Cem anos de um discreto e sagaz vampiro

Autora: Silvia Bocchese de Lima

Entre as inúmeras características que já atribuíram a Dalton Trevisan – bem-humorado, extraordinário, artista da palavra, contista magistral, inventor, premiado, grande paisagista de Curitiba, incansável operário das letras, um dos maiores escritores do país –, o de vampiro certamente seria execrado por Rui Werneck de Capistrano, que não suporia que o chamassem assim. No Correio de Notícias , ele reclamou, na década de 1990, que apontava Dalton como “vampiro de almas”, afinal ele não era “tão pouco vampiro disso quanto aquelas”. Para ele havia excessos no uso da expressão: “em qualquer artigo ou revisão já solta uma frase de efeito com vampiro no meio”.

Deixando o notívago caçador de sangue de lado, cabe a Dalton Trevisan, em 2025, o título de centenário – em 14 de junho ele completaria 100 anos de idade – e, ao homem que era discreto, não dado aos holofotes, inúmeras homenagens lhe serão rendedas – que certamente, se estivesse vivo, não iria a nenhuma. Foi assim com as maiores e mais importantes premiações da literatura brasileira e portuguesa que recebeu e não compareceu: a três Oceanos – antigo Portugal Telecom de Literatura Brasileira  a Camões e Machado de Assis, ambos em 2012, e alguns dos quatro Jabutis a ele concedes.

Apesar de todo o mistério que o rondava, do silêncio e da esquiva pública, cultivava amizades e, também, rivais literários. Dalton nutria um hábito de resistência cultural, afetividade e, por que não, de atitude – o de escrever cartas e bilhetes – carregando uma marca singular em sua comunicação com amigos e alguns leitores privilegiados ao longo de sua vida. Trocava correspondências com Carlos Drummond de Andrade, Poty Lazzarotto, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Antônio Cândido e Mário de Andrade e, aos desafetos, a crítica e o sarcasmo eram publicados em jornais.

Afiado e sem poupar palavras em suas avaliações literárias, Dalton – um escritor moderno e subversivo como ele se intitulou – foi contundente ao se referir a Emiliano Perneta como medíocre, dizendo que em vida não foi o poeta que poderia ser e que a morte o transformou no poeta que não foi; que teve uma experiência poética frustrada em todos os sentidos e os poemas que produziram foram feitos para serem “recitados nas sessões lítero-musicais dos colégios em festa no dia da árvore”.

Algumas rixas públicas de Dalton beiraram ao escárnio, como os apelidos e insultos que proferiu, que foram de araponga louca a hiena papuda.

Nos jornais de circulação nacional e distribuídos em Curitiba que tanto retrataram seus contos, Dalton também foi alvo de críticas. Carlos Jorge Appel, no Correio da Manhã , chegou a dizer que o escritor via a vida pela metade. “Dalton caminha em busca daqueles dons que fazem o gênio: a medida e a universalidade. A medida, arte de dominar pensamentos, de selecionar situações e condensar os momentos reveladores do conto, ele a possui. A universalidade, faculdade de ver a vida em conjunto, de representá-la em todas as suas manifestações, ele ainda não a possui. É um escritor que conhece bem seu mundo, mas deixa a sensação de só conhecê-lo à noite”.

Não faltaram elogios na Tribuna da Imprensa ao considerá-lo “desde muito o maior contista moderno do Brasil por três quartos da melhor crítica atuante”. O jornalista e escritor João Antônio ressaltou que o criador de Nelsinho era um trabalhador incansável, fiel ao conto, elaborou seus textos até à combustão e com o que ele classificou como “economia mais absoluta”, a ponto de chegar ao tamanho de um haicai. O escritor Ernani Buchmann foi além, evitando que se Dalton continuasse a escrever, ainda faria uma obra-prima: “escreveria um conto começando pelo ponto final”.

Semana Literária

O Sesc PR celebra a vida e a obra de Dalton Trevisan na 44ª edição do maior evento literário do Paraná – a Semana Literária e Feira do Livro – que ocorrerá de maneira simultânea, de 13 a 17 de agosto, em 27 cidades do estado. Como Dalton teve Curitiba como sua cidade inspiração, a temática abordada neste ano será Cidades Literárias.

Em breve, no site do evento www.sescpr.com.br/semanaliteraria serão divulgados os primeiros nomes dos autores convidados.

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