CONTRADIÇÕES E AMBIGUIDADES

Não deve ter sido diferente em outras épocas, mas o mundo atual está pleno de contradições e ambiguidades, e é nele que vivemos.
Há uma música, que seguramente se baseia num ditado, ou na simples constatação de que: “Nem tudo que se diz, se faz”. Também há uma frase na linha do: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo!”: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!”.
Existem outras que exprimem contradição por si só, tais como: “Quando um não quer, dois não brigam!”, “Quem cala, consente!”, ou, talvez uma das mais coerentes: “Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas!”.
Contradições e ambiguidades não faltam em todos os âmbitos e níveis, a começar pelas aparências.
“À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta” tem sido aplicado por alguns para parecerem alguma coisa que não são, que acham que são ou para enganarem quem não é, mas pensa que é, confirmando que as aparências enganam, sendo meramente cosméticas.
Um artista tem que parecer artista, ou o que importa é a sua arte, e como os outros a veem, valorizam ou não?
O mundo atual parece ser baseado em aparências, narrativas, ilusões e oportunismo. Algumas pessoas querem criar seu próprio mundo, e que os outros o aceitem e se adaptem a ele.
Novas palavras e frases foram criadas, e outras têm sido reinterpretadas ou ressignificadas segundo critérios pessoais ou corporativos. Há ainda expressões, gestos e coisas da natureza que são apropriados como símbolos de uso exclusivo, representativo, ou para estereotipar terceiros de forma negativa.
Quem acusa outros de apropriação cultural, o faz de outras formas, tomando para si o que é universal.
Quem afirma ter lugar de fala, censura o de outros com frase feitas, gritos ou gargalhadas como argumentos.
Cada vez é mais comum o “parecer ser”, com exemplos de quem exige direitos, mas não respeita o de outros; prega tolerância, mas não tolera divergências; abomina preconceitos, mas os pratica, quando interessa; denuncia genocídios, mas em sua ideologia os considera parte de um processo de depuração para a implantação de seu mundo ideal; defende intransigentemente a preservação da natureza, mas não aceita a sua, adulterando-a; clama por liberdade de expressão, mas censura opiniões contrárias; julga sem isenção; trata criminosos como vítimas e vítimas como responsáveis; ou odeia quem progride por mérito, querendo o mesmo, até o de outrem para si, sem merecer.
E quando são confrontados com suas contradições, ambiguidades e hipocrisias reagem com protestos vitimistas ou agressões verbais ou físicas.
O mundo vem caminhando por trilhas tortuosas e perigosas. Ódios e preconceitos viraram meio de vida para alguns, com poucos prejudicando, até condenando, muitos com suas ideologias radicais, inclusive crianças. Ninguém que não comungue de sua crença é inocente!
O que resta às pessoas de bem, e com um mínimo de civilidade e respeito ao ser humano, é não sucumbirem à tentação da contradição, da ambiguidade e da hipocrisia, e não permitirem que o mal seja regra, e que o mundo vire um latifúndio de intolerantes.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letra






