Sobre o peso das palavras

SOBRE O PESO DAS PALAVRAS
Quando o silêncio também conta uma história
A construção dos monumentos era metade da história, mas o resto era interpretação. No entanto, havia algo pior que o esquecimento, a saber, a interpretação equivocada, a parcialidade, a apresentação seletiva dos acontecimentos.
Rachel Cusk

Por Margarete Hülsendeger
Rachel Cusk é uma escritora canadense que vive no Reino Unido e é vista como uma das autoras mais originais da ficção atual. Depois de escrever romances mais convencionais, ela mudou completamente seu jeito de contar histórias com a trilogia formada por Esboço (2014), Trânsito (2016) e Prestígio (2018). Nesses livros, ela deixou de lado as tramas tradicionais e passou a usar um estilo mais introspectivo, onde escutar e observar viram o centro da narrativa.

Em Esboço, a personagem principal — uma escritora que vai para Atenas dar um curso de escrita criativa — quase não fala sobre si mesma. O que a gente lê, na maior parte do tempo, são os relatos das pessoas que ela encontra: colegas, alunos, amigos e até desconhecidos. Ela escuta tudo com atenção, sem interromper ou julgar, e é a partir dessas conversas que o livro vai sendo construído. Em vez de uma história com começo, meio e fim, o que temos são pedaços da vida dos outros, contados em falas sobre perdas, arrependimentos, desejos e dilemas que fazem parte da vida adulta.
Apesar de a narradora parecer quase ausente, há momentos em que sua voz aparece com força. Em uma das passagens mais marcantes, ela diz: “Não existia infância perfeita, embora as pessoas façam de tudo para convencer você do contrário. Uma vida sem dor era algo que não existia”.Essa fala quebra o tom neutro da escuta e mostra uma consciência madura, cheia de experiências e livre de ilusões — algo que se conecta com muitas das histórias que ela ouve ao longo do livro.
A escolha da autora de manter a narradora quase invisível é corajosa. A gente sabe bem pouco sobre ela, mas, aos poucos, vai percebendo que ela também carrega suas dores: o fim de um casamento, a distância dos filhos, um momento de mudanças na carreira. Só que essas informações aparecem de leve, nas bordas das conversas, como se a protagonista fosse sendo desenhada a partir das histórias dos outros — um verdadeiro esboço.
Atenas, onde a história se passa, não aparece de forma turística ou idealizada. O calor intenso do verão e a paisagem cheia de ruínas criam um cenário carregado de simbolismo, como se o passado e o presente estivessem sempre em diálogo.
Em uma das cenas do livro, a narradora fala justamente sobre essa tensão entre memória e esquecimento: “Em termos históricos, silenciar era esquecer, e isso era coisa que as pessoas mais temiam, quando era sua própria história que corria o risco de ser esquecida”. Nesse contexto, o ato de contar — e de escutar — ganha um peso existencial. Lembrar de si mesmo vira uma forma de resistir ao esquecimento.
O estilo de Rachel Cusk é direto, elegante e contido. Não há exageros nem grandes explosões emocionais. A força do livro está justamente na delicadeza com que ela trata de assuntos profundos e universais. Ao dar espaço para que outras vozes apareçam, a autora convida o leitor a enxergar a literatura como um exercício de empatia: escutar o outro é também, de certa forma, escutar a si mesmo.
Dentro dessa proposta, a escolha da autora de fechar o livro com o jogo de sentidos entre as palavras “solícito” e “solitário” ganha ainda mais peso. Essas duas palavras — parecidas no som, mas diferentes no significado — funcionam como uma espécie de chave simbólica para a jornada da narradora.
“Solícito” remete à disposição de ajudar, ouvir e acolher o outro com atenção e cuidado — algo que define bem a postura dela ao longo do livro. Já “solitário” aponta para o estado de estar só, para uma existência recolhida, silenciosa, talvez até invisível. O que Cusk parece sugerir, ao aproximar esses dois termos, é que a solicitude pode ser também uma forma de solidão.
Esboço é, portanto, um romance sobre o silêncio, a escuta e as muitas maneiras de se contar uma vida. Ao apagar a presença da narradora, Cusk ilumina as histórias que tantas vezes passam despercebidas — e mostra que, mesmo nos momentos de aparente inércia, algo essencial está sempre em movimento.







