A PESQUISA QUALITATIVA EM EDUCAÇÃO NO CAMPO PÓS CRÍTICO

Elizabeli Pantoja de Oliveira* Rozane Alonso Alves†

Resumo: A pesquisa qualitativa, sob a perspectiva pós-crítica, é compreendida como um processo dinâmico de produção de conhecimento, marcado pela subjetividade, pela criação e pela reflexão. Com base em autores como González Rey, Meyer, Paraíso e Marisa Vorraber Costa, discute-se a necessidade de romper com modelos tradicionais de investigação e de repensar o papel do pesquisador (a). Nessa abordagem, pesquisar significa assumir o risco, atravessar fronteiras, reconhecendo o conhecimento como prática ética, política e transformadora no campo educacional.

Palavras – chave: Subjetividade, pesquisa qualitativa, campo educacional.

Abstract

Qualitative research, from a post-critical perspective, is understood as a dynamic process of knowledge construction, marked by subjectivity, creation, and reflection. Based on authors such as González Rey, Meyer, Paraíso, and Marisa Vorraber Costa, we discuss the need to break with traditional research models and rethink the role of the researcher. In this approach, researching means taking risks, crossing boundaries, and producing meaning, recognizing knowledge as an ethical, political, and transformative practice in the field of education.

Keywords: Subjectivity, qualitative research, educational field.

O presente artigo tem como objetivo analisar a pesquisa qualitativa sob o olhar pós-crítico, com base nas contribuições de González Rey, Meyer, Paraíso e Marisa Vorraber Costa. Esses autores rompem com a ideia de pesquisa como mera reprodução de dados, propondo uma visão investigativa e reflexiva, nessa perspectiva, compreender a pesquisa qualitativa é reconhecer o conhecimento como construção que faz no diálogo, na incerteza e na invenção de novos modos de pensar. Quando falamos em pesquisa científica, observamos que o pesquisador (a) demanda de apoio em determinados campos teóricos e metodológicos que orientam seu percurso investigativo, essa escolha não é neutra pois ela influencia diretamente a forma de conduzir o estudo e consequentemente os resultados obtidos. No cenário atual, contudo, percebemos que muitas pesquisas estão excessivamente centradas em procedimentos instrumentais, reduzindo esse processo á mera coleta.

Em contraposição a essa visão, a pesquisa qualitativa surge como uma possibilidade de compreender os fenômenos em sua complexidade, os quais reconhece que a produção de conhecimento não se restringe a dados prontos, mas que abrange a produção efetiva de construção interpretativa reflexão crítica. González Rey (2005) destaca que a análise qualitativa deve ser entendida em uma perspectiva epistemológica, que define fundamentos que legitimam esse campo como um espaço de criação e não simples reprodução de informações.

Seguindo essa perspectiva, González Rey (2005) destaca a chamada Zona de Sentido, compreendida como um espaço de inteligibilidade produzido no processo de pesquisa. Trata-se de um campo que não se esgota em significados previamente dados, mas que abre possibilidades para o aprofundamento teórico e para a emergência de novas compreensões. Assim, o pesquisador (a) é chamado a construir formas de ampliar e aprofundar seu campo investigativo, explorando diferentes vertentes a partir do que já estuda e descobrindo novas dimensões.

Nessa direção, a epistemologia qualitativa defende o caráter construtivo- interpretativo do conhecimento, entendendo-o não como mera apropriação, mas como criação, o que implica gerar novos campos a partir das descobertas realizadas, articulando teoria e empiria como dimensões inseparáveis da produção do saber. A pesquisa qualitativa, portanto, configurando – se como um processo dinâmico de construção, no qual hipóteses emergem associadas a modelos teóricos que permitem maior aproximação entre o plano conceitual e o empírico.

Pode-se compreender, então, que a pesquisa qualitativa está ligada ao ato de compreender e dialogar, é nesse diálogo vivo que se constrói um conhecimento singular, situado e subjetivo, onde se é possível transformar a produção individual de um sujeito em um material relevante para o saber e conhecimento para o coletivo acadêmico e social.

Esse entendimento quanto a pesquisa qualitativa enquanto processo construtivo interpretativo que é destacado pro González dialoga com as reflexões pós críticas apresentadas por Costa (2002) a qual enfatiza que pesquisar não é apenas seguir caminhos previamente traçados, mas abrir – se ao risco e a multiplicidade de sentidos que emergem no percurso investigativo.

Ao se tratar dos modelos tradicionais revela – se que investigar não se trata de seguir apenas um percurso previamente delimitado, mas transitar em novos territórios que podem conter riscos ou aberturas para novas significações. De igual modo, entendemos que a produção de conhecimento é marcada pela criação constituída pela multiplicidade de vozes, valorização das diferenças e reconhecimento de que o pesquisador (a) está implicado no processo.

Nesse sentido, compreendemos que o pesquisador (a) não é o dono de um discurso verdadeiro — essa pretensão é apenas uma ficção, por isso ao explicar algo, não buscamos soluções absolutas, mas hipóteses que podem ser questionadas, contestadas ou reformuladas. É desse movimento que a pesquisa alcança novas etapas e permite a emergência de diferentes teorias, situando que não existem sentidos únicos ou definitivos, mas múltiplos e em constante deslocamento.

Nessa direção, Gilles Deleuze (1992) afirma: Tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e, se eles não lhes servem, consigam outros; encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate.” Assim, podemos compreender nossos referenciais teóricos e metodológicos como instrumentos de combate, são eles que orientam o percurso investigativo e possibilitam criar saídas e encontrar novas possibilidades.

Veiga (2002) reforça que o pesquisador (a) em educação deve distanciar-se de suas próprias bases para analisá-las e criticá-las, destacado o compromisso ético e político ao questionar o que já está dado, abre-se espaço para que outros sujeitos também possam criar novos caminhos. A crítica, emerge de múltiplos lugares e exige olhar atento às pequenas noções de realidade, é dentro dessa “desconfiança ocular”, que impulsiona a formular teorias e meios para compreender os fenômenos sociais.

Assim, a ciência não se reduz à representação do mundo, pelo contrário, seus enunciados produzem o mundo, ao tentar explicar os fenômenos sociais, estamos também produzindo modos de pensar e de significar a realidade. O trabalho científico, portanto, não busca uma verdade final, mas se coloca diante do desafio permanente de inventar inteligibilidades que nos ajudem a compreender e transformar a vida social.

Meyer e Paraíso (2012) ressaltam que o pesquisador (a) deve examinar o status quo para desnaturalizar práticas sociais e, assim, abrir espaço para alternativas de pensar, falar e agir. Essa postura implica remodelar as metodologias de pesquisa, entendendo que elas não são pacotes prontos, mas construções que se configuram no próprio processo investigativo, em diálogo com os objetivos do estudo e com as perguntas que o sustentam.

Nesse horizonte, não se trata de escolher um método fixo e universal, mas de recorrer a diferentes estratégias, como etnografia, entrevistas, narrativas, análise de conteúdo ou análise do discurso que possibilitem formular perguntas, problematizar questões e articular teorias. Criar teoria, portanto, não é repetir, mas estranhar as visões convencionais e repensar práticas e experiências que nos constituem como sujeitos em formação.

Veiga (2003) complementa essa perspectiva ao afirmar que pesquisar pode ser visto como “um conjunto de procedimentos e investigações e análise quase prazerosa, sem maiores preocupações com regras”, indicando que o percurso investigativo não é linear, mas cheio de curvas, contornos e múltiplas tentativas.

Assim, no pensamento pós-crítico, a pesquisa qualitativa não possui um método previamente recomendado: ela se constrói gradativamente a partir dos instrumentos mobilizados, das problematizações formuladas, das leituras realizadas e das experimentações possíveis. O que sustenta esse processo é a capacidade de analisar, elaborar problemas e desconstruí-los, abrindo espaço para a invenção de novos modos de compreender e interrogar a realidade educacional.

O pós-crítico parte da premissa de que toda pesquisa tem relevância, ainda que não esteja orientada pela busca de uma verdade absoluta. Trabalha-se, nesse contexto, com o pressuposto de que é necessário considerar todos os discursos envolvidos no processo, aqueles que constituem o objeto de análise e também o discurso produzido pelo próprio pesquisador (a) , pois todos se integram e dão forma à construção do conhecimento.

O impulso da pesquisa, portanto, não está em alcançar uma resposta final, mas em encontrar saídas, em inventar novas maneiras de pensar e se mover dentro do campo investigativo. O discurso produzido hoje, nesse sentido, inscreve-se na luta permanente de produzir ciência. Meyer e Paraíso (2012) compartilham dessa perspectiva ao defender que o discurso não apenas representa a realidade, mas a constrói.

Cabe, então, ao pesquisador (a) analisar, problematizar e criar estratégias que possibilitem a produção de novos discursos, compreendidos como ferramentas de investigação capazes de produzir objetos, práticas, significados e sujeitos. Dessa forma, compreendemos que a pesquisa, dentro do viés pós-crítico, implica reconhecer sua essência processual, marcada pela construção de conhecimento e pela criação de novos caminhos.

Assim, a metodologia deixa de ser algo pré-definido e passa a constituir-se como criação em movimento, guiada pelas perguntas formuladas, instrumentos mobilizados e criatividade teórico-metodológica que se desenvolve ao longo da investigação. Nessa perspectiva, investigar vai além da mera coleta de dados, é também intervir, pois cada escolha metodológica gera possibilidades singulares de inteligibilidade e de reinvenção do próprio campo de pesquisa.

Ao compreender a pesquisa qualitativa como um processo dinâmico abrimos caminhos para a reflexão sobre como se constroem, na prática, os percursos investigativos, não se trata apenas de delimitar técnicas ou métodos, mas sim de reconhecer que cada processo de descoberta exige sua própria arquitetura, marcada pela historicidade e contextos, estes que são inseridos pelas escolhas teóricos metodológicas as quais o pesquisador (a) realiza.

Dessa maneira, os caminhos investigativos não se configuram como trilhas lineares, mas como movimentos que articulam teoria e empirismo, abrindo possibilidades para novas formas de pensar e intervir no campo educacional. A pesquisa deixa de ser um processo passivo de mera reprodução para se tornar espaço de deslocamentos e desdobramentos, em que negar a lógica de um método prescritivo é condição para afirmar a potência de modos singulares de investigar.

Esses modos não respondem a manuais ou regras fixas, mas aos questionamentos que emergem no próprio ato de pesquisar, reafirmando a pesquisa como prática viva e criadora. Mais do que seguir uma rota, o pesquisador (a) se coloca em movimento, permitindo-se construir um percurso que não é linear, mas cheio de desvios, curvas e brechas pelas quais o pensamento pode escapar.

Pesquisar vai além de aplicar métodos: requer coragem para lidar com o incerto e com as contradições que emergem no processo investigativo. Como afirma Costa (2002), não há receitas prontas para pesquisar em educação, pois cada investigação constrói seus próprios caminhos conforme o contexto e as perguntas que a movem. Assim, pesquisar é reconhecer que não existem métodos fixos, mas movimentos singulares entre o objeto, o contexto e a subjetividade do pesquisador (a).

Se cada pesquisa inventa caminhos próprios, como é afirmado por Costa, também é preciso reconhecer que esses caminhos não são realizado sem risco, pesquisar nesse sentido, estaria diretamente ligado ao discurso que se desloca ou a interpretação que se reconfigura, não se tratando apenas de eliminar as incertezas, mas de aceita – las como parte do processo de investigação.

Compreendemos que ao atravessar as fronteiras da pesquisa estamos nos movendo em zonas de diferentes saberes, discursos e práticas, é delas que partem as tensões e criações, onde o pesquisador (a) se vê na função de reposicionar conceitos, reinventar sua perspectiva e negociar os sentidos. A potência da pesquisa pós escrita se produz através da recusa de verdades já instituídas, é assumir o desafio de pensar com o imprevisto, os deslocamentos para transformar o ato de investigação passiva em um exercício de constante problematização.

Portanto, pensar a pesquisa qualitativa sob o olhar pós-crítico é compreender que a produção de conhecimento científico não se reduz à simples organização ou reprodução de dados, mas se abre à invenção, ao diálogo e à problematização da realidade que nos cerca. González Rey ressalta a centralidade da subjetividade e a inseparabilidade entre teoria e empiria, enquanto outros autores citados neste artigo evidenciam o risco, a fronteira e a instabilidade como dimensões constitutivas da investigação. A pesquisa, assim, não se afirma como um conhecimento pacífico, mas como um exercício acadêmico que se torna prática ética e política, comprometida em questionar, refutar e abrir trilhas para pensar e viver a educação. Nesse horizonte, investigar é também transformar: é deslocar o olhar dos professores e da sociedade, reconhecendo nas pequenas impressões da realidade a força e a relevância dos objetos que elegemos como dignos de pesquisa.

Referências

Costa, Marisa Vorraber; VEIGA-NETO, Alfredo; LARROSA, Jorge; GRÜN, Mauro. Caminhos investigativos I: novos olhares na pesquisa em educação. 1. ed. São Paulo: Lamparina, 2007. ISBN 978-85-98271-37-8.

Costa, Marisa Vorraber. Caminhos investigativos II: outros modos de pensar, caminhos e fazer pesquisa em educação. 1. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. ISBN 978-85-7490-170-1.

Costa, Marisa Vorraber. Caminhos investigativos III: riscos e possibilidades de pesquisar nas fronteiras. 1. ed. São Paulo: Lamparina, 2018. ISBN 978-85-8316- 052-6.

González Rey, Fernando. Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção da informação. São Paulo: Cengage Learning, 2006. ISBN 978-85-2210- 477-2.

Meyer, Dagmar Estermann; PARAÍSO, Marlucy Alves (Orgs.). Metodologias de pesquisas pós-críticas em educação. 3. ed. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2021. ISBN 978-65-5749-012-9.

* Graduanda de pedagogia junto a Faculdade de Educação – FACED, da Universidade Federal do Amazonas

– Ufam. Membro do Grupo de Pesquisa em Estudos pós-Críticos e Decolonais – GRUPED. E-mail: elizabeli.oliveireira@ufam.edu.br.

Professora do Departamento de Método e Técnicas do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação – FACED, da Universidade Federal do Amazonas – Ufam. Pós Doutora em Educação na Amazônia. Membro do Grupo de Pesquisa em Estudos pós-Críticos e Decolonais – GRUPED. Email: rozanealonso@ufam.edu.br

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