A ESCRITA DA PERDA

A ESCRITA DA PERDA

Certas memórias não cicatrizam. Em vez de obscurecerem com o passar do tempo, como outras, essas, pelo contrário, permanecem, fazendo apenas as outras memórias se desgastarem lentamente. O mundo escurece como se as lâmpadas se apagassem uma a uma.

Han Kang

Por Margarete Hülsendeger

Em maio de 1980, na cidade de Gwangju, ao sul da Coreia do Sul, civis — principalmente estudantes — iniciaram uma série de protestos contra a ditadura militar instaurada no país. A resposta do regime foi brutal: tropas armadas invadiram a cidade e reprimiram violentamente a população, resultando na morte de milhares de pessoas. Durante décadas, o massacre foi silenciado por mecanismos de censura, medo e omissão institucional. Somente anos depois, já na década de 1990, alguns dos responsáveis foram julgados e condenados, mas muitos crimes permaneceram impunes, mantendo viva a ferida na memória coletiva.

É sobre essa ferida aberta que Han Kang constrói o romance Atos humanos[1], publicado em 2014. A obra, profundamente comprometida com a memória e a dignidade dos que foram calados, reconstrói o trauma coletivo por meio de uma narrativa fragmentada e polifônica. Diferentes vozes — de vítimas, sobreviventes e testemunhas — ressoam como uma tentativa de compreender a violência e resistir ao esquecimento. Com delicadeza ética e intensidade poética, Han Kang transforma a repressão política em literatura de memória, convidando o leitor a uma escuta atenta dos horrores muitas vezes negados pela história oficial.

A narrativa se organiza em capítulos autônomos, ligados por um fio invisível: a história de Dong-ho, um adolescente de quinze anos que, ao tentar ajudar na identificação dos mortos pela repressão, é tragado pela lógica da violência. Cada capítulo adota a perspectiva de um personagem — vivo ou morto — e, por meio dessa construção polifônica, a autora consegue dar forma à multiplicidade de experiências que se cruzam naquele evento traumático. A fragmentação narrativa não compromete a unidade temática; ao contrário, reforça a natureza dispersa e contínua da dor coletiva.

A escolha dos títulos dos capítulos revela uma cuidadosa arquitetura simbólica, que amplia a carga poética da obra. O primeiro capítulo, “Passarinho”, introduz a figura frágil e livre de Dong-ho, cujo destino será brutalmente interrompido. O pássaro, símbolo da juventude e da esperança, anuncia a queda iminente da inocência diante da força militar. Em “Fôlego preto”, o ar transforma-se em metáfora da opressão, e respirar torna-se um ato carregado de tensão, como se a atmosfera estivesse contaminada pelo medo e pela memória dos corpos em decomposição. O efeito é ainda mais perturbador quando revela que o narrador deste capítulo está morto: sua consciência, ainda lúcida, atravessa o limiar da existência física e testemunha os despojos da violência com uma estranha serenidade espectral.

A fisicalidade da violência atinge seu ápice em “Sete tapas”, capítulo em que o corpo da narradora é invadido, punido, reduzido à condição de objeto. A frase “como o rosto esconde o interior, ela pensa. Como esconde a insensibilidade, a crueldade, o assassinato” sintetiza o abismo entre aparência e essência, mostrando que o verdadeiro horror muitas vezes se oculta sob rostos comuns.

O capítulo “Ferro e sangue”, a narrativa chega ao limite do horror, enquanto questiona a própria natureza humana. A frase “Ser humilhado, ferido, assassinado, é isso que a história provou ser a natureza humana?” revela a desesperança de uma personagem que presencia a repetição do massacre, do silêncio e da impunidade. Nesse ponto, Han Kang dialoga com uma longa tradição literária que reflete sobre o mal, desde os relatos dos campos de concentração até as representações contemporâneas da guerra.

Em “Pupila de noite”, somos lançados na escuridão da memória. A pupila, dilatada pela ausência de luz, simboliza o esforço de enxergar aquilo que a história oficial insiste em apagar. Já em “Para o lado das flores”, a dor dá lugar à reflexão e à dignidade. A pergunta “Como vai se vingar do inimigo do teu irmão se foi o país que matou ele?”, desmonta a lógica da vingança e acusa diretamente o próprio Estado, revelando a violência institucional como o verdadeiro algoz.

Por fim, “Lâmpada coberta de neve” encerra o livro com uma imagem ambígua: a luz que persiste, embora encoberta. A neve, metáfora do esquecimento, busca ocultar tudo; mas a lâmpada, ainda acesa, indica que há memória, resistência e humanidade sob as camadas mais densas do silêncio.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

A escrita de Han Kang impressiona pela contenção. Sua linguagem, seca e precisa, recusa o melodrama, mesmo diante dos eventos mais brutais. Há um esforço deliberado em respeitar as vítimas, sem transformar o sofrimento em espetáculo. Essa ética narrativa aproxima Han Kang de autores como Svetlana Aleksiévitch e Primo Levi, que também enfrentaram o desafio de narrar o inenarrável. Em Atos humanos, o silêncio é tão eloquente quanto a palavra: há momentos em que a autora se cala para que o leitor ouça melhor o eco do luto, da culpa e da sobrevivência.

Embora profundamente enraizado na história da Coreia do Sul, o romance ultrapassa as fronteiras nacionais ao abordar temas universais: repressão, memória, responsabilidade, humanidade. É uma obra que nos convoca à escuta dos silenciados, que questiona o papel da literatura diante da dor e que nos obriga a repensar a própria ideia de civilização. O reconhecimento de Han Kang com o Prêmio Nobel de Literatura em 2024 confirma a importância dessa voz singular no cenário literário contemporâneo.

Atos humanos não apenas denuncia: elabora, transfigura e, acima de tudo, dignifica. Uma elegia aos mortos e um manifesto contra o esquecimento. Um livro que se recusa a encerrar-se em si mesmo – reverbera na consciência de quem o lê, como um testemunho impossível de ignorar.


[1] KANG, Han. Atos humanos. Tradução Ji Yun Kim. São Paulo: Todavia, 2021.

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