CINEMA E PODER
O cinema é um poderoso instrumento de disseminação de ideias, mas também um meio monumental de doutrinação e massificação de interesses de mercado e ideologias, criador de modismos, lendas e mitos capazes de influenciar, alienar e até escravizar mentes menos racionais.

Um filme que bem simboliza esse potencial é “O homem que matou o facínora” (1962), cuja frase final é emblemática: “Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda”.
No entanto, nem sempre um fato é transformado em lenda ou cria um mito. Às vezes a lenda e o mito são criados, sem evidências, ou subvertendo-os por meio de narrativas.
Não faltam “heróis” ou “mártires” que não fizeram nada que justificasse a idolatria. O mesmo vale para alguns assassinos e psicopatas que são celebrados por sua liderança ou seu “sacrifício” por quem ignora ou justifica seus crimes e atrocidades.
No âmbito do cinema, existem exemplos de obras e cineastas que serviram a regimes autoritários ou ideologias que postulavam poder absoluto. Por certo, para obterem financiamentos, para sobreviverem ou evitarem perseguições, eles exerceram seu miste.
Em extremos opostos, embora análogos, temos cineastas como Sergei Eisenstein e Leni Riefenstahl, cujas obras foram totalmente financiadas por seus respectivos governos totalitários.
O cinema tem papel importante ao relembrar fatos históricos para que não se repitam. Nesse sentido, gosto muito do filme “Nunca deixe de lembrar” (Alemanha, 2018). Isso também vale para filmes de guerra ou sobre ditaduras.
Um cineasta marcante nesse segundo âmbito é Costa-Gravas, com seus: “Z” (1969) e “Desaparecido: Um grande mistério” (1982), por exemplo. Também merece menção Gillo Pontecorvo, com seu “A Batalha de Argel” (1966). É difícil fazer crítica com autorização, mas não impossível.
O cinema argentino consegue ter uma produção diversificada, criticando qualquer regime político de exceção da mesma forma que a corrupção em regimes democráticos, embora seja oferecido engajamento ideológico em algumas produções. A diferença é que não há insistência ou exclusividade de temas, além de contarem com vários bons atores e produções, nem sempre financiados com recursos governamentais ou submissos a “cartilhas” que impõem atribuições institucionais ou de mercado, ambas as espécies de censura prévia.
Uma verdade pode ser distorcida; uma mentira pode ser inventada e divulgada como fato; um fato pode ser reinterpretado; um mito pode ser criado!
O cinema, por congregar todas as artes e, principalmente pelo uso da imagem e do som, tem um poder que deve ser usado com extremo cuidado, para que não se transforme, como já ocorreu, num instrumento inconsequente de dominação em nome de interesses nem sempre humanistas ou democráticos.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






