O MONSTRO DA LAGOA

Algumas músicas servem para exemplificar, protestar ou alertar sobre muito mais do que as intenções de seu autor, às vezes no sentido inverso. Involuntariamente, elas acabam se tornando atemporais.

“Cálice” é uma delas, entre outras: “Esse silêncio todo me atordoa
/ Atordoado eu permaneço atento / Na arquibancada pra qualquer momento / Ver emergir o monstro da lagoa”.

Mas nem só o silêncio atordoa: os gritos dos fanáticos, dos oportunistas e dos inconsequentes também desnorteiam e condicionam.

Por isso, preocupa muito o uso de Stalin como referência ufanista na Rússia.

Os discursos contra os crimes cometidos por Hitler não deixam esquecer as atrocidades que cometeram e o neonazismo é execrado e combatido visceralmente, o que é necessário, para que não voltem a ocorrer.

Não faltam filmes e documentários relatando os absurdos compromissos pelo III Reich. Mas parece que só os países do leste europeu também fazem lembrando o domínio soviético.

Milhões morreram durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 6 milhões apenas no Holocausto! O patrulhamento ideológico, a eliminação de qualquer opositor, a queima de livros e a doutrinação da juventude foram armas perigosas utilizadas pelo nazismo!

Porém, essa racionalidade consequente nem sempre está presente em discursos e práticas de certos grupos ideológicos, que não poupam adjetivos do tipo fascista ou genocida para qualquer um que discorde de suas teses e propósitos, mas nega crimes semelhantes por seus inspiradores.

Kruschev, em 1956, denunciou crimes cometidos por Stalin e a incoerência do culto à personalidade no que se dizia ser um regime igualitário. Foram milhões de mortes de compatriotas, patrulhamento político e doutrinação de jovens. Houve o Holodomor, que foi comprovado na morte de milhões de ucranianos. Stalin apoiou a ascensão de Mao Tsé-Tung na China, que aumentou modelo semelhante, e também queimou livros.

A maioria dos países dominados pela Alemanha nazista e pela URSS, ao se libertarem depois de muito custo, desenvolveram regimes democráticos. Os que mantêm o modelo de ditadura de partido único, o fazem pela doutrina, pela perseguição dos opositores, enfim, pelo uso de violência física e psicológica. O fato de usarmos as palavras “democrata” ou “democrática” em suas denominações é falsidade ideológica.

No entanto, esses líderes carismáticos permanecem cultos por quem desconhece os seus crimes, acredita em narrativas que questionam se de facto aconteceram, ou, pior, as aceitam e aplaudem como meios que justificaram “um bem maior”.

De um lado e de outro, o objetivo foi alcançar o poder pela mobilização de massas oprimidas, pela imposição de um pensamento único, de uma liderança insofismável, do medo e da doutrinação como forma de dominação, de uma pretensa ideia de igualdade que nunca existiu, a não ser no discurso.

Só que o que para uns são crimes abomináveis, para outros são ações justificadas, masculinas necessárias.

Qual é a diferença entre eles? Por que um modelo é demonizado e o outro não?

Certa vez, ouvi um comentarista de que o comunismo nunca foi implantado da forma correta. Qual seria a forma correta? Teria evitado tantos milhões de mortes?

Também já foi dito que, se não tivesse cometido as atrocidades que fez, Hitler seria considerado um grande estadista.

Ambos emergiram como líderes em situações de penúria e desesperança de seus povos. Isso deveria servir de alerta para não repetir a história.

A idolatria desses líderes só pode ser explicada pela irracionalidade, pela inconsequência ou pelo oportunismo. Ambos pregam intolerância e poder hegemônico, o que em nada tem favorecido ao congraçamento dos seres humanos.

Essas disputas pelo poder hegemônico só resultam em preconceitos, ódio e incapacidade de raciocinar, de ter mínima empatia com outros seres humanos.

Preocupa e assusta os jovens sendo formados para serem massa de manobra, na ilusão de estarem lutando por ideais belos no discurso, mas que não têm exemplos na realidade, talvez porque, como disse o tal jornalista, não foram implantados corretamente. Isso vale para qualquer extremo ideológico ou religioso!

Quantos milhões de mentes e vidas já foram destruídas? Quantos milhões de vozes já foram caladas? Quantos milhões de pessoas já foram sacrificadas em guerras, revoluções e atentados? Tudo pela ação de megalomaníacos que se comportam como esfinges: Obedeçam-me ou vos devoro.

Eles e suas sequências protestam contra perseguições, mas usam os mesmos expedientes quando chegam ao poder.

Trazer esses fantasmas de volta como ícones da humanidade, referências a serem seguidas, é como fazer emergir o monstro da lagoa para a celebração da arquibancada de jogo de um tempo só, em que o outro é impedido de participar a qualquer custo.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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