POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS: O CINEMA COMO ALTERNATIVA À IGNORÂNCIA CULTURAL

Roseana Moreira de Figueiredo Coelho[1]
Resumo: O presente artigo, baseado na obra ‘O Estado Neoliberal: uma tragédia histórica’ de Giovanni Alves, discorre sobre a ignorância cultural instalada numa sociedade neoliberal, que favorece a manutenção de uma sociedade com consciência ingênua e impede o desenvolvimento de consciências críticas e libertadoras, no sentido freiriano da palavra, e apresenta o cinema como uma possível ferramenta educativa auxiliar para uma educação emancipatória.
Palavras-chave: Estado Neoliberal; Ignorância cultural; Políticas públicas; Cinema.
Abstract: This article, based on the work ‘The Neoliberal State: a historical tragedy’ by Giovanni Alves, discusses the cultural ignorance installed in a neoliberal society, which favors the maintenance of a society with a naive conscience and prevents the development of critical and liberating consciences, in the Freirean sense of the word, and presents cinema as a possible auxiliary educational tool for an emancipatory education.
Keywords: Neoliberal State; Cultural Ignorance; Public Policies; Cinema.
A educação é um tema amplamente debatido no Brasil, devido à sua importância na formação da identidade e no desenvolvimento social. No entanto, os resultados ainda são preocupantes: segundo dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira)[2], o desempenho do país permanece abaixo da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), ocupando posições inferiores nas áreas de Matemática, Leitura e Ciências.
A educação influencia todos os aspectos da sociedade, especialmente ao fortalecer a democracia e os direitos humanos e ao promover a compreensão crítica do contexto político, social e econômico. A escola, portanto, vai além da transmissão de conhecimentos técnicos, sendo também um espaço de socialização, troca de culturas e formação de ideias.
O estado neoliberal e a ignorância cultural
Para compreender as políticas públicas educacionais, é necessário analisar o cenário político brasileiro, marcado atualmente por um regime presidencialista inserido em um Estado neoliberal — expressão do capitalismo global, segundo Giovanni Alves (2024). Essa trajetória inclui períodos de monarquia, militarismo e a república vigente.
Nesse sistema neoliberal, uma característica se destaca, que é a superexploração da mão de obra e a manutenção da ignorância cultural:
O estado neoliberal é uma forma histórica do Estado oligárquico-burguês que em comparação com as outras formas de Estado capitalista no Brasil, preservou o subsistema da superexploração do trabalho e subsistema de produção e reprodução da ignorância cultural das massas – abarcando tanto o povo quanto a classe média. (ALVES, 2024, p. 259)
Giovanni Alves (2024, p. 260) define a ‘ignorância cultural’ como a incapacidade de superar a consciência ingênua, marcada pelo pensamento limitado e irracionalismo social. Essa condição favorece a manutenção do poder pela elite, dificultando a mobilização para ascensão social da classe trabalhadora. Nesse contexto, a educação exerce um papel essencial na construção da consciência crítica e na luta por transformação social:
[…] manter as massas, incluindo a classe média com seu bacharelismo erudito, imersas na consciência ingênua foi o projeto triunfante das classes dominantes brasileiras. O que explica porque a pedagogia de Paulo Freire, que propunha a emancipação por meio da educação e da formação da consciência crítica, tornou-se malvista pelos detentores do poder. (ALVES, 2024, p. 261)
Alves (2024) cita a proposta de educação emancipadora de Paulo Freire como ferramenta para emergir de uma consciência ingênua para uma consciência crítica. Sobre as consciências antagônicas, Freire (1987) afirma que o pensar ingênuo repudia o velho enquanto o pensar crítico acredita que a transformação da realidade é o caminho para a humanização dos homens:
Opõe-se ao pensar ingênuo que vê o tempo histórico como um peso, como uma estratificação das aquisições e experiências do passado, de que resulta dever ser o presente algo normalizado e bem-comportado. Para o pensar ingênuo, o importante é a acomodação a este hoje normalizado. Para o crítico, a transformação permanente da realidade, para a permanente humanização dos homens. […] Para o pensar ingênuo, a meta é agarrar-se a este espaço garantido, ajustando-se a ele e, negando a temporalidade, negar-se a si mesmo. (FREIRE, 1987, p. 47)
Além de Paulo Freire, Álvaro Vieira Pinto também contribuiu para a compreensão das consciências ingênua e crítica. Segundo Alves (2024), Álvaro Pinto afirma que a consciência ingênua é passiva e acrítica, enquanto a consciência crítica é questionadora, dialogal e busca entender as causas dos problemas sociais, sem se apegar a preconceitos ou modismos.
O cinema nas políticas públicas para o combate à ignorância cultural
A partir desta teorização, a educação surge como ferramenta principal para a emancipação da sociedade. Uma educação voltada para um público imerso na consciência ingênua considera o educando como um “objeto”, onde este é passivo no processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Alves (2024), esta forma de educação “não busca a instrução universal, mas sim uma educação que perpetua a ignorância e a passividade” (ALVES, 2024, p. 264 e 265), o que dificulta a formação de uma consciência crítica, fundamental para promover o progresso, mudanças sociais e educacionais da sociedade.
Um projeto educacional deve partir da realidade social da população, promovendo a redução das desigualdades e o desenvolvimento do pensamento crítico. No entanto, as políticas públicas são fortemente influenciadas por interesses econômicos, que moldam conteúdos e currículos, favorecendo a manutenção da ignorância cultural e, por conseguinte, do poder da elite burguesa.
De acordo com Alves (2024), Paulo Freire defendia que a promoção de ações de políticas públicas voltadas para a educação libertadora, embora este não seja um objetivo do governo, pois:
[…] ele acreditava que reformas sociais deveriam criar a base material para a verdadeira luta pela emancipação social, e a educação popular era o primeiro passo para além da consciência ingênua. Para os detentores do poder, essa proposta era subversiva, pois ameaçava o projeto histórico de ignorância cultural que mantinha o povo e a classe média sob controle, hoje manifestado no analfabetismo funcional das massas escolarizadas. (ALVES, 2024, p. 268)
O ensino formal, seja ele básico ou universitário, por si só, não é a única responsável pela emancipação social e erradicação da ignorância cultural, mas como afirma Alves (2024), “o sistema escolar e universitário, na verdade, faz parte da cadeia sistêmica de produção da miséria espiritual tanto do povo quanto das classes médias letradas” (ALVES, 2024, p. 270 e 271).
Assim, a proposta de uma educação de qualidade que inclui o uso de filmes em sala de aula contribui para reduzir desigualdades e ampliar o acesso ao conhecimento. Diferente do ensino tradicional voltado a uma minoria, o cinema surge como uma abordagem educativa mais humanizada, capaz de apoiar os objetivos educacionais e combater a ignorância cultural presente em grande parte da sociedade.
Dessa forma, a inclusão do cinema nas políticas públicas educacionais é válida por seu potencial educativo, estimulando os sentidos e o pensamento crítico. Alencar (2007) ressalta que imagens, sons e linguagem cinematográfica enriquecem o aprendizado, transmitindo valores importantes para a formação acadêmica e cidadã.
O cinema no processo educativo, então, além de possibilitar o desenvolvimento de inúmeros temas pertencentes aos conteúdos escolares, também é um aliado para a promoções de valores inerentes à vida como um todo.
A exibição de filmes nas escolas é uma prática relativamente recente e resultante de um processo histórico. Na década de 30, iniciativas importantes marcaram essa inserção: em 1933, o Código da Educação previu a instalação de aparelhos cinematográficos nas escolas, e em 1937, foi criado o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), com o objetivo de promover a produção e o uso de filmes nacionais na educação popular. Porém, o cinema só foi figurar de fato na legislação que versa sobre a educação no Brasil em 2014, quando foi adicionado um parágrafo no artigo número 26 da Lei n.º 9394, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que tratava da obrigatoriedade da exibição de filmes de produção nacional por no mínimo 2 (duas) horas mensais, integrada à proposta pedagógica da escola (BRASIL, 1996, s.p.).
A presença do cinema nos documentos oficiais da educação é limitada. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de 2018, que é o documento oficial norteador dos currículos do ensino brasileiro, ele é citado apenas algumas vezes nas áreas de Linguagens (em Artes, Língua Portuguesa e Língua Inglesa) e em História, ficando ausente em outras disciplinas como Geografia, Ensino Religioso, Matemática e Ciências da Natureza no Ensino Fundamental. No Ensino Médio, o cinema neste documento nem é mencionado nenhuma vez.
Considerações finais
Mediante o exposto, a era da ignorância cultural, mantida principalmente pela classe oligárquica-burguesa, está longe de acabar. Quanto mais a sociedade se priva da educação e da escolarização, mais ela se afundará nesta ignorância. A “onda” de empreendedores de si mesmo, de influenciadores digitais e a crescente parcela de analfabetos funcionais é o que interessa aos ricos, para continuarem tendo uma mão de obra barata e acomodada.
Ao se falar, em particular, no cenário educacional brasileiro, percebe-se que a sociedade, no geral, está mais interessada em assistir inúmeros vídeos curtos de 15 segundos, cujos conteúdos falsamente explicam toda a realidade, porém sem profundidade, do que em ler e pesquisar cuidadosamente sobre qualquer assunto.
Destaca-se, portanto, a importância do uso do cinema na escola e a necessidade urgente de sua valorização nas políticas públicas. Integrado a práticas pedagógicas adequadas, esse recurso pode contribuir para transformar consciências ingênuas em críticas, promovendo atitudes mais assertivas na vida pessoal e profissional.
REFERÊNCIAS
ALENCAR, S. E. P. O cinema na sala de aula: uma aprendizagem dialógica da disciplina história. Dissertação de mestrado. Faculdade de Educação. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza – CE. 2007.
ALVES G. O estado neoliberal no Brasil: uma tragédia histórica. Marília, SP: Projeto Editorial Praxis, 2024.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 11. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 1987.

[1]Graduação em Matemática (UFOP), Mestre em Educação Matemática (UFOP), Doutoranda em Educação (UFU), professora do IFMG (Campus Saõ João Evangelista), roseana.coelho@ifmg.edu.br.
[2] Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/acoes-internacionais/divulgados-os-resultados-do-pisa-2022. Acesso em 02/07/2025 à 7hs34min.






