OLHA QUE TUDO: a literatura é a arte mais avacalhada da atualidade!

Para além do patético, episódio racista do Flipoços revela uma sociedade amesquinhada e pusilânime quando a “área” é a literatura
Zeh Gustavo[1]
Olha que tudo! Em plena mesa de debate do Flipoços – Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (reforço o destaque feito, o festival se anuncia como literário, sem apelar para o genérico continente chamado livro), uma convidada usa do poder de ter um microfone a sua disposição, como convidada de prestígio do dito evento, para chamar ao palco um autor de literatura, negro, que estava na plateia, e simplesmente tentar ridicularizá-lo, para causar diante do público (e das redes) sem o menor conhecimento de causa e sendo indiscutivelmente racista. A convidada é uma coach (vou focar nisso pelo restante óbvio do perfil de origem de classe social para alguém se sentir confortável a ponto de agir assim!), que leva a vida a vender terrenos na Lua do Mindset para as chamadas organizações e suas lideranças – aliás, que saudade do tempo das firmas e patrões, ao menos a linguagem era mais sincera.
O racismo praticado pela convidada bole com um terreno que não é o que a queridona autora de livro de autoajuda empresarial está acostumada a lidar: o terreno da dura realidade. E a dura realidade de Wesley Barbosa, de quem a tal convidada oficial tentou tirar um sarro, é a de ser negro e ainda pesar nos ombros o fardo de fazer literatura. Tenho me sentido obrigado a convocar pra jogo, da seleção de referências do mundo, os boleiros Vanderlei Luxemburgo e Odvan. Certa vez, Luxa se referiu a Odvan, comumente acusado de ser um jogador do tipo brucutu, e em sua defesa, o classificando como um típico zagueiro-zagueiro. Ou seja, que cumpria com honras a tarefa que lhe era de responsa: proteger a zaga, não importasse se com um chutão pra frente ou um carrinho providencial no adversário prestes a anotar um tento. Nota: Odvan não era desleal. Só defendia o seu. E é pelo meu que recorro de modo frequente a ele e Luxa para me apresentar, quase que pedindo desculpas pelo erro, como escritor de literatura-literatura. De literatura como arte da palavra: poesia, conto, romance. Essas coisas aí…
Pois bem: a literatura como arte da palavra não existe, para as Camilas da vida. Pois é disto que se trata: além de pular a parte do que é ser negro no Brasil, os cursinhos mequetrefes que as Camilas da vida frequentam, quando frequentam, não ensinam é o que é o rolê de escrever, publicar e tentar vender e divulgar um livro de literatura – a começar por ter de dar pinote para até mesmo mencionar a alguém do que se trata um livro de literatura-literatura. Para essa gente existencialmente amesquinhada, embrutecida pelo mercado, uma feira literária trata-se de uma oportunidade de negócios, cujos encontros serviriam para networking. E eles estão lá, na cara dura. E serão chamados para outras, mesmo com o possível cancelamento da Camila. Parêntesis: cancelar Camila não resolve; e cancelamento é um método fascista, que nós do lado canhoto da história deveríamos abominar.
A crítica feita a Camila não pode parar nela. Tampouco o amparo da crítica acadêmico-sociológica, sobretudo a que opera nos limites do identitarismo nosso de cada dia, bastará a quem teve, além da pretitude, o vigor de trabalhador das artes também fortemente alvejado. Wesley Barbosa perfila em grupo que se autointitula neomarginais para chamar a atenção para a invisibilidade de um fazer que está nas cordas e pede, há muito, talvez sempre, algum socorro ou mesmo a chance somente de ser apreciada como arte que é.
Precisamos urgentemente voltar a aceitar falar sobre a relação entre estética, política e pensamento. A burrice não mora só na ignorância de bolsomínio que queima livro e reza para pneu: ela grassa também em falas ditas com orgulho e nenhuma vergonha, massificadas numa classe média que às vezes se julga intelectualizada mas repete sem autocríticas falas-mantras da indiferença e do azedume tais como não gosto de poesia ou não conheço muito sua área. Não só a literatura – nenhuma arte é uma área. Arte não é puxadinho da ciência, como um mero campo acadêmico de saber; muito menos de uma dentre tantas ciências – a economia, não podendo ser reduzida, substituída ou anulada quando não tiver serventia imediata para entretenimento. Arte é um modo peculiar de entendimento e mesmo explicação da vida e da experiência humana. Sem ela, babau muita coisa. Sem ela não teríamos chegado até aqui. Sem ela – e sem outros modos próprios de entender o mundo, como a filosofia, tão fundamental e às vezes menosprezada ou subsumida tanto quanto–, não nos perguntamos o que diachos afinal fazemos aqui, neste momento.
A literatura é a arte mais avacalhada da atualidade. Como arte da palavra, imprescinde de escritores – de literatura. Feiras literárias não deveriam sequer existir, sem literatura. Nenhum contorcionismo de produtores e curadores pode justificar o óbvio – ou o além dele: parem de sequestrar epistemologicamente o termo literatura, galerinha bonita da cultura como evento! Ou de praticar epistemicídio franco e absolutamente pusilânime! – em nome de mesa animada. A literatura é a campeã do (auto)avacalhamento, entre as artes. Não se faz festival de teatro sem peça. As concorridas Bienais de Artes não são protagonizadas por coachs que pintem quadros de lideranças. Mostras de cinema não são montadas com base numa seleção de filmes de mindfulness sobre como não perder a atenção diante das telas.
Wesley Barbosa é um autor negro de literatura, alvo de racismo numa das incontáveis feiras que se intitulam e vendem como literárias, sem ser. Que em sua defesa – legítima, necessária, incontornável –, não se apague o valor do esporte que ele ama praticar, em favor de mais likes.

[1] Zeh Gustavo é sambista de rua e escritor de literatura, autor de Pequeno manual de preparo do solo para um constructo de destroços, entre outros livros, e intérprete no álbum Cuidado, Zehzeira!.






