O não-lugar do ser: Um Defeito de Cor e a ferida aberta do colonialismo

O NÃO-LUGAR DO SER: UM DEFEITO DE COR E A FERIDA ABERTA DO COLONIALISMO NO BRASIL

                  Autora: Ana Beatriz Sousa Silva dos Santos

             Orientador: Astrogildo Fernandes da Silva Junior

Resumo

Este artigo reflete sobre a aparente ascensão de pessoas negras a posições de poder na sociedade contemporânea. A temática central questiona a veracidade desse poder, contrastando a visibilidade em espaços de mídia, moda e entretenimento com a persistente ausência em setores estruturais, como a educação. O objetivo é analisar criticamente até que ponto esse “poder” é concedido, argumentando que ele é superficial e condicional, tolerado apenas enquanto não incomoda a estrutura de poder branca. Utilizando como referência a obra Um Defeito de Cor e experiências pessoais, o artigo discute como a falta de professores negros na formação escolar impacta a subjetividade de crianças negras, gerando sentimentos de “deslocamento” e “não pertencimento”. Conclui-se que a ausência de referenciais negros em posições de autoridade fragiliza a autoestima racial e demonstra que, apesar dos avanços superficiais, a sociedade ainda relega o negro ao lugar da subserviência, limitando sua independência e poder real.

Palavras-chave: Embranquecimento.Representatividade. Poder. Não pertencimento.

Abstract

This article reflects on the apparent rise of Black people to positions of power in contemporary society. The central theme questions the veracity of this power, contrasting the visibility in media, fashion, and entertainment spaces with the persistent absence in structural sectors, such as education. The objective is to critically analyze the extent to which this “power” is granted, arguing that it is superficial and conditional, tolerated only as long as it does not disturb the white power structure. Using the work Um Defeito de Cor (A Defect of Color) and personal experiences as references, the article discusses how the lack of Black teachers in formal education impacts the subjectivity of Black children, generating feelings of “displacement” and “non-belonging”. It concludes that the absence of Black role models in positions of authority weakens racial self-esteem and demonstrates that, despite superficial advances, society still relegates Black people to a place of subservience , limiting their independence and real power.

Keywords: Representation. Power. Non-belonging.

Introdução

A experiência colonial, como diagnosticou Aimé Césaire (1978), não foi um movimento civilizatório, mas um processo de “descivilização” do colonizador e de “coisificação” do colonizado. Essa redução do ser humano à condição de objeto, analisada em suas devastadoras consequências psíquicas por Frantz Fanon (2008), que identificou o desejo do negro de usar “máscaras brancas”, não é uma relíquia histórica. Grada Kilomba (2019) a define como “uma ferida que nunca foi tratada”, cujas memórias da plantação se manifestam em “episódios de racismo cotidiano”. Albert Memmi (2007), ao dissecar a relação colonial, descreveu o colonizado como um ser posto “fora da história”, preso em um papel que não escolheu, definido pelo olhar do “usurpador”.

No Brasil, essa ferida é mascarada pelo “mito da democracia racial”, um eficaz mecanismo de dominação ideológica que, como aponta Lélia Gonzalez (sd), se articula com a “ideologia do branqueamento”. Este complexo cenário de negação e violência psíquica encontra sua mais profunda tradução literária na obra Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. O romance funciona como uma vasta genealogia do trauma, traçando as origens das marcas indeléveis que o colonialismo e a escravização imprimiram na população negra brasileira. Este artigo busca analisar como Um Defeito de Cor articula o sentimento de “não pertencimento” e “deslocamento” que define a experiência negra no Brasil, evidenciando as marcas persistentes da “coisificação” colonial.

  1. Um Defeito de Cor: A Genealogia da “Coisificação”

O colonialismo, em sua essência, é a negação da humanidade do outro. Césaire (1978) é categórico: “colonização = coisificação”. Um Defeito de Cor é a narrativa dessa coisificação em primeira pessoa. A trajetória de Kehinde, a protagonista, é a própria encarnação da dialética colonial: ela é arrancada de sua humanidade na África e transformada em mercadoria no Brasil. Sua história não é apenas sua; é a história de milhões de seres humanos que, nas palavras de Fanon (2008), se descobrem “objeto em meio a outros objetos”.

A marca mais profunda do colonialismo é esse silenciamento. Grada Kilomba (2019) utiliza a metáfora da “máscara” como o instrumento colonial de mudez forçada. Um Defeito de Cor, como romance, é o ato de arrancar essa máscara. A obra preenche o silêncio histórico com uma voz que narra o trauma, a perda e a violência. A própria estrutura do livro, a sua densidade, sua memória torrencial, funciona como um contraponto direto à amnésia histórica que, segundo Albert Memmi (2005), é imposta ao colonizado, que “parece condenado a perder progressivamente a memória”.

A obra portanto, não é apenas um resgate do passado; é a reconstituição de um “eu” que foi sistematicamente desumanizado. Ao narrar a si mesma, a protagonista passa da condição de “coisa” para a de sujeito, um movimento que Fanon (2008) identifica como a primeira urgência do colonizado.

2. O Preço da Ascensão: Branqueamento e “Não Pertencimento”

Se a colônia impôs a desumanização, o pós-abolição brasileiro, estruturado sob o mito da democracia racial, impôs uma nova violência: a assimilação como condição para a humanização. Neusa Santos Souza (1983), em Tornar-se Negro, diagnostica com precisão esse dilema: o negro em ascensão social “paga o preço do massacre mais ou menos dramático de sua identidade”, pois “tomou o branco como modelo de identificação, como única possibilidade de ‘tornar-se gente'”.

Essa é a “ideologia do branqueamento” de Lélia Gonzalez, a “lactificação” de Fanon (2008). O próprio título da obra, Um Defeito de Cor, aponta para essa ferida narcísica onde a negritude é vista como um “defeito” a ser corrigido ou superado. Esse sentimento é comum nas pessoas pretas que se identificam sentimentos profundos de “deslocamento e insegurança afetiva” que marcam a vivência de pessoas negras. A ausência de representatividade, como a falta de professores negros na trajetória escolar, é uma manifestação moderna dessa ideologia. Essa falta “contribui para o sentimento de ‘não pertencimento’, pois não ver pessoas negras em posições de referência e autoridade pode reforçar a ideia de que certos espaços não são feitos para nós”.

Esse “não-lugar” é a marca psíquica do colonialismo no Brasil. Por isso, considero que a “era dos pretos no poder” é questionável, pois essa suposta ascensão é condicional. O poder é permitido “até os incomodarmos eles (pessoas sem cor)”. Essa aceitação condicionada é a versão contemporânea da “máscara branca” de Fanon (2008): o negro é aceito desde que se torne um “negro de alma branca”, um “equivalente moral do ‘branco'”. A obra de Ana Maria Gonçalves expõe as raízes dessa exigência, mostrando como a busca pela liberdade dos descendentes de Kehinde passa, invariavelmente, pela negociação com o mundo branco e seus valores.

3. As Respostas do Colonizado: Da Assimilação à Revolta

Albert Memmi (2005) postula que o colonizado, preso em sua condição, tem historicamente duas saídas: a assimilação ou a revolta.

A assimilação é a primeira tentativa. É o caminho do “ódio de si mesmo”, a tentativa de “mudar de pele” e “destruir-se” para ser aceito. No Brasil, essa via foi a estratégia dominante, alimentada pela “ideologia do embranquecimento”. É a trajetória do negro que, para ascender, precisa “ser o melhor”, como descreve Neusa Santos Souza (1983), provando incessantemente sua capacidade de “agir como equivalente moral do ‘branco'”. No entanto, como Memmi (2005) adverte, a assimilação é impossível porque o colonizador, em última instância, a recusa. O “defeito de cor” nunca é totalmente apagado.

Fracassada a assimilação, resta a revolta. A revolta é a “reconquista de si mesmo”. Um Defeito de Cor, enquanto artefato cultural, é em si um ato de revolta. Ele recusa o silêncio e a amnésia histórica. A obra de Gonçalves é um ato de “descolonização do eu”, um processo que Grada Kilomba (2019) descreve como “reunindo os fragmentos do colonialismo”.

A marca do colonialismo, portanto, não é apenas a opressão física, mas a inscrição da dúvida sobre o próprio ser. É o negro sendo “sobredeterminado pelo exterior”, como diz Fanon (2008). A leitura de Um Defeito de Cor nos permite entender que a “ferida” colonial não é uma metáfora, mas uma realidade psíquica que se manifesta no “não pertencimento”, na “insegurança afetiva” e na luta constante contra um “defeito” que nunca existiu.

Conclusão

Um Defeito de Cor demonstra que as marcas do colonialismo no Brasil são, acima de tudo, psíquicas e persistentes. A “coisificação” denunciada por Césaire (2005)e a “ferida” de Kilomba (2019) não são eventos do passado, mas estruturas que continuam a organizar o presente. O romance de Ana Maria Gonçalves, ao registrar a voz silenciada de Kehinde, expõe a violência da “ideologia do branqueamento” e o “massacre da identidade” que ela exige.

Refletir sobre Um Defeito de Cor é entender que o sentimento de “não pertencimento” sentido por pessoas negras hoje é o resultado direto de um projeto colonial que, como Fanon (2008) e Memmi (2005) apontaram, primeiro inferioriza o colonizado e depois o coloca fora da história.

A superação dessa marca colonial não está na negação da negritude, mas em sua reivindicação. Como conclui Neusa Santos Souza (1983), “ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro”. A monumental jornada de Kehinde, de objeto a sujeito de sua própria história, é o próprio mapa desse “tornar-se”.

Referências

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Tradução de Noémia de Sousa. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1978.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. São Paulo: Record, 2006. [Citado a partir de SANTOS, 2025].

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano. [S.l.: s.n., s.d.]. (Arquivo: TEXTO LÉLIA (POR UM FEMINISMO NEGRO).pdf).

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido de retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. (Coleção Tendências, v. 4).

Ana Beatriz Sousa Silva dos Santos*
*Estudante de pedagogia. Pesquisa em assuntos étnico raciais pela Faculdade Federal de Uberlândia. E-mail: partes@partes.com.br

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