Élie Bajard e suas contribuições para a alfabetização

Élie Bajard e suas contribuições para a alfabetização

Jozaene Maximiano Figueira Alves Faria[*]

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo apresentar as contribuições de Élie Bajard para a apropriação da língua escrita, tanto em aspectos teóricos quanto práticos. Nesse sentido, nosso texto fundamenta-se em Bajard (2013, 2021) que demonstra que ler é muito mais do que decodificar e nos apresenta a compreensão do texto a partir do desenvolvimento da consciência gráfica.

PALAVRAS-CHAVE: Alfabetização. Bajard. Ensino e aprendizagem. Consciência gráfica.

ABSTRACT:

This article aims to present the contributions of Élie Bajard to the appropriation of written language, addressing both theoretical and practical aspects. In this regard, our discussion is based on Bajard (2013, 2021), who argues that reading is much more than decoding and introduces text comprehension through the development of graphic awareness.

KEYWORDS: Literacy. Bajard. Teaching and learning. Graphic awareness.

Introdução

Bajard era um pesquisador que se preocupava com questões sociais, especialmente das crianças em situação de vulnerabilidade, respeitava a inteligência e a curiosidade delas e queria oferecer meios para se emanciparem por meio do domínio da língua escrita. Nesse sentido, debruçou-se incansavelmente sobre a alfabetização, sempre reelaborando teorias e práticas em busca das melhores opções metodológicas para as crianças e desenvolveu um projeto que privilegia o acesso à linguagem escrita pela leitura, com ênfase nos livros de literatura infantil. Segundo ele, a literatura pode criar a vontade das crianças a quererem aprender sobre o mundo da escrita, “a alfabetização não propicia mais acesso aos livros, são os livros que deslancham a aprendizagem da escrita.” (Bajard, 2013, p. 14)

Das teorias às práticas: propostas de Élie Bajard

Para compreendermos melhor a perspectiva de Bajard, recorremos a Live de lançamento do Boletim Especial Élie Bajard promovido pelo Nahum (Núcleo de Alfabetização Humanizadora), nela Dagoberto Arena explica que existe a visão macro da alfabetização na qual encontramos uma parte densa da teoria que concebe a palavra como um instrumento de constituição do pensamento e desenvolvimento da criança. E encontramos a visão micro da alfabetização, onde se desenvolve aspectos mais materiais desse processo e especialmente nessa visão que o trabalho de Bajard se desenvolve, ele explica a teoria até se alcançar possibilidades práticas de serem realizadas com os estudantes.

Em suas pesquisas Bajard evidencia a importância da história da escrita, recorrendo a Gutenberg que criou o tipo móvel, que consistia em caracteres para compor a escrita, na imprensa, ou seja, percebemos a tipografia como um embrião da compreensão que distingue grafema-fonema. Elie Bajard propõe a desconstrução da ideia de que o princípio da escrita está na relação grafema-fonema (letra-som), assim decodificar não é compreender. Então, Bajard traz a compreensão dos caracteres como unidade própria da língua escrita independentemente do fonema. Desse modo, caractere consiste na unidade visual (não é só a letra, mas um conjunto de caracteres), cada um deles tem uma razão, um sentido, na composição do enunciado e esta unidade passa a ser manipulada, em outras palavras, caracteres são figuras visuais que se juntam a outras para compor outra figura visual que é a palavra.

A partir dessa nova unidade, a criança pode desenvolver a consciência gráfica (conceito de Foucambert), nesse momento ela é inserida no mundo tipográfico, atualmente incluindo o mundo digital com os caracteres dos teclados, vai compreender o mundo pela linguagem escrita, entender que ao ler vai interferir nesse mundo. Tal percepção difere-se totalmente da consciência fonológica que relaciona o ato de ler ao som, pronúncia descolada do processo de compreensão. Desenvolver a consciência gráfica implica ler os caracteres e compreender que eles são manipuláveis para se construir palavras visualmente, nesse sentido são valorizados por Bajard: a caixa dupla (letras maiúsculas e minúsculas) e espaço em branco. Ou seja, qualquer alteração nas palavras, em seus caracteres, vai criando na criança essa compreensão de que as palavras são formadas por uma composição gráfica e que as modificações alteram também o sentido.

A capacidade de compreender o mundo pela oralidade é criticada no livro “Eles leem, mas não compreendem” (Bajard, 2021), pois é uma visão biológica, limitada, repetidora de elementos técnicos, na qual a criança precisa ouvir, pronunciar para depois compreender. Em contraposição a essa ideia, o autor enfatiza que é o mais importante é o que se vê e não o que se escuta, então, o silêncio é uma condição para o ato de ler, porque quando a criança para, observar os caracteres, suas alterações, que suas trocas produzem novos sentidos, exige uma reflexão profunda das crianças desde o início do processo de alfabetização.

No livro “A descoberta da língua escrita” (Bajard, 2013) o autor materializa propostas práticas orientadas por todas essas discussões teóricas de como as crianças se apropriam da linguagem escrita por três descobertas: a sessão de mediação; do nome e texto. Essas propostas foram realizadas no Projeto Arrastão, que atende crianças em situação de vulnerabilidade social, no qual Bajard realizou formação com os profissionais para apresentar a língua escrita de maneira contextualizada relacionadas aos estudos e pesquisas que havia desenvolvido. A seguir apresentaremos as três descobertas da língua escrita: descoberta da literatura pela sessão de mediação; descoberta do nome, a consciência de si; descoberta do texto, à procura da compreensão.

Considerações finais

Diante dessas discussões, reforçamos as críticas aos processos mecânicos de aprendizagem da leitura e da escrita, que preconizam técnicas mecânicas, memorização, passividade do educando e do educador. E defendemos a importância da pesquisa, dos estudos do professor para buscar estratégias que tornem a alfabetização um processo significativo para as crianças. E que pensar nesse processo educativo requer pensar por ângulos diferentes dos que fomos educados e que continuam perpetuando sem reflexão, é compreender que a tecnologia afeta os modos ler e precisamos acompanhar esse movimento, oferecendo às crianças diferentes meios para entrar de fato no mundo gráfico, de modo a compreender o que se lê e não simplesmente decodificar.

Referências Bibliográficas

BAJARD, Élie. A descoberta da língua escrita. São Paulo: Cortez. 2013.

BAJARD, Élie. Eles leem mas não compreendem: onde está o equívoco? São Paulo: Cortez, 2021.

NAHUM – Núcleo de Alfabetização Humanizadora. Live de lançamento do Boletim Especial Élie Bajard [recurso eletrônico]. YouTube, 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Qk2Gjs37HZE. Acesso em: 17 set. 2025.


[*]Mestre em educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação/PPGED/UFU. Professora da Educação Infantil na rede Municipal de Ensino de Uberlândia, ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0499-8472 e e-mail: josy2209@yahoo.com.br.

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