DECOLONIALIDADE DO CONHECIMENTO E DOS SABERES: REFLEXÕES SOBRE O MOVIMENTO NEGRO EDUCADOR

DECOLONIALIDADE DO CONHECIMENTO E DOS SABERES: REFLEXÕES SOBRE O MOVIMENTO NEGRO EDUCADOR

WEVERTON FREITAS NASCIMENTO*[1]

Resumo: A obra “O Movimento Negro Educador: Saberes Construídos nas Lutas de Emancipação”, de Nilma Lino Gomes, explora o papel do Movimento Negro como um agente educador crucial na luta por igualdade racial e emancipação da população negra no Brasil. Estruturada em sete capítulos, a autora analisa conceitos como regulação e emancipação da corporeidade negra, a construção de saberes e a visibilidade dos sujeitos historicamente marginalizados.

Palavras-chave: Movimento Negro; Descolonização; Educação; Saberes.

Abstract: The book “The Educating Black Movement: Knowledge Built in the Struggle for Emancipation”, by Nilma Lino Gomes, explores the role of the Black Movement as a crucial educational agent in the struggle for racial equality and emancipation of the black population in Brazil. Structured in seven chapters, the author analyses concepts such as the regulation and emancipation of black corporeality, the construction of knowledge and the visibility of historically marginalized subjects.

Keywords: Black Movement; Decolonization; Education; Knowledge.

Introdução

A obra “O Movimento Negro Educador: Saberes Construídos nas Lutas de Emancipação”, de Nilma Lino Gomes, publicada em 2017 pela editora Vozes, oferece uma contribuição significativa aos estudos das relações étnico-raciais no Brasil, especialmente em relação ao papel da educação no fortalecimento e emancipação da população negra. Em um cenário de crise na educação pública e de disputas políticas, Gomes destaca o Movimento Negro como um agente educador que não apenas dissemina saberes, mas também transforma a sociedade em busca de justiça e igualdade.

Síntese da Obra

A obra “O Movimento Negro Educador: Saberes Construídos nas Lutas de Emancipação” está estruturada em sete capítulos que se articulam de forma coesa para sustentar a tese central de que o Movimento Negro brasileiro é um agente educador que produz saberes emancipatórios. O livro é resultado do estudo teórico desenvolvido durante o segundo pós-doutorado da autora em Educação, incorporando também pesquisas realizadas em seu primeiro pós-doutorado e atividades como bolsista de produtividade do CNPq.

Nilma Lino Gomes apresenta uma metodologia inovadora ao abordar o Movimento Negro como agente educador, utilizando-se de diversas referências teóricas para embasar seus argumentos, com destaque para os trabalhos de Boaventura de Sousa Santos, especialmente seu conceito de “sociologia das ausências e das emergências”. A autora também incorpora suas próprias experiências como pesquisadora e mulher negra, conferindo à obra não apenas rigor acadêmico, mas também a legitimidade de quem vivencia as questões abordadas.

No primeiro capítulo, intitulado “O movimento Negro brasileiro como ator político”, Gomes discute a importância da inserção dos debates sobre questões raciais no cenário político brasileiro, analisando como as políticas públicas têm sido implementadas e se têm abrangido a população negra. A autora destaca o papel do Movimento Negro em dar visibilidade aos sujeitos historicamente inferiorizados, retirando-os da suposta “inferioridade” propagada pelo racismo e conferindo-lhes status de empoderamento.

O segundo capítulo, “Pedagogias que emergem”, aborda os diferentes graus de visibilidade dos movimentos sociais no Brasil, tanto no âmbito político quanto no acadêmico. Gomes desenvolve o método teórico-epistemológico que denomina “pedagogia das ausências e emergências”, inspirado nos estudos de Boaventura de Sousa Santos. Segundo ela, esta metodologia tem como objetivo “fazer emergir o protagonismo do Movimento Negro na relação educação e movimentos sociais”, atuando como elo de ligação entre a população negra, o meio social, educacional e cultural.

No terceiro capítulo, “O Movimento Negro e os saberes”, a autora apresenta o Movimento Negro contemporâneo como um novo sujeito coletivo e político que emergiu no cenário brasileiro de forma mais orgânica a partir dos anos 1970. Gomes argumenta que o Movimento Negro é fruto de uma “negativa histórica”, representando a busca por outro si mesmo e um contraponto à realidade racial vivida no Brasil. Neste capítulo, a autora também discute como a omissão de uma interpretação crítica sobre a realidade racial brasileira nos currículos escolares tem motivado o Movimento Negro a construir projetos educativos próprios.

O quarto capítulo, “Tensão regulação-emancipação, produção de conhecimentos e saberes”, explora a distinção entre conhecimento-regulação e conhecimento-emancipação, conceitos derivados do pensamento de Boaventura de Sousa Santos. Gomes argumenta que é necessário reavaliar o conhecimento-emancipação e atribuir-lhe predominância em relação ao conhecimento-regulação, especialmente no campo da educação, onde existe uma hierarquização problemática entre conhecimento e saber.

No quinto capítulo, “Corporeidade negra e tensão regulação-emancipação social: corpo negro regulado e corpo negro emancipado”, a autora analisa como o corpo negro tem sido objeto de regulação desde o período colonial, mas também como ele se tornou um importante elemento de resistência e emancipação. Gomes destaca as representações em torno do cabelo crespo como um elemento central nas análises e intervenções da juventude negra, que vem ganhando cada vez mais destaque desde a segunda década dos anos 2000.

O sexto capítulo, “Tensão dialética e crise do pilar regulação-emancipação sociorracial no campo das relações raciais e educação”, aborda como a educação escolar tem sido um dos principais meios de socialização de discursos reguladores sobre o corpo negro, e como a mudança nesse estado de coisas tem sido fruto da luta do Movimento Negro. A autora discute os conceitos de corpo regulado e corpo emancipado, analisando como os processos de regulação-emancipação criam diferentes tipos de corpos e relações com a corporeidade negra.

No sétimo e último capítulo, Gomes sintetiza as principais contribuições do Movimento Negro para a educação brasileira, destacando seu papel na implementação de políticas educacionais antirracistas e na produção de saberes que desafiam epistemologias hegemônicas.

Ao longo da obra, a autora dialoga com diversos teóricos, como Boaventura de Sousa Santos, Marcos Cardoso, Wilson Nascimento, Joel Rufino dos Santos, Miguel Arroyo, entre outros, construindo um arcabouço teórico sólido que sustenta sua argumentação sobre o papel educador do Movimento Negro brasileiro.

Considerações Finais

Em síntese, “O Movimento Negro Educador” de Nilma Lino Gomes é um trabalho essencial que expõe e articula a relevância do Movimento Negro na educação brasileira contemporânea. A obra não apenas reconhece as conquistas do movimento, mas também identifica a necessidade de transformações profundas nas instituições educacionais, visando à superação das desigualdades raciais e à promoção de uma educação verdadeiramente inclusiva e emancipatória. O reconhecimento dos saberes construídos pelo Movimento Negro traz novas perspectivas e fundamentais para a luta por igualdade racial, fazendo da educação um campo fértil para a transformação social.

Referência

GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador. Saberes construídos na luta por emancipação. Petrópolis, RJ: vozes, 2017.


* Professor e pesquisador. Mestrando em Educação pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM-Uberaba/MG). Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU-Uberlândia/MG). Professor de Educação Física na Prefeitura Municipal de Uberlândia pela Secretária Municipal de Uberlândia – MG.

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