RIR DE TUDO É DESESPERO

Essa frase é da música “Amor pra recomeçar”, de Frejat.
Mas o riso, evolução do sorriso, e uma escala abaixo da gargalhada, tem sido cada vez mais usado como uma demonstração de desdém, normalmente associado ao balançar de cabeça.
É uma psicologia barata, muito utilizada por quem não tem argumentos para confrontar racionalmente opiniões contrárias.
Associado ao uso de palavras ofensivas, exórdios bombásticos, estereótipos ou arquétipos idealizados, o riso também demonstra intolerância, arrogância e intenções hegemônicas.
Ele normalmente faz parte de uma tática para tentar desestabilizar um oponente de ideias, algo ensinado e treinado, sobretudo na política mais baixa, em modelos doutrinadores.
Essa tática, frequente em debates, é extremamente maliciosa, pois tenta extrair do oponente uma reação emocional, que permitirá que uma argumentação falha seja substituída por um discurso vitimista ou pela desculpa para acusar o outro de “ismos” de qualquer espécie.
Isso demonstra que esse tipo de riso não passa de uma “muleta” oportuna.
E, quando se transforma em gargalhada, nada mais há o que discutir ou argumentar. É como a descrição do pombo jogando xadrez, que, quando percebe que vai perder, bagunça tudo, derruba as peças e ainda sai dizendo que venceu.
E quem ri ou gargalha junto não é porque entendeu a piada, mas porque faz parte da claque ou do rebanho.
A ironia, o sarcasmo, a arrogância e a prepotência também são utilizados como instrumentos de desconstrução ou constrangimento.
Podem ser muito eficazes, é fato, mas se estão ao serviço de narrativas que tentam transformar idealização e mentiras em verdades absolutas, são moral e eticamente desprezíveis.
O riso irônico, falar ao mesmo tempo, lançar provocações, ilações e “iscas”, dizer que o outro afirmou alguma coisa que não disse normalmente demonstram incapacidade de dialogar e falta de argumentos racionais. Quando a lista de frases feitas termina, aflora a agressividade intolerante das certezas da estupidez, e as aparentes ternura e altivez se transformam no genuíno ódio que fermenta as guerras.
Depois disso, não sobra nenhum amor para recomeçar.
E, por falar em guerra, que, antes de ser bélica, pode ser religiosa, comercial, corporativa ou ideológica, Ésquilo teria afirmado que nela a primeira vítima é a verdade.
Mas o que é a verdade?
Por que tantos se batem para ter seu monopólio?
Há quem rirá de tudo isso, não por achar graça, mas porque o riso seja um escudo que protege suas crenças ou limitações cognitivas, contra a racionalidade que o mundo civilizado tanto precisa.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário
Membro da Academia Santista de Letras






