 20 jan. 2025.

ROSENDAHL, Zeny. Espaço, simbolismo e religião: resenha do simpósio temático. Revista Brasileira de História das Religiões, Maringá, v. 1, n. 3, p. 1-6, 2009. Anais do II Encontro Nacional do GT História das Religiões e das Religiosidades. Disponível em: <http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/rbhr/espaco_simbolismo_e_religiao.pdf>. Acesso em: 24 jan. 2025.

Como citar este artigo:

BOBATO, Zaqueu Luiz; SCHINCOVIAKI CORDEIRO, Katiane de Fátima. SACRALIZAÇÃO DO ESPAÇO E PRÁTICAS DEVOCIONAIS: A GRUTA DO MONGE JOÃO MARIA EM PORTO UNIÃO-SC. Revista Partes [online], São Paulo, DATA MÊS. ANO. Disponível em:<LINK DA PUBLICAÇÃO>. Acesso em: DATA MÊS. ANO.


[*] Professor Formador no curso de Geografia Licenciatura UAB da Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG. Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Paraná-UFPR. Mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG. Graduado em Geografia Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) campus Irati-PR. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-0961-3137  E-mail: zaqueudegeo@gmail.com

[**] Graduada em Geografia Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) campus Irati-PR. E-mail: katianes5@hotmail.com

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