Substantivos e adjetivos comuns de dois

SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS COMUNS DE DOIS
Há muito tempo, a língua portuguesa define os chamados substantivos e adjetivos comuns de dois gêneros, também chamados de comuns de dois.
Tratam-se de substantivos e adjetivos “genéricos”, que devem ser associados a um artigo definido para caracterizar o ente a que se referem.
O próprio substantivo “ente” é um exemplo, mesmo que alguns dicionários o definam erroneamente como masculino.
As palavras “participante” e “partícipe” também são exemplos, dentre os múltiplos existentes, dispensando alguns “neologismos” que vêm sendo utilizados, e que alguns querem impor como regra.
Presidente é um substantivo comum de dois, ou seja, independe de gênero e dispensa “invenções” do tipo “presidenta”, pois incorreria em também usar a palavra “presidento”. Ou é comum de dois, ou não é!
O preconceito que atribuem a “presidente” é equivocado, portanto.
Aceitá-lo é abolir o substantivo comum de dois da língua portuguesa!
Imaginem alguns exemplos: ente para “enta” e “ento”, envolvente para “envolventa” e “envolvento”, galante para “galanto” ou “galanta”, impotente para “impotenta” ou “impotento”, falante para “falanto” e “falanta”, determinante para “determinanta” e “determinanto”, incoerente para “incoerento” e “incoeranta”, inerte para “inerta” e “inerto”, tenente para “tenento” e “tenenta”, notável para “notávela” e “notávelo”, crível para “crívelo” e “crívela”, ser humano por “sero humano” e “sera humana”, ignorante para “ignoranto” e “ignoranta”, e por aí vai.
Todos os exemplos aqui relacionados são, no mínimo, estranhos.
A frase anterior (ou seria “a frasa” ou “o fraso”) poderia ser:
Todas as exemplificações aqui relacionadas são minimamente (ou seria “minimamenta”?) estranhas.
Línguas vivas são dinâmicas, admitindo neologismos e a incorporação de palavras estrangeiras em seu vocabulário. Também existem os regionalismos e gírias, que normalmente aparecem entre aspas nos textos formais. Além disso, a semântica das palavras pode variar de um sentido pueril para uma ofensa grave, que pode ser uma reação a usos e costumes, mas também pode ser de um entendimento preconceituoso de palavras e expressões. Muito disso depende de quem interpreta, ainda mais se há predisposição.
Há países em que vários idiomas e dialetos coexistem, no entanto, a linguagem formal tem regras específicas de uso geral.
Como diz a música: “Garotos inventam um novo inglês”, mas não se pode confundir ou impor linguagens próprias, gestuais, vestimentas e hábitos de um grupo como axioma ou dogma, nem tampouco discriminar e, até censurar ou “cancelar” quem discordar disso.

O Esperanto nunca vingou, e se tivesse sido adotado como linguagem universal, seguramente também estaria sendo questionado. Talvez o considerassem uma arbitrariedade típica de regimes de exceção.
A língua portuguesa permite variações, sem a necessidade de invenções, reinterpretações ou inclusão de símbolos no alfabeto que a tornem ainda mais complicada do que alguns lhe reputam. Isso é até um paradoxo, na medida em que alguns “educadores” propõem que a linguagem falada vertida em texto deva ser aceita como formal.
Se assim fosse, o analfabetismo funcional seria o suficiente, o que só interessa a mistificadores e populistas que, para formar seguidores, vêm substituindo as ciências, o letramento sem restrições ideológicas e o direito ao livre-arbítrio pela imunização cognitiva, com o que pode ser caracterizado como “pedagogia demagoga”, num processo que lembra a “janela de Overton”.
Essa análise é exagerada?
Haverá quem dirá que, mais do que exagerada, é ridícula, gargalhando ou vociferando, prática comum dos que não aceitam nada que contrarie seus ideais hegemônicos.
Mas isso é normal, pois vivemos numa democracia, onde a liberdade de expressão é plena e a dialética é universal.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário
Membro da Academia Santista de Letras






