AS ESTAÇÕES ESTÃO CONFUSAS, E NÓS TAMBÉM

A natureza tem uma estrutura feminina: não sabe se defender, mas sabe se vingar como ninguém.

Marina Silva

Por Margarete Hülsendeger

Outro dia, saí de casa de blusa de lã e voltei de camiseta. O céu era de inverno ao amanhecer, primavera no almoço, verão às três da tarde e outono melancólico ao anoitecer. Confesso que já não sei mais em que estação vivo e desconfio que o planeta também não.

Não é exagero. Em março de 2025, São Paulo registrou o mês mais quente dos últimos 64 anos, segundo o INMET. Já em Belo Horizonte, janeiro marcou o dia mais quente do ano até então, com 33,7°C — quebrando recordes e antecipando um calor que só deveria chegar meses depois. Ainda assim, 2025 surpreendeu também pelo outro extremo: várias cidades, incluindo São Paulo e BH, enfrentaram recordes de frio. Um clima bipolar, que oscila entre o escaldante e o gelado, refletindo um planeta em descompasso.

Enquanto isso, o Rio Grande do Sul ainda tenta se reerguer das enchentes de maio e junho de 2024 — as piores da história do estado. Casas, ruas e histórias foram levadas pelas águas: um lembrete de que o excesso também mata. No Norte, o outro extremo: a Amazônia ardeu como há muito não se via. Entre agosto de 2024 e junho de 2025, as áreas sob alerta de “desmatamento com vegetação” — justamente os locais atingidos pelo fogo — cresceram 245,7% em relação ao mesmo período anterior. O fogo não é aleatório. Ele tem dono, causa e endereço. É o rastro visível de uma floresta arrancada pelas raízes em nome do lucro.

Diante desse cenário, a COP30, marcada para acontecer em Belém, em 2025, adquire um significado curioso. O país das vastas florestas e das muitas contradições recebe o encontro que pretende discutir o futuro do planeta. Um palco montado entre extremos — onde resta observar que caminhos serão traçados entre discurso e realidade.

E se o mundo natural está assim, em colapso, o emocional também não anda melhor. Há uma dimensão silenciosa nessa crise: o desequilíbrio de quem vive em um planeta instável, tentando parecer funcional. O que antes era previsão do tempo, virou previsão de tragédia. A cada notificação no celular, um novo recorde, uma nova imagem de destruição, uma nova sensação de impotência.

Estamos emocionalmente desregulados, ansiosos, exaustos — tentando manter a rotina em meio a uma sensação constante de fim. E não falo de apocalipse de cinema, mas do fim das estações como as conhecemos, do fim da estabilidade climática, do fim da esperança tranquila de que “as coisas vão se resolver”.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

A ansiedade climática já tem nome, estudo, diagnóstico — e, infelizmente, pouca atenção. Cresce entre os jovens, mas atinge a todos: esse mal-estar difuso, essa dificuldade de fazer planos, esse medo disfarçado de indiferença. Está nos pequenos gestos do dia a dia — no desânimo diante das manchetes, na sensação de inutilidade ao separar o lixo, na culpa ao pegar um avião, no medo silencioso de ter filhos em um mundo instável. Está também no cansaço de votar, que tem afastado não só os jovens, mas muitos adultos das urnas — como se as escolhas já não fizessem diferença diante de uma paisagem que parece desabar. É a pergunta que não se cala, mesmo quando a rotina tenta abafar: como viver normalmente quando tudo parece em risco?

Ainda assim, há quem insista em negar. Negacionistas climáticos seguem ativos — alguns com microfone, outros com mandato. Dizem que tudo é invenção, exagero, narrativa. Enquanto eles falam, o planeta arde. Literalmente. Negar a crise climática, hoje, é mais do que desinformação: é um gesto que posterga decisões, alimenta a destruição e anestesia consciências.

O desequilíbrio climático é só a parte visível do iceberg — e, ironicamente, até os icebergs estão derretendo. A instabilidade real está dentro da gente: é emocional, ética, política. Estamos desconectados da natureza e de nós mesmos, tentando sobreviver numa lógica que confunde progresso com devastação.

Talvez seja hora de parar de apenas continuar.

Talvez seja hora de mudar. De exigir mais. De sentir, sim — mas também de agir. Porque, se o mundo está perdendo as estações, que ao menos a gente não perca o eixo. O planeta está febril — mas somos nós que andamos à beira de um colapso emocional.

E, como sempre, fingimos que é só o tempo.

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